Luiza Mahin, Tereza de Benguela e Maria Felipa: documentos históricos e IA devolvem rostos a líderes negras

14/07/26
Durante mais de dois séculos, as três mulheres n foram representadas pela imagem de uma mulher preta desconhecida e tiveram suas identidades apagadas

Três líderes negras da História do Brasil e um único rosto. Durante mais de dois séculos, Tereza de Benguela, Maria Felipa e Luiza Mahin foram representadas pela imagem de uma mulher preta desconhecida com um turbante e tiveram suas identidades apagadas. Agora, com o auxílio de documentos e de relatos históricos e orais, as fisionomias do trio foram resgatadas por quatro pesquisadoras e refeitas com recursos de inteligência artificial.

Os novos rostos de Tereza, Maria e Luiza, bem diferentes da representação até então existente a partir de um retrato feito pelo fotógrafo alemão Alberto Henschel em 1870, ganharam neste mês as redes sociais de perfis ligados a movimentos negros e ativistas. Julho é o Mês da Mulher Negra, quando também se comemoram os dias Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, no próximo dia 25.

A pesquisadora Silviane Ramos com a tataravó Tereza de Benguela: família unida pela inteligência artificial — Foto: Fotos de Divulgação/BB/projeto Faces Negras Importam/Ilka Cyana
A pesquisadora Silviane Ramos com a tataravó Tereza de Benguela: família unida pela inteligência artificial — Foto: Fotos de Divulgação/BB/projeto Faces Negras Importam/Ilka Cyana

Tataraneta de Tereza de Bengela e quinta geração da líder quilombola, a pesquisadora Silviane Ramos, de 45 anos, frisa que a identidade das três líderes se perdeu ao longo do anos, em um apagamento histórico:

— Quando se apaga o rosto de uma pessoa, elimina-se sua história. Foi usada uma mesma imagem para as três líderes negras, impedindo a representatividade de cada uma e sua importância para o país.

Silviane integra o grupo de pesquisadoras Latinas (Fiocruz/UFMT/Unemat/Gedifi/Gepabi) e estuda o legado da tataravó há três décadas. Para chegar até a face da líder quilombola, reuniu documentos históricos e relatos orais da região de Vila Bela da Santíssima Trindade, cidade de Mato Grosso próxima à fronteira com a Bolívia, onde morou Tereza.

Líderes negras eram representadas pela imagem de uma mulher preta desconhecida feita por fotógrafo alemão Alberto Henschel em 1870 — Foto: Reprodução
Líderes negras eram representadas pela imagem de uma mulher preta desconhecida feita por fotógrafo alemão Alberto Henschel em 1870 — Foto: Reprodução

De acordo com a pesquisadora, foi descoberto que a líder negra trazia no rosto símbolos da realeza africana — três riscos laterais — e usava sementes de urucum para delinear os lábios. Usava ainda um turbante de tecido com um trançado feito em algodão e ornamentado com penas de araras vermelhas e azuis. As informações foram o ponto de partida para a reconstrução do rosto de Tereza.

— Quando eu vi a imagem, senti que fazia parte dela. Foi uma emoção. Ela lembra muito minha mãe. O pescoço longo, os ombros, o rosto são muito semelhantes — conta a descendente.

Traços sudaneses

Maria Felipa, por sua vez, segundo descrições históricas recuperadas pela pesquisadora Rejane Mira, mestre em Metodologia do Ensino Superior, carregava traços sudaneses, lábios largos, nariz achatado, olhos arredondados e cabelos curtos, com uso de tranças. A liderança usava roupas de algodão cru, com cortes simples, e andava descalça.

Luiza, objeto de pesquisa de Aline Najara Gonçalves, doutora em História pela Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ) e autora de livros sobre a líder negra, teve em uma das fontes para a recriação de seu rosto uma carta escrita por seu filho, o advogado abolicionista Luiz Gama. Na correspondência, o Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil relata a mãe como uma mulher negra, bonita, de baixa estatura, pele preta sem lustro e dentes muito brancos que, ao serem citados, são comparados por Gama à neve. Mahin ostentava saias rodadas com várias anáguas, camisu — peça de vestimenta africana — e uma bata, além pano da costa e um turbante.

A partir dos registros históricos, os rostos foram sendo recriados pela diretora cinematográfica e artista visual Ilka Cyana, com uso de inteligência artificial e editores de imagens. Além de Silviane, Rejane e Aline, contribuiu com a pesquisa a autora do livro “Maria Felipa de Oliveira: heroína da independência da Bahia”, Eny Kleyde Vasconcelos, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O trabalho de resgate dos rostos foi financiado pelo Banco do Brasil e integra o projeto Faces Negras Importam, lançado em 2024 pela instituição.

Tereza de Benguela foi uma rainha quilombola do século XVIII. Era responsável pela estrutura política, econômica e administrativa do Quilombo do Quariterê, criado em 1740 pelo líder negro José Piolho, marido de Tereza, no Vale do Guaporé. Com a morte do companheiro, ela assumiu o comando do quilombo, que passou a ser governado com auxílio de um parlamento. A líder negra acabou sendo morta pela Coroa Portuguesa, em 1775.

Natural da Ilha de Itaparica e símbolo de resistência no processo de libertação do domínio português, Maria Felipa liderou um grupo de cerca de 40 mulheres negras e indígenas que lutaram ao seu lado pela independência da Bahia. Seu grupo queimou mais de 40 embarcações portuguesas. Durante a ação, ela também teria dado uma surra em portugueses com cansanção, uma planta da caatinga coberta de pelos que provoca irritação e sensação de queimadura na pele.

Mãe de Luiz Gama, Luiza Mahin foi, além de estrategista do grupo, uma das lideranças da Revolta dos Malês. Quituteira, distribuía mensagens escondidas em seu tabuleiro de doces com instruções que ajudaram na organização da revolta, liderada por escravizados africanos de religião muçulmana, os Malês. O levante aconteceu durante a noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, em Salvador. Da Bahia, após a repressão da revolta, Luíza seguiu para o Rio de Janeiro, onde continuou a luta pela liberdade.

Reparação

A iniciativa do Banco do Brasil, explica Silviane, vai ao encontro de uma reparação histórica da instituição. O banco foi um dos financiadores do comércio de negros escravizados no país. Em 2023, o BB reconheceu que contribuiu para a atividade e fez um pedido público de desculpas. À época, o Ministério Público Federal (MPF) considerou a iniciativa “um avanço diante do silêncio histórico” do banco, mas avaliou que ainda “são necessárias medidas complementares”.

Os procuradores do MPF sugeriram ações como a criação de uma plataforma de pesquisas sobre o tema, o financiamento de projetos que resgatem a história dos escravizados e a produção de material didático para ampla divulgação. O resgate das faces foi usado em peças de propaganda institucional do banco.

Para Silviane, faltam mais iniciativas de resgate da história dos negros e o desenvolvimento de novos projetos semelhantes. De acordo com a pesquisadora, hoje, eventos ligados à cultura negra já substituem a foto da Mulher de Turbante pelas novas imagens das três líderes. Autores de livros também passaram a considerar as imagens como representativas e a adotá-las na edição.

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