Karol Conka fala de racismo em caso da banda Fly: “Passei minha vida inteira sendo xingada”

Karol Conka colocou a boca no trombone nas redes sociais para comentar a confusão envolvendo o grupo Fly em denúncias de racismo.

Por PEDRO ROCHA, do Papel PoP

Como você deve ter acompanhado, entre o domingo e a segunda-feira (4 e 5), viralizou na web o comentário de um dos integrantes do Fly, Caíque Gama, sobre trança na revista Atrevida, em que ele disse de que “para quem tem cabelo ruim é uma salvação”.

Pegou mal e a internet inteira caiu em cima, com a Karol sendo uma das que mais criticou o comentário do Caíque nas redes sociais.

“Primeiro, quando eu li, fiquei assustada, depois triste de ver que uma geração de adolescentes que compram a revista, assim como eu fiz há anos, se espelham no que tá sendo divulgado.

Quando o garoto disse ‘para quem TEM cabelo ruim’, fica bem claro que ele se refere a quem tem cabelo crespo, pois ele usa a palavra ‘tem’. Em nenhum momento ele disse ‘para quem acorda com o cabelo num dia ruim’. E em seguida, outro garoto diz como uma menina deve se comportar (se referindo a fotos de biquini). Fiquei puta da cara”, diz a Karol no nosso papo.

A cantora disse ao Papelpop que não conhecia a banda Fly antes desse episódio e que resolveu comentar o caso não como um ataque pessoal, mas como uma forma de luta contra um problema social que atinge minorias há tempos neste país, já que o episódio trouxe à tona recordações de experiências pessoais extremamente desagradáveis da sua infância:

“Tudo que o opressor quer é que o oprimido se cale. Quando isso não acontece, eles falam que é vitimismo. Eu falo mesmo, sei que tô certa. Passei minha vida inteira sendo xingada, o Brasil tá careca de saber quais são as piadas, chega!

As pessoas precisam aprender a respeitar as outras, a se posicionar. Um artista pode ajudar a educar um adolescente que passa por traumas e baixa auto-estima. Uma matéria mal colocada numa revista teen pode gerar uma confusão mental numa garotinha… Eu sei o que estou falando, eu já fui uma garotinha e leitora da revista.”

O episódio acabou trazendo a tona alguns outros comentários antigos do Caíque nas redes sociais, com ofensas não só a negros como também a gays, por exemplo. Com isso, vários internautas começaram uma onda de ataques virtuais contra o cantor, que bloqueou suas contas nessas redes sociais.

Entretanto, para a Karol, fazer isso e pedir desculpas apenas não adianta. Ela acredita que hoje não tem como esconder ou apagar o que se fala e faz.

“A internet dá a possibilidade de sabermos do passado, pessoas aparecem do além com as verdades. Cada ação gera uma reação. Quando alguém vacila feio desse jeito, o negócio é procurar aprender com os erros. Pedir desculpas não adianta, pelo menos pra mim não. Nesse caso, o pedido de desculpa serve pra acabar com o assunto.

E esse assunto não terá fim enquanto houver gente equivocada achando que não vai dar em nada. O Brasil precisa aprender a respeitar as diferenças. Meu conselho é que tenham cuidado quando forem falar da gente, mulheres, gays, negros e pobres. Acredito que somos maioria nesse país, e uma maioria que compra revistas e CDs.”

As críticas da Karol acabaram desencadeando uma ação bem fofa das suas fãs. O post em que ela publicou uma ilustração dela “chutando” os membros do Fly teve, em seus comentários, várias meninas compartilhando fotos dos seus mais variados tipos de cabelo.

“Quase chorei quando vi! Achei muito fofinho! É algo que há anos atrás não aconteceria e a internet ajuda a mostrar que não estamos sozinhas!”

Mas já que estávamos conversando com a Karol, não poderíamos deixar de falar coisa boa e perguntar, também, sobre novidades na sua carreira.

A cantora foi hoje anunciada como uma das atrações do Lollapalooza 2016 e ela nos conta que em breve deveremos ter novidades da sua carreira. “Irei lançar um single novo em instantes! (risos)”, se limitou a dizer, fazendo mistério.

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