domingo, setembro 19, 2021
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Leodegária de Jesus: mulher negra intelectual e poeta em Goiás no pós-abolição

Sempre o mesmo punhal na mesma chaga.” 

“Ainda e Sempre”, poema de Leodegária de Jesus 

publicado no livro Orquídeas)

A presença das poetas negras é parte da história da literatura brasileira. Em 1906, com 17 anos, Leodegária Brazília de Jesus (1889-1978) publicou o primeiro livro de poesia de autoria feminina em Goiás, intitulado Corôa de Lyrios, pela editora Azul, de Campinas, São Paulo. É uma obra poética com características da literatura romântica que marcou suas leituras aos 15 anos, quando escreveu o livro. Esse feito é parte de uma vida marcada pela história familiar de investimento em educação por gerações sucessivas, desde o efervescente século XIX. É quando se pode identificar mobilidade territorial e social entre a gente negra em Goiás, em especial nas décadas seguintes à Abolição.

Seu avô havia sido alfaiate em Minas Gerais. Sua mãe Ana Isolina Furtado Lima era professora, assim como seu pai José Antônio de Jesus. Esse, além de ter fundado a 1ª Escola de Caldas Novas e atuado em escola pública em Jataí, era editor de jornal e chegou a ser eleito deputado estadual na primeira legislatura republicana. 

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Leodegária Brazília de Jesus. Fonte: DENÓFRIO, Darcy França (org.). Lavra dos Goiases III: Leodegária de Jesus. Goiânia: Cânone Editorial, 2001.

Nascida em Caldas Novas, Goiás, em 8 de agosto de 1889, viveu em Jataí até os 14 anos, considerando essa sua cidade natal, pois para lá foi levada nos primeiros meses de nascida. Com a eleição do pai, Leodegária de Jesus mudou-se com a família para a então capital do estado, onde passou a estudar no Colégio Sant’Ana, centro educacional católico ao qual as famílias abastadas confiavam a educação das meninas e jovens. Desde a escola, bem como nos círculos culturais da capital, manteve contatos e sociabilidades com outras mulheres atuantes como Luzia de Oliveira, Rosita Godinho, Alice Santana e Cora Coralina. Leodegária começou a participar, em 1907, do Clube Literário Goiano, chegando a comandar suas sessões. Foi membra fundadora e redatora do semanário A Rosa, órgão de ativismo das mulheres da Vila Boa, por meio da escrita.

A trajetória de Leodegária de Jesus lança questões para a história de Goiás e do Brasil no pós-abolição. As conexões entre Goiás e a editora paulista, a evidente influência do romantismo literário e a participação das mulheres e da gente negra na literatura fazem com que sua história nos permita entrever articulações que rompem com certa narrativa de isolamento do “sertão de Goiás”. Os estudos de Basileu Toledo França (livro Poetisa Leodegária de Jesus, de 1996)  e Darcy França Denófrio (livro Lavra dos Goiases III, de 2001) sobre sua vida e obra, embora tenham sido importantes, não chegaram a romper com o véu de invisibilidade que se produziu sobre o tema em práticas sociais que, hierarquizando memórias e histórias, tornaram essa trajetória e as condições históricas que a produziram uma lacuna no ensino da história de Goiás.

Leodegária e sua família mantiveram, por um longo período em sua vida, uma situação de itinerância, migrando por várias cidades e estados. Em razão das condições de saúde e na busca de tratamento para seu pai, que lidava com uma cegueira progressiva, moraram em Araguari e Uberlândia, nas Minas Gerais; no Amazonas, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa dinâmica, Leodegária se tornou o arrimo de sua família, exercendo sempre sua profissão de professora, ora atuando como docente do ensino público, ora na qualidade de mestre-escola. Em Araguari fundou e dirigiu seu próprio estabelecimento de ensino para moças, o Colégio São José, no ano de 1921.

Os registros de suas atividades nesse período nômade dão conta de que Leodegária de Jesus permaneceu escrevendo e buscando divulgar sua produção. Em março de 1924 ela tentou publicar poemas de sua autoria no jornal A Redação, tendo sido desencorajada por representantes locais do governo estadual, sob o argumento de que era funcionária do estado. 

Em iniciativa anterior, seus textos haviam despertado um debate público, no qual ela recebeu o apoio do redator Lycio Paes, que saiu em defesa da sua liberdade de atuação literária, profissional e política, na qualidade de professora e escritora. 

Inibida de divulgar textos em seu próprio nome, colocou em andamento um artifício editorial. É possível localizar no jornal A Redação de 17 de abril de 1924, o “Diálogo de uma Rosa”, uma crônica assinada por sua amiga Antonieta Vilela para aquele jornal. Versava sobre o silenciamento que uma professora pública passara, diante do poder sub-reptício do Estado em demiti-la e inibi-la, caso se manifestasse em defesa de causas das igualdades, da liberdade de expressão e dos direitos políticos da mulher. Expressando em diálogo a angústia de ser mulher e professora pública do estado, a autora ressalta: “Imagina, Rosa, – se eu fosse professora pública! Ai! Que medo eu teria de ser demitida, não?”.

A participação social e política, por meio da escrita, evidencia as causas nas quais Leodegária estava engajada, ao tempo em que a análise de seu texto nos permite romper com a certa ideia de um “vazio” nesse território central do Brasil, entre as Minas Gerais e Goiás. Ao contrário, sua biografia e sua escrita colocam nessa fronteira o ativismo por igualdade, liberdade e participação política das mulheres.

Em 1928, quando a poeta publicou sua obra de maturidade Orchideas, 22 anos depois de seu primeiro livro, era ainda um feito inédito como autoria feminina de poesia em Goiás. Apenas para se aquilatar o significado do trabalho de Leodegária, somente em 1954 outra mulher poeta viria a publicar um livro de poesias – a saber, Regina Lacerda, com seu livro Pitanga. Assim, essa escritora inaugura certa tradição lírica feminina e negra no estado de Goiás. A lacuna da crítica literária traz os rasgos da colonialidade, racismo e sexismo, ao deixar a raso sua participação na história da literatura goiana.

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Fac-símile de capa da 1ª edição do livro de poesias Orchideas, de 1928, original pode ser consultado no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

A poeta de Jataí enfrentou a estética moderna, buscando usar seus instrumentos textuais para inscrever sua literatura e, assim, imprimir a própria escrita como parte da insurgência contra o silenciamento. Em sua poesia é possível fruir de certa estética romântica, muito marcada pela experiência amorosa filial, romântica e erótica. Um erotismo sutil, romantismo em via de um devir irrealizável e uma devoção perene à figura paterna. Autobiográfica, sua escrita também de traços parnasianos não negava o contato tardio da literatura goiana com o modernismo. Leodegária de Jesus faz parte do terceiro período da poesia em Goiás, de 1903 a 1930, quando a região conheceu importante crescimento editorial.

Tendo falecido em Belo Horizonte, Minas Gerais, no ano de 1978, aos 89 anos, Leodegária de Jesus – professora, jornalista, ativista, produtora cultural e administradora – tornou-se patronesse na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Em 2011, a Editora Cânone, de Goiânia, editou a obra completa de Leodegária de Jesus, incluindo seus dois livros de poemas, além de algumas crônicas e outras poesias inéditas, que foram reunidos no volume Lavra de Goiases III – Leodegária de Jesus. 

Atualmente, um grupo de mulheres negras acadêmicas potencializa o coletivo Gira Leodegária de Jesus na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, onde se produz conhecimento significativo entre as epistemes populares e acadêmicas. 

Assista ao vídeo da historiadora Janira Sodré Miranda no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF05HI07 (5º ano: Identificar e explicar, em meio a lógicas de inclusão e exclusão, as pautas dos povos indígenas, no contexto republicano (até 1964), e das populações afrodescendentes).

Ensino Médio: EM13CHS203 (Comparar os diversos significados de território, fronteiras e vazio (espacial, temporal e cultural) em diferentes sociedades, contextualizando e relativizando visões dualistas como civilização/barbárie, nomadismo/sedentarismo e cidade/campo, entre outras).

Janira Sodré Miranda 

Doutoranda em História pela Universidade de Brasilia (UnB) e professora no Instituto Federal de Goiás (IFGoiás); E-mail: janira.miranda@ifg.edu.br; Instagram @janirasodre.

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