Leticia Leobet: ‘a atuação internacional do movimento de mulheres negras brasileiras é fundamental’ 

20/03/26
Por Beatriz de Oliveira
No Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, a assessora internacional de Geledés aborda o enfrentamento ao racismo em esferas internacionais

O movimento de mulheres negras desempenha um papel estratégico e central na incidência internacional para o combate ao racismo. Neste 21 de março, Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, Leticia Leobet, copresidente do Stakeholder Group de Afrodescendentes e coordenadora-adjunta da área internacional de Geledés, analisa como o combate ao racismo acontece nas esferas internacionais. 

Da Conferência de Durban na África do Sul, em 2001,com o reconhecimento do racismo como uma violação sistêmica, ao Stakeholder Group de Afrodescendentes, primeiro mecanismo formal de participação da sociedade civil afrodescendente na ONU, criado em 2025, ativistas negras brasileiras têm proposto projetos de desenvolvimento pautados na justiça racial. 

Nesta entrevista, Leticia  aborda a atuação internacional do movimento de mulheres negras brasileiras e a articulação entre movimentos negros de diferentes países para o enfrentamento ao racismo. 

Leia a entrevista completa. 

Portal Geledés: Como Geledés tem se mobilizado em esferas internacionais na pauta do combate ao racismo?

Leticia Leobet: Geledés tem uma atuação histórica no enfrentamento ao racismo na esfera internacional. Essa trajetória começa no Processo de Santiago, realizado em 2000, no Chile, que consistiu na Conferência Regional das Américas Preparatória para a III Conferência Mundial contra o Racismo. Esse momento foi fundamental para construir uma agenda regional articulada, que reconhecesse o racismo como um problema estrutural para afirmar a centralidade da população afrodescendente nas discussões internacionais.

Depois disso, foi realizada a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas – a famosa Conferência de Durban, na África do Sul, em 2001. O encontro representou um ponto de inflexão no sistema internacional ao estabelecer, de forma inédita, o reconhecimento do racismo como uma violação sistêmica de direitos humanos. E também ao afirmar a categoria política e jurídica de “pessoas afrodescendentes” no âmbito das Nações Unidas. 

Esse processo fortaleceu a construção de uma agenda global de justiça racial e reparação histórica. Sobre isso, sugiro a leitura do livro “Brasil e Durban – 20 anos depois”, disponível na biblioteca digital do Portal Geledés. 

Geledés esteve presente nesses dois momentos, representado pelas diretoras Nilza Iraci e Sueli Carneiro, que abriram caminhos, ao lado de outras mulheres, do movimento de mulheres negras para a incidência política nesses espaços multilaterais.

Mais recentemente, em 2023, passamos por uma reestruturação na área internacional da organização, com o objetivo de fortalecer nossa incidência estratégica nos espaços multilaterais. A partir desse processo, foram definidos cinco eixos prioritários de atuação: gênero, direitos humanos, juventude, clima e justiça econômica e desenvolvimento sustentável. Esses eixos refletem uma abordagem interseccional e conectada às principais agendas do debate global.

Portal Geledés: Como o Stakeholder Group de Afrodescendentes na ONU se insere nesse contexto? Como se dá a atuação do grupo? 

Leticia Leobet: O Stakeholder Group de Afrodescendentes (PAD-SG) se insere nesse contexto como um avanço histórico na governança global. É o primeiro mecanismo formal e institucionalizado de participação da sociedade civil afrodescendente junto às Nações Unidas, o que representa uma conquista política sem precedentes. Pela primeira vez, a população afrodescendente passa a ter um espaço reconhecido dentro do sistema multilateral para incidir de forma estruturada nos processos decisórios globais.

Esse marco é importante no que diz respeito ao reconhecimento, à legitimidade e à necessidade da participação direta das organizações afrodescendentes na formulação, monitoramento e implementação de políticas globais.

O PAD-SG também abre caminho para uma articulação transnacional entre organizações afrodescendentes e aliadas que atuam na promoção da justiça racial. Ao criar esse espaço, fortalece-se uma rede global capaz de compartilhar estratégias, produzir incidência coordenada e disputar narrativas.

O mecanismo está estruturado no âmbito do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC) e possui uma relação direta com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente no que diz respeito à promoção da igualdade e ao enfrentamento das desigualdades estruturais. Ao mesmo tempo, sua atuação dialoga com outras agendas multilaterais, como clima, direitos humanos, financiamento para o desenvolvimento e igualdade de gênero.

Em termos de estrutura, o PAD-SG é organizado a partir de uma copresidência, atualmente composta por Geledés, Criola e UNARC, que são organizações lideradas por mulheres negras do sul global.

Além disso, o grupo conta com uma rede de pontos focais regionais, garantindo representação das diferentes regiões do mundo, bem como pontos focais nas principais sedes da ONU — Nova Iorque, Genebra e Nairobi. A inclusão de Nairobi é uma decisão estratégica, que busca fortalecer a centralidade do Sul Global e ampliar a presença africana no mecanismo.

O PAD-SG também é estruturado em subcomitês temáticos, que organizam a atuação interna: 

  • Comunicação: voltado à construção de narrativas e visibilidade do grupo;
  • Membresia: coordena a entrada e gestão de membros;
  • Pesquisa: dedicado à produção e circulação de conhecimento para subsidiar a incidência.

A criação desse mecanismo se dá em um momento muito desafiador, mas proporcionalmente estratégico, especialmente pela reforma do sistema multilateral que está em curso, no qual se disputam os próprios termos da participação, representatividade e legitimidade da sociedade civil na governança global. Nesse sentido, o Stakeholder Group de Afrodescendentes não apenas amplia o espaço de participação, mas também tensiona e transforma as estruturas existentes.

Portal Geledés: Por que é importante que organizações da sociedade civil e do movimento de mulheres negras brasileiras se articulem internacionalmente na luta pela eliminação da discriminação racial? 

Leticia Leobet: Nós temos defendido, globalmente, que o racismo não é um problema apenas do Brasil, como muitos países costumam difundir nos espaços internacionais de negociação. Porém, reconhecemos a centralidade que o Brasil tem em capitanear essa discussão. Nesse sentido, a atuação internacional do movimento de mulheres negras  brasileiras é fundamental.

As mulheres negras brasileiras acumulam uma trajetória histórica e política extremamente potente, que as posiciona como sujeitas centrais na formulação de alternativas. Ao longo das décadas, têm desenvolvido estratégias sofisticadas de incidência política, organização comunitária, resistência e produção de conhecimento e de políticas públicas, geralmente em contextos de profunda adversidade.

Essas experiências não apenas respondem a contextos locais, mas oferecem modelos replicáveis e escaláveis, que, se devidamente reconhecidos e financiados, podem se transformar em políticas públicas de maior alcance. Há um acúmulo significativo em termos de articulação em rede, fortalecimento comunitário e construção de soluções baseadas na realidade dos territórios.

Mais do que isso, as mulheres afrodescendentes brasileiras têm contribuído para a formulação de um projeto de desenvolvimento diferente deste que está em colapso. Um projeto ancorado na perspectiva do Bem Viver, um paradigma que coloca, no centro, a vida, o cuidado, a coletividade, a justiça social e a sustentabilidade.

Nesse sentido, o que temos defendido nos espaços internacionais é que o atual modelo de desenvolvimento, estruturado a partir de lógicas coloniais, extrativistas e excludentes, já demonstrou seus limites, inclusive para aqueles que, historicamente, se beneficiaram dele. Diante das múltiplas crises contemporâneas – climática, econômica, social e democrática – é urgente disputar novos horizontes. E é isso que as mulheres negras têm feito, incansavelmente.

Assim, a presença das mulheres afrodescendentes brasileiras nesses espaços contribui não apenas para denunciar desigualdades, mas para oferecer caminhos concretos de transformação, baseados em experiências históricas de resistência, inovação social e construção de futuros possíveis.

Portal Geledés: Como avalia a articulação entre ativistas e movimentos negros de diferentes países para esse enfrentamento, à exemplo do que ocorreu na Marcha Nacional das Mulheres Negras em 2025?

Leticia Leobet: A articulação entre ativistas e organizações do movimento negro em diferentes países na esfera internacional ainda é um desafio. Existem muitas barreiras estruturais que limitam essas articulações, a exemplo do subfinanciamento das organizações afrodescendentes, que impacta diretamente a capacidade de participação em espaços internacionais, a continuidade de processos políticos e a construção de agendas comuns de longo prazo. Soma-se a isso a baixa priorização da pauta racial dentro das grandes agendas globais, o que, muitas vezes, marginaliza essas organizações nos espaços de discussão.

Apesar desses desafios, é possível identificar experiências importantes. Redes latino-americanas de organizações feministas, por exemplo, têm demonstrado uma forte capacidade de articulação, incidência e construção coletiva de agendas – a exemplo da Marcha das Mulheres Negras. Esse potencial de convocação extrapola as fronteiras do território brasileiro e alcança a diáspora. Da mesma forma, vêm se fortalecendo iniciativas de cooperação Sul–Sul, especialmente entre organizações da América Latina e do continente africano, que compartilham experiências históricas marcadas pelos legados do colonialismo e do racismo estrutural.

A articulação internacional do movimento negro segue sendo um campo estratégico em disputa: ao mesmo tempo em que revela limites impostos por desigualdades históricas, também aponta caminhos promissores para a construção de uma agenda global de justiça racial mais conectada, representativa e transformadora. Temos apostado nisso historicamente e reafirmamos esse compromisso agora, por meio do Stakeholder Group de Afrodescendentes.

Compartilhar