quarta-feira, setembro 22, 2021
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‘Nossos governantes são incapazes de interagir com a racionalidade, com o conhecimento construído pela Humanidade’, diz escritora Cidinha da Silva

Exu vive nas palavras. E Cidinha da Silva também. Aos 54 anos de idade e 15 de carreira literária, a escritora mineira já publicou 19 livros e tem mais de 222 mil exemplares de suas obras em circulação pelo Brasil, além de ter sido traduzida para o alemão, catalão, espanhol, francês, inglês e italiano.

— Quem escreve vive nas palavras, pelas palavras. A palavra é a nossa matéria-prima. É a nossa água primordial — diz Cidinha, que acaba de lançar a versão em audiolivro do premiado “Um Exu em Nova York”, seu primeiro livro de contos publicado em versão física em 2018 pela editora Pallas, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional 2019.

Os 19 contos chegam aos fones de ouvido pela Tocalivros Studios e foram narrados pela própria autora, que realizou um desejo antigo de lançar sua obra em formato de áudio.

Em “Um Exu em Nova York”, a escritora dá continuidade a sua pesquisa literária, centrada, como define a própria, nas “africanidades, orixalidades e ancestralidades” e na “tensão e diálogo entre a contemporaneidade e as tradições africanas, afro-brasileiras, afro-indígenas e afro-diaspóricas.”

Cidinha da Silva é graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e antes de se dedicar à carreira literária e publicar crônicas, contos e ensaios, atuou durante 13 anos no Geledés – Instituto da Mulher Negra, fundado em 1988 por Sueli Carneiro. A escritora chegou a presidir a organização, referência no movimento negro brasileiro, entre os anos de 2000 e 2002, e a reconhece como sua maior escola.

Ela diz que essa foi sua única participação em uma organização política, mas acredita que segue fazendo política ao resgatar ancestralidades africanas e denunciar o racismo na sua escrita. E não hesita em se posicionar.

— Eu sou uma escritora que tem posição política sobre as coisas e sobre o mundo. Entendo que a gente faz política o tempo inteiro — afirma.

Em entrevista à CELINA no Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, Cidinha da Silva fala sobre sua relação com a literatura, sobre o espaço da autoria negra em grandes editoras e aconselha jovens autoras negras que querem mergulhar neste ramo: “É muito mais do que desejo, é trabalho”.

CELINA: O que te levou para a escrita? Quando decidiu que era isso que queria fazer?

CIDINHA DA SILVA: Meu desejo de escrever veio da infância, quando eu descobri os cronistas mineiros, na quinta série. Quando descobri Drummond, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, eu tive vontade de escrever as minhas próprias histórias. O desejo de escrever nasceu ali, naquele momento e foi sendo acalentado ao longo dos anos. Mas eu comecei a publicar literatura de fato em 2006, com 39 anos.

Teve um incentivo familiar para esse desejo de escrever?

Não, era uma coisa minha. O que tive foi incentivo para estudar. A escola sempre foi um valor para a minha família.

“Um Exu em Nova York” é seu 13º livro. Você escreveu muito nos últimos anos. O que diria que ele tem em comum e no que ele se difere do restante da sua obra?

Ele é um livro de contos. A maior parte dos meus livros são de crônicas. Tenho quatro livros infanto-juvenis e dois livros importantes de ensaios. O que ele tem em comum é que, na verdade, “Exu” é uma síntese bem acabada do que tem sido a minha pesquisa, que passa por africanidades, orixalidades, ancestralidades, a tensão e o diálogo entre tradições e contemporaneidade. Tradições entendidas como africanas, afro-brasileiras, afro-indígenas e afro-diaspóricas. Isso que eu comecei lá trás, no meu primeiro livro de crônicas, que se chama “Cada Tridente em Seu lugar” (2006), alcançou o seu ápice até o momento, porque eu não morri ainda, em “Exu”.

Como foi revisitá-lo dessa forma, narrando? Como a oralidade impacta a história?

Foi muito interessante. Eu tenho uma memória de narrativas de áudio desde muito cedo. Acompanhava alguns amigos que liam livros para um instituto em Belo Horizonte chamado São Rafael, que atua com pessoas que não enxergam ou que têm baixa visão.  Em alguns momentos cheguei a pensar em fazer, mas não conseguia conciliar horários e também me parece que a narração é algo que as produtoras e editoras dão preferência para profissionais, atrizes, atores, locutores, locutoras. Mas entendo que quem escreve o livro tem uma dicção única para vocalizar o texto. Foi possível com o “Exu” e já estou gravando um segundo livro também, o “#Parem De nos Matar”.

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Foto: Divulgação

No prefácio de “Um Exu em Nova York”, Wanderson Flor do Nascimento diz que Exu vive nas palavras. Assim como Exu, a senhora também vive nas palavras?

Sim, quem escreve vive nas palavras, pelas palavras. Anda com as palavras. A palavra é a nossa matéria-prima. É a nossa água primordial.

Qual é o poder que essas palavras têm de transformar a realidade?

As palavras têm poder. As tradições africanadas e indígenas trabalham a palavra como um elemento de poder, de transformação, de cura. A palavra tem poder de acalantar e poder de destruir. O uso desses poderes vai depender de quem faz o manejo, de quem utiliza as palavras e de quem as recebe. Nós vivemos um momento da História do Brasil, por exemplo, que os nossos governantes são incapazes de interagir com a palavra da racionalidade, com a palavra da ciência, com a palavra do conhecimento construído e acumulado pela Humanidade. As palavras quando têm uma escuta que não é qualificada podem se tornar inócuas, como é o que acontece hoje com o governo.

Seu livro ‘Os nove pentes D’África’ passou a integrar o Programa Nacional do Livro Didático no ano passado. Como foi esse processo? Qual é a importância deste livro poder ser lido por milhares de alunos Brasil afora?

O processo é dificil, complexo e longo. Começa com a escolha que a editora faz no seu catálogo para apresentar ao PNLD. A minha editora, a Mazza, apresentou o “Pentes”, que é um livro de 2009, só em 2020. Demorou 11 anos para tomar essa decisão de apresentar o meu livro. Ele não poderia ter concorrido em todos os anos, mas já poderia ter sido apresentado. Eu uso esse exemplo para mostrar que é difícil.

Passado esse processo, tem uma comissão muito ampla, composta por profissionais de educação e literatura, que escolhe os livros. Se o livro é escolhido, ele compõe uma lista, que  é encaminhada para as escolas fazerem a escolha final. No nosso caso, foram mais de 156 mil exemplares escolhidos por escolas do país inteiro. É uma alegria saber que o meu livro estará ao lado dos livros que me formaram, dos livros que eu li. Esse meu livro terá a possibilidade de formar outras pessoas, de referenciar outras pessoas. É uma alegria.

Enquanto esteve na escola, leu autores e autoras negros?

Eu li Machado de Assis sem saber que ele era negro. Li também Lima Barreto, mas ele eu sabia que era negro. Machado foi uma descoberta posterior. Os livros de autores negros começaram a chegar as minhas mãos só com uns 16 anos, já no ensino médio. O primeiro que eu li foi uma coletânea chamada “Raça e Cor na Literatura Brasileira”, de David Brookshaw. Ele fazia um apanhado de autoras e autores negros no Brasil e, a partir dali, eu conheci vários nomes.

A gente vê cada vez mais mulheres negras escrevendo e ganhando mais destaque. Mas elas ainda são pouco publicadas por grandes editoras…

Eu discordo dessa leitura. Eu acho que não é mais tão pouco. Está num processo de ascensão. Hoje, no Brasil, os dois principais autores de maior destaque são negros: Itamar Vieira Júnior, que publica pela Todavia, e Jeferson Tenório, pela Companhia das Letras. A Companhia das Letras também está organizando os manuscritos da Carolina Maria de Jesus.

Acho que o mais importante é pensar por que e como esse movimento ocorre, para gente não criar cortinas de fumaça ou se iludir com esses pequenos avanços, por que e como ocorre nas editoras independentes, nas grandes de capital nacional e nos grandes conglomerados, que recebem orientações das matrizes no exterior.

A senhora tem teses para esses porquês e comos?

Tenho algumas. Acho que os conglomerados têm sido pressionados pelas políticas de diversidade que as matrizes adotam na Europa e nos Estados Unidos. Também tem uma força interna, que vem do movimento negro e da produção de autoria negra que força essa mudança. Outro vetor é o público, que tem se interessado por essas histórias e está cansado de ler histórias escritas por homens, brancos, cis, do Sudeste, que têm entre 30 e 40 anos, que são jornalistas. Me parece que entender essa complexidade e testar essas hipóteses é importante para entender essa teia e ir além da constatação que estamos mais presentes nas grandes editoras.

Ao longo de 15 anos de carreira, você foi publicada de forma independente ou por editoras de menor porte. Grandes editoras já lhe fizeram propostas? Ou prefere trabalhar de forma independente?

Não prefiro. Isso se deu pelas contingências. A medida que minha carreira tem se consolidado, editoras maiores têm se interessado pelo meu trabalho. Agora, no mês de setembro, vou publicar um livro pela Autêntica, uma das maiores editoras brasileiras de capital nacional. O livro se chama “O Mar de Manu”, um infanto-juvenil que se passa na costa ocidental do continente africano. É possível que um segundo livro saia pela Autêntica ainda esse ano. Estou muito feliz. É uma editora que vi nascer, é da minha cidade, Belo Horizonte, e que eu sempre admirei. Estar em uma editora maior significa uma melhor distribuição dos livros, poder participar de mais editais governamentais e com isso aumentar a tiragem dos livros e os caraminguás que eu, como autora, recebo.

Antes de publicar o primeiro livro, você atuou no Geledés – Instituto da Mulher Negra por 13 anos e diz que foi a maior escola que já teve. Como foi esse período de aprendizado nesta organização? E qual a importância dela para o movimento negro?

O Geledés foi a organização negra mais importante dos anos 90 e parte dos anos 2000. Foi o período áureo da organização num modelo de intervenção política que se conhecia até aquele momento. Depois Geledés se refez como o portal, e hoje é um dos portais mais importantes do Brasil e talvez o portal negro mais importante.

Geledés tem uma importância enorme na formação das pessoas de diferentes gerações. Nos anos 90, por exemplo, a geração hip hop passou muito pelo Geledés, num projeto chamado Rappers, que ajudou a organizar politicamente o movimento hip hop em São Paulo. Geledés também protagonizou o projeto Geração 21, que foi o primeiro de ação afirmativa para jovens negros no Brasil e que acompanhou um grupo de jovens negros e negras da oitava série até a conclusão da universidade.

Geledés tem uma importância fundadora no movimento negro brasileiro contemporâneo, uma organização fundada e liderada por mulheres negras e que tem sido participante ativa nas propostas e na condução das mudanças para população negra do Brasil nos últimos 32 anos.

Você diz que o Geledés foi a única organização política em que atuou. Escrever também é fazer política?

Eu sou uma escritora que tem posição política sobre as coisas e sobre o mundo. Entendo que a gente faz política o tempo inteiro. Na literatura e na arte como um todo. 

Falando em política, hoje a Fundação Palmares, sob comando de Sérgio Camargo, está literalmente apagando biografias de personalidades negras que marcaram a História brasileira. Como você vê esse momento político e essa atuação na Fundação?

O momento da Fundação Palmares está inserido no momento político do governo brasileiro, que é um governo neo-fascista, extremamente autoritário, que a cada dia destroi mais a democracia. Essa estratégia de apagar as referencias artísticas e culturais é uma estratégia neo-fascista. A mim, causaria surpresa se o dirigente da Fundação Palmares tivesse uma posição diferente dessa. Ele tem uma posição compatível com o governo ao qual ele serve, com o senhor a quem ele serve.

Esse apagamento tem riscos no longo prazo?

Sempre. As pessoas estão destruindo as coisas, os livros. Interferem na memória e constroem referências negativas que podem influenciar muita gente que está em fase de formação. Não sei mensurar, mas acredito que sejam décadas de estrago, e que vamos levar décadas para conseguir recuperar algumas coisas que têm sido destruídas desde 2016, desde a primeira parte do golpe, que foi a deposição da presidenta Dilma.

Tem esperança ou otimismo para as eleições do ano que vem?

Otimismo não. Esperança a gente tem sempre. Mas eu não estou conseguindo pensar no ano que vem, não. Uma das minhas características nessa pandemia tem sido pensar a cada dia, sobreviver a cada dia. Primeiro era esperar a vacina. Eu tomei a primeira dose, a segunda só em setembro. Tem sido esse o compasso da vida, um dia por vez. 

Como tem sido esse ano e meio de pandemia? Está dando para produzir?

Eu sou do grupo que não tem opção, senão produzir. Eu preciso produzir para viver. Sou uma trabalhadora autônoma, se eu não produzir, eu não como. E como decidi ficar viva, tive e tenho que trabalhar. Mas não me queixo de nada, porque conseguir me manter numa condição de auxiliar pessoas próximas que precisaram de ajuda e felizmente não tive do outro lado, de quem precisou de apoio econômico. Isso não é nenhum privilégio, mas é algo que faz com que eu não me queixe.

Mas passo pelas questões emocionais que está todo mundo passando, principalmente as geradas pelo medo, pela insegurança, pelo luto coletivo, pela dor de caminhar para 600 mil vidas perdidas, cujas mortes eram previsíveis e poderiam ter sido evitadas se tivesse havido um tratamento sério, consequente e racional da pandemia. Agora começa a aparecer também a fundamentação desse descaso. O negacionismo é uma cortina de fumaça para a corrupção, para a extorsão. Isso a CPI da Covid tem nos mostrado.

O que você diria hoje para jovens negras que querem escrever?

Eu não sou muito motivacional, não. Eu diria para elas lerem e estudarem muito. Estudarem as autoras que elas têm como referência, que são suas inspirações. É preciso estudar, ver como essas pessoas escrevem, quais caminhos elas adotam para construir suas narrativas, seus poemas, sua linguagem. Quando escrever, submeter a escrita à crítica e ter escuta para crítica que vier e, a partir disso, refazer. Se quer escrever profissionalmente, é muito trabalho. É muito mais do que desejo, é trabalho.

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