quinta-feira, outubro 6, 2022
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Jaqueline Goes, a pesquisadora que luta por mais mulheres na ciência

Quando Jaqueline Goes de Jesus, de 32 anos, era criança, seus livros de ciência mostravam imagens e faziam menções a Albert Einstein, Charles Darwin e Galileu Galilei. Com sorte, em algum deles figurava também Marie Curie, física e química que ganhou dois prêmios Nobel pelos resultados de suas pesquisas e um dos poucos nomes (para não dizer o único) que vem à mente quando se fala do desempenho de mulheres nessa área. A partir do ano que vem, no entanto, algumas crianças verão em seus livros didáticos outra cientista: brasileira como elas, mulher, negra.

A biomédica, que ficou internacionalmente conhecida ao decodificar o genoma do SARS-Cov-2, causador da pandemia de covid-19, já recebeu pedidos de editoras para licenciar o uso de sua imagem nessas obras escolares. “É preciso mostrar exemplos e trazer para esses alunos, principalmente para as meninas, mulheres em posições de destaque em várias áreas, inclusive na ciência e tecnologia. Para a minha geração isso não era normal, e hoje temos a obrigação de mostrar que são caminhos possíveis“, diz ela em entrevista por vídeo a CLAUDIA, no marco dia Dia da Mulher na Ciência, celebrado nesta sexta-feira (11).

As mulheres representam 57% do total de matriculados em instituições de ensino superior no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Educação, e as pesquisadoras representam 53% do total de bolsistas de pós-graduação, mas o afunilamento da participação delas na carreira científica não reflete essa realidade. O relatório Education at Glance 2019, feito pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicou que as brasileiras têm 34% mais probabilidade de se formar no ensino superior do que os homens, mas têm menos possibilidades de conseguir emprego na área. Jaqueline quer mudar esse panorama. “Os colegas do gênero masculino conseguem mais recursos para seguir com suas pesquisas. Nós temos que alcançar um percentual que seja, no mínimo, proporcional ao número de mulheres que fazem parte, nos bastidores, dos processos científicos do Brasil”, diz.

Para ela, é fundamental que esse processo comece na infância, principalmente porque as meninas começam a considerar-se menos inteligentes que os meninos a partir dos seis anos, como mostra uma pesquisa publicada na revista Science em 2017 – e isso tem consequências nas aspirações profissionais no futuro. “As meninas precisam saber das disparidades de gênero no mundo, mas também precisam ter exemplos a serem seguidos para romper essa realidade. Eu fico muito feliz por ser considerada um desses exemplos. Até ser conhecida mundialmente, eu era mais uma cientista, mais uma pesquisadora, como tantas outras que fazem trabalhos incríveis e não têm divulgação”, conta.

Na sua infância, ela diz não ter notado diferenças de gênero, porque seus pais sempre estimularam tanto ela quanto seu irmão mais novo para a educação. Só se deparou com as disparidades ao ingressar na universidade e começar a fazer iniciação científica. “Achava estranho o fato de ter muitos pesquisadores homens e pouquíssimas mulheres como pesquisadoras titulares. Existia uma certa diferença de tratamento de alguns deles comigo em relação a estudantes do gênero masculino, de nem sequer dar ‘bom dia’ ao passarem por mim”, lembra. 

Obstáculos

Também na ciência, as mulheres se veem obrigadas a escolher entre maternidade e carreira e, segundo Jaqueline, isso afeta a produtividade acadêmica. “Durante a parentalidade, elas, que geralmente são cuidadoras primárias dos filhos, acabam assumindo mais responsabilidades domésticas e, muitas vezes, de cuidados com terceiros.” A cientista lamenta que a legislação brasileira contribua para isso: mães têm 180 dias de licença, enquanto pais têm cinco dias. “É a sociedade dizendo: ‘olha, só garantimos, por lei, o cuidado materno para essa criança’”, afirma a pesquisadora, direto do Reino Unido, onde desenvolve um projeto de pós-doutorado para criar e aprimorar protocolos de sequenciamento de genomas, com foco no vírus da dengue tipo 2.

Essa era a pesquisa que a biomédica já desenvolvia antes da pandemia de coronavírus, que ela considera um marco não apenas em sua trajetória, mas no contexto da ciência e educação brasileiras. “Mesmo com a falta de incentivo à pesquisa, com recortes no financiamento, mostramos que somos capazes de fazer um trabalho de ponta. Mostramos, inclusive, que tem muita ciência de qualidade feita por mulheres no Brasil.” Jaqueline diz ter “um desejo muito grande” de continuar sua pesquisa no país e retribuir o investimento que foi feito nela, mas admite que a falta de recursos tem motivado a chamada “fuga de cérebros” – a migração de cientistas e outros pesquisadores – para outros países. “Mesmo que a gente eleja outro governo que se preocupe com ciência, vamos demorar para recuperar o patamar de investimento que tínhamos antes. É um esforço para além do necessário.”

Representatividade

Jaqueline conta, entre risos, que precisou lidar com uma “batata quente” quando ganhou projeção por seu trabalho na pandemia. Ela lembra que muitas páginas dos movimentos negros nas redes sociais repercutiram seus logros e ela tornou-se um símbolo de representatividade. “De início fiquei muito preocupada, porque, apesar de ser uma mulher negra e nordestina, sou muito privilegiada. Nunca tive luxo em casa, mas nunca me faltou nada, e venho de uma família emocionalmente estruturada. Estudei em escolas particulares muito boas, fiz uma graduação paga. Minha realidade não é similar a da maioria dos jovens negros no Brasil“, diz.  Aos, poucos, ela entendeu que o simples fato de ser uma mulher negra e nordestina em um espaço de destaque na ciência mexe com o imaginário social. “Quando compreendi que o simples fato de ser quem sou e estar onde estava já inspirava as pessoas, decidi embarcar nessa missão de fazer meninas sonharem em ser melhores.”

Para além de suas ambições profissionais, seu grande projeto é visitar escolas públicas (ainda que apenas virtualmente) e dar aulas e palestras sobre a importância de meninas e mulheres na ciência. Jaqueline conta que, recentemente, soube de escolas que batizaram turmas com seu nome e que pintaram seu rosto em paredes. “Parece pouco, mas imagina uma pessoa negra passar ali e todo dia ver a imagem de uma cientista como ela?.”

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