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Lugares de Fala

Lugares de Fala

Dada a avalanche da mesma argumentação pobre e rasa que tem sido usada para silenciar minhas falas, vou abordar este assunto de forma mais objetiva para tentar colocar os pingos nos is. Adianto, desde já, que essa é a voz do Felipe Messias, não é um coro do Movimento Negro. É baseada na minha vivência, nas minhas conversas com amigos e amigas e nas minhas pesquisas pessoais.

por Felipe Messias via Guest Post para o Portal Geledés

“Não é preciso ser negro para lutar contra o racismo. Não é preciso ser gay para lutar contra a homofobia. Não é preciso ser mulher para lutar contra o machismo. Não é preciso ser uma pessoa trans para lutar contra a transfobia”.

Essa máxima que vocês adoram usar tem sua parcela de verdade. Porém, mais importante do que levantar tais bandeiras, é entender o seu lugar de fala dentro de movimentos dos quais você não é protagonista. E é isso que vai legitimar ou deslegitimar sua fala. Sabemos que, por mais que anos e anos de luta já tenham sido travados, as opressões citadas acima ainda existe e inúmeros contextos ainda não são mistos.

Vamos pensar, por exemplo, no caso de pessoas trans que, a meu ver, são a minoria menos representada das citadas ali em cima. Quantas pessoas trans você conhece? No seu cotidiano, com quantas você tem contato? Quantas estão sentadas com você na mesa de bar no happy hour de sexta-feira? Eu falo por mim quando digo que, em geral, nenhuma.

E eu não tenho nenhuma vivência trans. Salvo algumas coisas que leio aqui e ali, sei bem poucas coisas. E admito minha ignorância sobre tais assuntos. Mas algumas coisas eu sei, seja porque li falas de pessoas trans, seja porque falei uma merda em alguma momento e alguém me corrigiu.

Ok. A gente é criado com uma série de noções que precisamos estar abertos a desconstruir ao longo da vida. A grande questão é que precisamos potencializar o nosso “lutar contra” nos momentos e nos ambientes certos. Ao invés de questionarmos a fala de uma pessoa que faz parte de um grupo diferente do nosso, por que não questionarmos pessoas que fazem parte do mesmo grupo do nosso quando as outras não estão presentes?

Vou exemplificar: pessoas cis que estão engajadas em movimentos sociais que querem lutar pelos direitos de pessoas trans. O importante é pensar como você faz isso quando essas pessoas não estão presentes. Quantas vezes você corrigiu um amigo que se dirigiu a uma travesti, incorreta e pejorativamente, como “o traveco”?

Quantas vezes você chamou a atenção de um amigo por fazer uma piada pejorativa sobre uma mulher trans, por exemplo, que tem uma visibilidade maior na mídia, como a Roberta Close, a Ariadne, etc.?

Agora falando diretamente do que me cabe. O que eu mais vejo é gente branca que fica ressentida quando eu posto algo que fala sobre a atuação delas na luta contra o racismo. Querem lutar contra o racismo?

Beleza, lutem! Mas é indispensável que vocês aprendam a fazer isso nos lugares certos. Quantas vezes vocês corrigiram alguma pessoa branca, na ausência de pessoas negras, que se referiram ao cabelo crespo como “cabelo ruim”?

Ou que hipersexualizaram uma mulher negra?

Ou que reduziram um homem negro ao tamanho do seu pênis?

Quantos de vocês apoiaram -sem relativizar – a voz de mulheres negras que se posicionaram contra “Sexo e as nega”?

Quantas vezes vocês mesmos se referiram a uma pessoa negra pejorativamente? A grande questão que eu quero abordar é que a principal contribuição de um grupo privilegiado dentro de uma luta é a desconstrução e problematização desses privilégios nos espaços onde os grupos oprimidos, em função do próprio sistema de opressão, ainda não conseguem estar presentes.

Não que a gente precise porque vamos lutar com ou sem a ajuda de vocês. Mas, se querem ajudar, o caminho é esse. Ao invés de atacar a fala de pessoas negras porque você não concorda, por que não questionar, inclusive, o peso que sua voz adquire num debate em função da legitimidade que o seu próprio privilégio já te dá?

Vocês lembram das entrevistas do ano passado no Jornal Nacional com os presidenciáveis? Lembram da diferença de postura do Bonner com a Dilma e com todos os outros candidatos?

É ele fazendo uso do privilégio dele “de macho” pra silenciar mulher. Incluindo a colega de bancada dele. Apresentar discordâncias em relação a um determinado ponto de vista não é nada proibido.

Mas é preciso ter muita atenção a como isso é feito. Porque as relações de poder estão postas e vão sempre ser consideradas. Vocês, por exemplo, jamais vão me ver questionar publicamente a fala de uma mulher em relação a uma questão que diz respeito apenas a mulheres. Minhas amigas estão aí pra provar.

Se, por algum acaso, eu discordo ou tenho dificuldade de entender, sempre prefiro chegar na mensagem privada e perguntar. Porque eu sei da exposição que rola quando eu faço isso publicamente e sei que meu privilégio de “macho” vai SEMPRE ser levado em consideração pelos leitores. Inclusive por outras mulheres.

Por outro lado, eu fico o tempo todo atento como posso desconstruir o machismo com outros homens quando mulheres não estão presentes.

Para finalizar, gostaria de compartilhar, mais uma vez, um texto sobre uma pesquisa de Lia Vainer Schucman. Ao buscar abordar as questões raciais no Brasil, ela foi questionada por colegas negros sobre o papel dela nesta discussão e no esgotamento que existe dentro da comunidade negra de ser sempre olhada como “o outro”.

A partir daí, Lia buscou desenvolver sua pesquisa olhando para a própria branquitude, reconhecendo seu lugar de fala e seus próprios privilégios e pensando em como isso pode ser problematizado. Ou seja, este é o lugar onde ela pode atuar. Essa é a fala que ela pode “protagonizar”.

Racismo é uma estrutura construída a partir de pessoas brancas e pretas. Se todos ficarem apenas discutindo a negritude, a branquitude jamais será questionada e os privilégios jamais serão extinguidos.

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