segunda-feira, outubro 3, 2022

Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto,  (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), melhor conhecido como Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros. Era filho de João Henriques de Lima Barreto (mulato nascido escravo) e de Amália Augusta (filha de escrava agregada da família Pereira Carvalho). O seu pai foi tipógrafo. Aprendeu a profissão no Imperial Instituto Artístico, que imprimia o famoso periódico “A Semana Ilustrada”. A sua mãe foi educada com esmero, sendo professora da 1º à 4º séries. Ela morreu cedo e João Henriques trabalhou muito para sustentar os quatro filhos do casal. João Henriques era monarquista, ligado ao Visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez as lembranças saudosistas do fim do período imperial no Brasil, bem como suas remotas lembranças da Abolição da Escravatura na infância tenham vindo a exercer influência sobre a visão crítica de Lima Barreto sobre o regime republicano.

Vida

 

Lima Barreto
Lima Barreto

Lima Barreto, mulato num Brasil que mal acabara de abolir oficialmente a escravatura, teve oportunidade de boa instrução escolar. Após a morte da mãe, passou a freqüentar a escola pública de D. Teresa Pimentel do Amaral. Em seguida, passou a cursar o Liceu Popular Niteroiense, após o seu padrinho, o visconde de Ouro Preto, concordar em custear sua educação. Lá ficará até 1894, completando o curso secundário e parte do suplento. Em 1895, transferiu-se para a única instituição pública de ensino secundário da época, o conceituado Colégio Pedro II, cujos estudantes eram oriundos basicamente da elite econômica. No ano de 1895 foi admitido no curso da Escola Politécnica, no Rio de Janeiro. Porém, foi obrigado a abandoná-lo em 1904 para assumir o sustento dos irmãos, devido à loucura que afligiu o seu pai. Tendo sido repetidamente reprovado por não se interessar muito pelas matérias – passava as tardes na Biblioteca Nacional -, deixou de graduar-se em Mecânica. Data dessa época a sua entrada no Ministério da Guerra como amanuense, por concurso. O cargo, somado às muitas colaborações em diversos órgãos da imprensa escrita, garantia-lhe algum sustento financeiro. Não obstante, o escritor, que só veio a ser reconhecido fundamental para a Literatura Brasileira após seu precoce falecimento, cada vez mais deixava-se consumir pelo alcoolismo e por estados emocionais caracterizados por crises de profunda depressão e morbidez.

Lima Barreto começou a sua colaboração na imprensa desde estudante, em 1902, no A Quinzena Alegre, depois no Tagarela, O Diabo, e na Revista da Época. Em jornais de maior circulação, começou em 1905, escrevendo no Correio da Manhã uma série de reportagens sobre a demolição do Morro do Castelo. Daí em diante, colaborou em vários jornais e revistas, Fon-Fon, Floreal, Gazeta da Tarde, Jornal do Comercio, Correio da Noite, A Noite, (onde publicou em folhetins, Numa e a Ninfa), Careta, A.B.C., um novo A Lanterna (vespertino), Brás Cubas (semanário), Hoje, Revista Souza Cruz e O Mundo Literário.

Em 1911 editou com amigos a revista Floreal, que conseguiu sobreviver apenas até à segunda edição, mas despertou a atenção de alguns poucos críticos. 1909 foi o ano de sua estréia como escritor de ficção, publicando, em Portugal, o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha. A narrativa de Lima Barreto nesse primeiro livro, pincelada com indisfarçáveis traços autobiográficos, mostra uma contundente crítica à sociedade brasileira, por ele considerada preconceituosa e profundamente hipócrita, até mesmo os bastidores da imprensa opinativa são alvo de sua narrativa mordaz, inspirados na redação do Cartas da Tarde. Em 1914 começou a publicação, em formato de folhetins no Jornal do Dia, de sua mais importante obra, Triste Fim de Policarpo Quaresma, que um ano mais tarde foi editado em brochura e considerado pela crítica especializada como basilar no período do Pré-Modernismo.

Entre os leitores, as duas obras anteriormente citadas alcançaram algum êxito, o que não impediu que o autor sofresse severas críticas de outros escritores da época. Baseavam-se elas no fato de Lima fugir, conscientemente, do padrão empolado de escrever que à época vigorava. Chamavam-no “relaxado” por não usar o português castiço e utilizar uma linguagem mais coloquial, muito própria de quem militava na imprensa. Incomodava também o fato de seus personagens não seguirem o “molde” vigente, que impunha limites à criação e exaltava determinadas características psicológicas. Não à toa viu frustradas suas tentativas de ingressar na Academia Brasileira de Letras. A respeito de seus impiedosos e inimigos críticos, Lima acusava-os de fazerem da literatura não uma arte e sim algo mecânico, uma espécie de “continuação do exame de português jurídico”.

Simpático ao Anarquismo, passou a militar na imprensa socialista.

Sua vida foi atribulada pelo alcoolismo e por internações psiquiátricas, ocorridas durante suas crises severas de depressão – à época era um dos sintomas pertencentes ao diagnóstico de “neurastenia”, constante de sua ficha médica – vindo a falecer aos 41 anos de idade.

Características

Lima Barreto foi o crítico mais agudo da época da República Velha no Brasil, rompendo com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem da República, que manteve os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares.

Em sua obra, de temática social, privilegiou os pobres, os boêmios e os arruinados. Foi severamente criticado pelos seus contemporâneos parnasianos por seu estilo despojado, fluente e coloquial, que acabou influenciando os escritores modernistas.

Principais características de suas obras:

 

-Lima Barreto não aceitava os escritores “burocratas”, envolvidos com os meios acadêmicos;

-Lima Barreto pensava em levar a arte para o povo;

– Preocupava-se com as questões da discriminação racial e da marginalidade social;

– A literatura de Lima Barreto desloca-se do ambiente das elites, onde era dominante o academismo, para o subúrbio do Rio;

-Aborda temas sociais e incorpora em suas narrativas a linguagem popular;

– Ao denunciar a tirania e a opressão das elites políticas de seu tempo, colocou-se como um intelectual militante, que procurava representar o modo de ver e de sentir a realidade do povo

brasileiro;

-Foi implacável na crítica ao mundo burguês, que se beneficiava das péssimas condições de trabalho livre;

– Achava que um mundo sem justiça e sem fraternidade deveria ser desmascarado pela literatura;

– Acreditava na renovação das idéias para o amadurecimento da sociedade/povo, através de uma articulação compreensiva das contribuições do velho, do novo e do novíssimo pensamento;

– Para Lima Barreto, a posição ética do escritor e a informação nova que ele pudesse trazer seriam mais importantes que a sua inovação formal.

Contexto Literário

 

Obras completas
Obras completas

– Os anos que marcam a passagem do século XIX para o XX refletem um momento histórico conflitante: de um lado, as oligarquias e, de outro, as desigualdades Sociais e regionais;

– Na literatura desse período ainda estão presentes as tendências realistas, naturalistas, parnasianas e simbolistas;

– O cenário nacional (vinda de imigrantes para substituir os escravos) exige uma nova mudança de percepção da realidade;

– Um grupo de escritores se propõe a descobrir sua terra e sua gente. A essa nova tendência literária que se inicia no princípio do século XX e se estende até a Semana de Arte Moderna de 1922 dá-se o nome de Pré- Modernismo;

– Como principais autores, destacam-se: Euclides da Cunha (Os Sertões), Graça Aranha (Canaã), Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma) e Monteiro Lobato (Urupês).

Momento Histórico do Modernismo Século (XX)

 

– Belle Époque (1900-1914): euforia burguesa pela Era da Máquina;

-Primeira e Segunda Guerras Mundiais (1914-1918; 1939-1945): desilusão, falência de ideais;

– Sigmund Freud: o inconsciente e a psicanálise;

– Henry Bergson: criador do intuicionismo (revoluciona o conhecimento, nele destacando o poder da intuição);

-Friedrich Nietzsche: morte do Deus soberano e absoluto;

-Desestabilização do cientificismo racionalista predominante na segunda metade do século XIX, pois grandes pensadores aprofundam as indagações sobre o homem e o mundo; antipassadismo

e antiacademicismo

Cronologia

 

1881 – Afonso Henriques de Lima Barreto nasce no Rio de janeiro, a 13 de maio Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas.
1887 – Em dezembro, morre sua mãe, de tuberculose galopante.
1888 – Abolição da Escravatura.
1889 – Proclamação da República.
1890 – Instalação da Assembléia Nacional Constituinte.
1891 – Deodoro da Fonseca fecha o Congresso Nacional; contragolpe de Floriano Peixoto leva-o ao poder para restaurar a ordem constitucional.
1893 – A Armada revolta-se no Rio; Revolução Federalista no Sul.
1894 – Prudente de Morais assume a presidência da República.
1895 – Morre Floriano Peixoto. Concluída a instrução primária, Lima Barreto entra para o Ginásio Nacional.
1896 – Conclui os primeiros preparatórios no Colégio Paula Freitas.
1897 – Ingressa na Escola Politécnica do Rio de Janeiro.
1898 – Campos Sales inicia seu governo como presidente da República.
1902 – Rodrigues Alves assume o poder e começa a reconstruir e sanear o Rio de Janeiro. Lima Barreto colabora em jornais acadêmicos, escrevendo para A Lanterna, a convite de Bastos Tigre.
1903 – O pai enlouquece e Lima Barreto é obrigado a deixar a faculdade para sustentar a família. Ingressa como amanuense na Secretaria da Guerra.
1905 – Passa a trabalhar como jornalista profissional, escrevendo uma série de reportagens para o jornal Cor¬reio da Manhã.
1907 – Funda no Rio a Revista Floreal.
1909 – Morte de Afonso Pena; Nilo Peçanha o substitui. Aparece em Lisboa o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, publicado pelo editor M. Teixeira.
1910 – Hermes da Fonseca inicia o governo das “salvações nacionais” .
1911 – O Jornal do Commercio começa a publicar em folhetins o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma.
1912 – Lima Barreto colabora no jornal A Gazeta da Tarde, onde publica, além de relatos folhetinescos, a sátira Numa e a Ninfa.
1914 – Venceslau Brás chega ao poder em meio a grave cri¬se econômica. Em agosto, Lima Barreto é recolhido pela primeira vez ao hospício.
1916 – Abusando do álcool e levando uma vida desregrada, é internado para tratamento de saúde, interrompendo sua atividade profissional e literária.
1917 – Crises e greves operárias alastram-se pelo país. Lima Barreto atua na imprensa anarquista, apoiando a plataforma libertária dos trabalhadores.

Obras


• 1905 – O Subterrâneo do Morro do Castelo
• 1909 – Recordações do Escrivão Isaías Caminha
• 1911 – O Homem que Sabia Javanês e outros contos
• 1915 – Triste Fim de Policarpo Quaresma
• 1919 – Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá
• 1920 – Cemitério dos Vivos
• 1920 – Histórias e Sonhos
• 1923 – Os Bruzundangas
• 1948 – Clara dos Anjos (póstumo)
• 1952 – Outras Histórias e Contos Argelinos
• 1953 – Coisas do Reino de Jambom

Curiosidade

 
Foi homenageado, no Carnaval carioca de 1982, pela Escola de Samba GRES Unidos da Tijuca, com o samba-enredo “Lima Barreto, mulato pobre mas livre”.

Bibliografia

  • BARRETO, Lima, Prosa seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.
  • BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2002.
  • PRADO, Antonio Arnoni. Lima Barreto: o crítico e a crise. Rio de Janeiro: Cátedra, 1976.

Fonte:wikipédia
Imagens: google imagens

 

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