Luiza Bairros (1953-2016) Por Fernanda Pompeu

Morreu hoje, 12 de julho 2016, a grande Luiza Bairros. Ela foi de tudo: ativista, professora, ministra. Gaúcha e baiana. O texto que segue foi resultado de um passeio por Salvador ao seu lado. Publicado na revista Vozes e Faces da Articulação para o Combate aos Racismo Institucional (CRI), em 2007.

Quando o avião se aproxima de Salvador, os pelos da alma arrepiam. Primeiro, o Atlântico enfeitado com barcos de pesca. Depois, a Baía de Todos os Santos ornada com esplendor e, por fim, as dunas. Em terra firme, e navegando nas tantas águas, encontra-se a maior população negra por metro quadrado do país.

O aeroporto de Salvador chama-se Deputado Luís Eduardo Magalhães, em referência póstuma ao filho de um dos mais poderosos políticos do Brasil, Antônio Carlos Magalhães (ACM), também falecido. O aeroporto já se chamou 2 de Julho, em justíssima homenagem a uma das mais importantes rebeliões em prol da independência do Brasil.

Embora a importância do fato tenha sido preterida quando da mudança de nome, o 2 de Julho, além de feriado, é festejado com muito orgulho e alegria pelo povo baiano. Pensando melhor, talvez o aeroporto de Salvador devesse se chamar Dos Orixás. Afinal esta é a capital dos terreiros de candomblé e de todos os santos, mas estes já dão nome à baía.

O que levou a gaúcha Luiza Bairros a trocar Porto Alegre por Salvador foi a concentração de afro-descendentes. Passeando pela Baixa do Sapateiro, no sopé do Pelourinho, a mulher negra, nascida e criada na Porto Alegre de maioria branca, se surpreendeu: O que é isto? Como será viver em uma capital onde os negros estão por toda parte? Faz mais de vinte anos que Luiza tenta responder  a essa pergunta e a muitas outras baseadas nas relações interraciais brasileiras.

Luiza Bairros está para o movimento de mulheres negras como um peixe está para o mar. Ela é uma das vozes mais respeitadas quando o assunto é combate à descriminação racial. Além de professora universitária, coordena projetos e programas de combate ao racismo institucional. Para ela: O racismo tem muitas caras. Muitas vezes ele se disfarça, para aparecer mais forte depois.

Passear com Luiza pelo Pelourinho, espécie de Veneza seca, é instigante e instrutivo. Ela vai apontando as contradições soteropolitanas. Pelas ruelas da cidade sobram musicalidade, alegria, manifestações sincréticas de fé, ginga, trabalho.

Em toda Salvador, as ruas são do povo como o céu é dos pássaros. Mas os espaços de poder, os comandos de empresas e de instituições, seguem nas mãos da minoria branca.

O imenso mural na parede do Plenário da Assembleia é exemplar! A representação é da Procissão do Bom Jesus dos Navegantes, uma prática religiosa-cultural das mais antigas da Bahia. Dentro do barco, estão Jesus crucificado, vários políticos brancos e dois ou três negros ilustres. O povo negro aparece debaixo das águas empurrando o barco. São figuras fantasmagóricas.

Sabemos que a representação simbólica, ao lado do pão, nos alimenta. Ela é capaz de formar, conformar, deformar. Mas a realidade não é maniqueísta. Nesta mesma Assembleia Legislativa, assenta-se a Comissão Especial para Assuntos da Comunidade Afro-Descendente (Cecad) com propostas de ajudar na erradicação do racismo e de suas manifestações discriminatórias.

Luiza Bairros acredita ser urgente discutir a institucionalização do combate ao racismo. Para ela, alcançar lugares de poder é apenas metade do trabalho. Ser capaz de criar alternativas de articulação dentro destes espaços é a outra metade. Os avanços precisam ganhar velocidade para beneficiar a base da população negra.

A surpresa

Em pleno Terreiro de Jesus, Luiza entra no imponente prédio da antiga Faculdade de Medicina. Trata-se da primeira escola médica do Brasil, criada por decreto de Dom João VI, no começo do século XIX. Nesta faculdade, Nina Rodrigues e outros médicos formularam teorias nas quais os negros e os indígenas aparecerem como intelectualmente inferiores aos brancos. Nina Rodrigues criticava a miscigenação. Ele carimbava o mestiço como “naturalmente” desequilibrado e degenerado. Imaginem: a construção da eugenia brasileira em plena Bahia!

Logo na entrada do prédio, o visitante dá de cara com o Museu Afro-Brasileiro, sob a supervisão do Centro de Estudos Afro-Ocidentais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Seu riquíssimo acervo conta com máscaras, cerâmicas, tapeçarias vindas da África e de origem brasileira.

Todavia, manter-se no antigo prédio da Faculdade de Medicina não é algo tão pacífico quanto parece. Marcelo Cunha, coordenador do Museu Afro-Brasileiro, aponta como racismo institucional as tentativas de desalojar o Museu: Há médicos que não suportam a ideia da cultura negra ocupar algumas salas deste prédio. Eles acham que estamos maculando o ambiente.

Maculando não estão, mas subvertendo a “ordem” sim. Afinal, essa escola, que no passado tratou tão mal e preconceituosamente a população negra baiana, agora é sede do Museu que canta a tradição da negritude. Luiza Bairros deixa o Terreiro de Jesus em direção à sede do já lendário CEAFRO – Educação e Profissionalização para a Igualdade de Raça e Gênero.

A chegada é um tanto tumultuada, o teto da sala de computadores desabou. Ninguém se feriu. Mas o susto e a sujeira foram grandes. Na sala de computadores, garotas e garotos negros têm acesso ao mundo virtual e à esperança de um emprego. A coordenadora geral, Vilma Reis, mestre em Ciências Sociais, não tem papas na língua: Gerações e gerações de jovens negros e negras experimentam, ao longo da história, a negação sistemática do acesso a bens sociais e institucionais. Portanto, as políticas afirmativas são para ontem. Opinião corroborada pela linguista Maria Nazaré Mota de Lima, coordenadora adjunta de projetos.

Nossa próxima parada é na Liberdade, o mais negro dos bairros da cidade. Aqui há um viaduto com o nome de Zumbi dos Palmares. Aqui se encontra o terreiro de Mãe Hilda Jitolu que, ao lado de Mãe Stella de Oxóssi, foi indicada para o Premio Nobel da Paz do ano de 2005.

Fica na Liberdade a ladeira do bloco afro Ilê Aiyê, afamado mundialmente, que rendeu os versos de Paulinho Camafeu, imortalizados pela voz de Gilberto Gil: Branco, se você soubesse/ o valor que o preto tem / tu tomava banho de piche/ e ficava preto também/ Não te ensino minha malandragem/ nem tampouco minha filosofia/ Por quê?/ Quem dá luz a cego/ é bengala branca e Santa Luzia.

Acarajé militante

Com o começo da noite, e porque Luzia Bairros não é de ferro, o programa é comer os quitutes da Dinha, no Largo de Santana, no Rio Vermelho. O Largo é também um ponto de encontro sem precisar combinar antes.

A primeira que cumprimenta Luiza é Terezinha Gonçalves, amiga e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim).  Nascida e criada em Salvador, Terezinha é testemunha de várias manifestações racistas. A última delas aconteceu em um posto de saúde. Ela estava no final da fila quando foi chamada por uma atendente para passar à frente dos outros. Teresinha é branca e os outros eram negros.

O segundo encontro é com Valmir França Santos, o França. Ativista do Movimento Negro e fundador do bloco afro Os Negões. França acredita que a riqueza cultural afro-brasileira pode ser um instrumento poderoso de luta contra o racismo. A cultura é um esteio para o empoderamento. Também diz que é preciso uma quantidade enorme de trabalho para politizar a grande massa, pois o Estado brasileiro é complacente com o racismo. Esta complacência corrói a diversidade, nossa maior riqueza.

França, Terezinha e Luiza concordam que os esforços do Movimento Negro necessitam se tornar políticas públicas. As ideias precisam concretizar-se para chegar no coração social. É necessário deter a violência policial que extermina garotos negros. Deter a violência do racista brasileiro que nunca se assume, mas que discrimina com naturalidade. Deter a violência doméstica e interpessoal. O racismo é um dos eixos estruturantes da desigualdade social brasileira. Ele divide a cidadania em primeira e segunda classes.

Luiza Bairros se despede. Vai caminhando para o bairro da Federação onde mora. Ela tem convicção de que, na Bahia, há um conjunto de ações voltado para a institucionalização do combate ao racismo. Mas, a exemplo das estrelas, essas ações de brilho próprio estão distantes entre si. Promover a articulação entre ações, programas, pessoas é o grande desafio do século 21 .

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