sábado, novembro 26, 2022
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Santa Bakhita: mulher, negra e lutadora contra a escravidão e o tráfico de pessoas

O horror e brutalidade dos traficantes a vez esquecer o próprio nome. Passou a ser chamada por seus raptores de Bahkita, que quer dizer afortunada

Josefina Bakhita nasceu em Darfur, no Sudão em 1869. Seu pai era irmão de um chefe tribal. Ainda na infância foi raptada e escravizada. O horror e brutalidade dos traficantes a vez esquecer o próprio nome. Passou a ser chamada por seus raptores de Bahkita, que quer dizer afortunada. A menina de 9 anos foi exposta como mercadoria, torturada, chicoteada, acorrentada e escravizada. Experimentou ainda criança todo tipo de sofrimento e dor.

Certa ocasião o filho de seu senhor espancou-a tanto que ela passou um mês sem conseguir levantar-se de seu colchão de palha. A mais aterrorizante lembrança foi a de seu quarto senhor, oficial do exército otomano, que mandou marcá-la como sua propriedade. Em suas memórias, ela evoca o momento em que um prato com farinha, um prato com sal e uma navalha foram trazidos por uma mulher, que fez desenhos em sua pele e fez cortes profundos, seguindo as linhas traçadas, aplicando nas feridas sal e farinha para cicatrizar. Mais de sessenta desenhos foram cortados em seu peito, barriga e braços.

Depois de ser vendida por várias vezes como objeto, foi dada de presente a uma família que vivia na Itália, onde passou a ser babá. Durante uma viagem do casal ela e a criança de quem cuidava, foram deixadas sob responsabilidades das Filhas de Santa Madalena de Canossa (Canossianas), na Itália. Ali, Bakhita conheceu o Evangelho. Foi batizada em 1890 com o nome de Josefina e tornou-se uma religiosa.

Em Schio, onde viveu muitos anos, todos a chamam a ‘nossa Irmã Morena’. Bakhita viveu a caridade, a humildade, a esperança e a fé. Como Cristo, perdoou seus torturadores. Doente reviveu a agonia dos anos de sua escravidão e suplicava à enfermeira que a assistia: “Solta-me as correntes … pesam muito!”. Faleceu em 1947.

Muitas são as graças alcançadas por sua intercessão. Uma delas, na cidade de Santos, conferiu a ela o título de santa. Em 1976, Eva Onishi recebeu diagnóstico de diabetes melito. Em 1991, devida a complicações da doença, deveria amputar uma das pernas. No ano seguinte recebeu a visita de uma religiosa canossiana que lhe apresentou a vida de Bakhita. Em 27 de maio do mesmo ano, rezou por sua cura. Sete dias depois estava curada.

Bakhita foi proclamada santa em 2000, a primeira africana. Durante a canonização João Paulo II declarou: “Na Santa Josefina Bakhita encontramos uma luminosa advogada da emancipação autêntica. A história da sua vida não inspira a aceitação passiva, mas a firme determinação para realizar uma obra eficaz, a fim de libertar jovens e mulheres da opressão e da violência e restituir-lhes a liberdade no exercício total dos seus direitos”.

A realidade de Santa Bahkita é semelhante a realidade de milhares de mulheres e crianças. Estima-se que o tráfico de seres humanos faça mais de 25 mil vítimas por ano no mundo e movimente cerca de 32 bilhões de dólares. Segundo a ONU, 72% das vítimas são mulheres e crianças, como Bakhita. No Brasil, em 18 meses o disque 100 registrou 301 casos: 50,1% de crianças e adolescentes.

08 de fevereiro, dia em que Bakhita faleceu, foi instituído por Papa Francisco como Dia Mundial de Oração e Reflexão Contra o Tráfico de Seres humanos. A campanha desde ano tem como tema “A força do cuidado, mulheres, economia, tráfico de pessoas”. Mulheres e meninas são as mais afetadas pela violência. Mas são elas as protagonistas na economia que propõe Papa Francisco: humana, justa, sustentável.

Situações de vulnerabilidade das mulheres e meninas favorece o tráfico de pessoas. “Esta é uma ferida profunda, provocada pela procura vergonhosa de interesses, sem respeito algum pela dignidade humana” (Papa Francisco).

Sofrimento mais do que assustador. “A violência sofrida por toda mulher e menina é uma ferida aberta no corpo de Cristo, no corpo de toda a humanidade, é uma ferida profunda que diz respeito também a cada um de nós”, ressalta o Papa.

“Reconhecer a dignidade. Cuidar faz bem a todos, a quem dá e a quem recebe, porque não é uma ação unidirecional, mas gera reciprocidade. Deus cuidou de Josefina Bakhita, a acompanhou no processo de cura das feridas causadas pela escravidão a ponto de tornar seu coração, sua mente e suas entranhas capazes de reconciliação, liberdade e ternura, acolhimento e escuta” (Papa Francisco).

A força do cuidado é único caminho possível no combate ao tráfico de pessoas e todas as formas de violência. “Convido todos a manterem viva a indignação – manter viva a indignação! […] todos os dias encontrar forças para se comprometer com determinação nesta frente. Não tenham medo diante da arrogância da violência” (Papa Francisco).

Bakhita é inspiração na luta contra todas as formas de escravidão. Basta de tantos horrores!

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