Jarid Arraes procura a poesia entre o cordel e a emancipação da mulher

Reedição de volume lançado inicialmente em 2018, “Um Buraco com Meu Nome” é tido como a estreia de Jarid Arraes na poesia. A fórmula não está equivocada, mas pode talvez eclipsar a influência discreta, apesar de decisiva, do gênero em versos a partir do qual a autora se notabilizou, o cordel.

Ainda que os poemas do livro sejam aparentemente distantes do ritmo que marca os versos da tradição popular, alguns de seus recursos são recorrentes, gerando boas surpresas para o leitor.

Um dos poemas mais marcantes do livro é “Caldeirão”, que tira sua força de recursos afins aos da literatura de folhetos, a começar pela variação a partir do mote, retomado de diferentes maneiras ao longo do poema.

Seu tom provocativo, além disso, decorre da relação ambígua que estabelece com a visão tradicional da divisão sexual do trabalho, que reproduz para criticamente se distanciar. “As mulheres catam grãos/ nos dedos/ e enfiam os dedos/ trocam os dedos/ pelas mãos.” A referência ao clichê (“trocar os pés pelas mãos”), ao o subverter, ventila a perspectiva feminista que marca a coletânea.

As imagens relacionadas ao trabalho feminino costuram a busca pela emancipação da mulher, e a herança dá lugar, pelas mãos da poeta, a novas possibilidades. “Escrevo cada letra como feijões catados na bacia/ reproduzindo os dedos ágeis/ que minha avó possuía.”

Se a opressão e o sofrimento infligido às mulheres, sobretudo as negras, constituem a experiência que origina os poemas, leitor e sujeito poético se unem pelas dores compartilhadas. “Você abre agora/ os braços/ também sentindo/ minha chama.”

O enfrentamento da “vida simbólica/ escorada na autoridade/ dada pelos homens” a autora traz de livros anteriores. Seu percurso no cordel, aliás, passa por despir a técnica —aprendida com o pai e o avô— do machismo que caracteriza os temas tradicionais.

Na sequência de dezenas de folhetos comercializados por Arraes pela internet, “Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis”, lançado em 2017, resgata a história de mulheres como Dandara, Carolina Maria de Jesus e Tereza de Benguela.

Ainda que a visão política emancipadora não seja garantia de bons poemas, composições em torno de outros temas com frequência carecem de vigor.

É o caso, por exemplo, de “Pílula”, que talvez não merecesse ser incluído no conjunto, e “Meio do Céu”, que fala mais diretamente a um nicho, pois mobiliza referências astrológicas e superstição, e não parece tirar partido da estrutura em versos, apostando com pouco sucesso na seleção lexical —“somos ingratos com o acaso/ brincamos com a envergadura da nossa força/ inutilizada pela ânsia”.

Além das quatro seções originais —“Selvageria”, “Fera”, “Corpo Aberto” e “Caverna”—, há uma de poemas inéditos.

As novas composições, mais concisas, revelam a aproximação com a poesia como jogo de palavras. “Declaro a quem possa/ digerir/ que certos princípios/ perderam/ seus fins”, afirma a estrofe inicial do primeiro deles, “Chaotic Neutral”, de algum modo trazendo a lembrança de certos poemas de Ana Cristina Cesar, referência improvável para a primeira edição.

A ideia da poesia como refúgio, que decorre do título, não reflete a proposta viva do livro, que cresce quando investiga a realidade e cria conflito. Como estreia, o volume anuncia a força potencial de um sujeito que vê, nas pessoas ocupando a cidade, “um monte de caco de/ história”. Aí está, provavelmente, o mais interessante dos caminhos vislumbrados.

  • Preço R$ 39,90 (176 págs.); R$ 27,90 (ebook)
  • Autor Jarid Arraes
  • Editora Alfaguara

Luisa Destri

Pesquisadora, é doutora em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo

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