Jurema Werneck: Menin@s eu (não) vi!

Era a abertura do Encontro Iberoamericano do Ano Internacional dos Afrodescendentes realizando-se em Salvador, Bahia. No grande auditório, mais de duas mil pessoas, negr@s principalmente, mas também branc@s e indígenas. Todas e todos ativistas e autoridades diplomáticas e governamentais de países iberoamericanos reunidos para mais um dos momentos que marcaram o Ano Internacional e, principalmente, os dez anos dos acordos mundiais contra o racismo, xenofobia e intolerâncias correlatas firmados na África do Sul, na cidade de Durban, em 2001. Em Salvador, brasileiros e brasileiras eram a maioria, lideranças das mais diversas organizações e correntes do Movimento Negro, de todas as tendências, de todas as perspectivas. Nesta cerimônia de abertura e diante Secretário Geral Enrique Iglesias, do Embaixador e ex-ministro da cultura do Brasil Juca Ferreira, do governador da Bahia Jaques Wagner, e de outras autoridades nacionais e internacionais, a Ministra Luiza Bairros foi aplaudida de pé durante longos minutos por todas e todos. Eram mais de duas mil pessoas ovacionando a dirigente da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial antes mesmo que ela pronunciasse seu discurso. Uma recepção calorosa que dizia muito: era o reconhecimento de seus esforços frente à Seppir. Era também, e fundamentalmente, um forte recado, expresso em alto e bom som, para que a presidenta Dilma e algumas vozes descontentes da base do governo ouvissem: o Movimento negro brasileiro e seus aliados nos países ibero-americanos não estão dispostos a abrir mão da Seppir e tampouco de sua dirigente.

por Jurema Werneck para o Portal Geledés

Foi um momento emocionante, reconfortante, um momento que reafirmou a convergência do pluralíssimo Movimento negro brasileiro – mulheres, homens, juventude, religiosos de matriz africana e cristãos, LGBT, rurais, quilombolas, trabalhadoras domésticas e tantas correntes mais – em torno da conquista que a Seppir representa e que a Ministra Luiza Bairros lidera e simboliza (ela mesma uma ativista de longa data neste Movimento).

Mas, curiosamente, não vimos nenhuma repercussão deste momento na grande mídia. Também não vimos repercussão à altura da emoção vivida na noite daquele mesmo dia, na Câmara Municipal da Cidade de Salvador, onde a Ministra Luiza Bairros foi ovacionada pela segunda vez, num outro auditório repleto de gentes de várias partes do mundo, ativistas do Brasil, de vários países ibero-americanos e da África, quando recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares.

Daí a grande surpresa de ver, no dia seguinte, em jornal de ampla circulação nacional, notícia anunciando um suposto descontentamento do Movimento negro com a Seppir, e uma suposta reivindicação dirigida à presidenta de que substituísse a ministra Luiza Bairros.

Esqueceram de combinar conosco que estávamos em Salvador, integrantes e dirigentes das mais variadas correntes e organizações nacionais do Movimento negro, que estávamos lá aplaudindo e comemorando, debatendo e reivindicando, mas ao lado da Seppir e de sua chefe.

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