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Luna, la negra

O Brasília Shopping fica no centro da cidade, mais precisamente na ala norte do Eixo Monumental, e é imponente como um monumento.

Por  Lelê Teles enviado para o Portal Geledés 

Reprodução/ Twitter

seu desenho, moderno e arrojado, combina harmoniosamente com o conjunto arquitetônico da capital: tem uma forma ousadamente ovalada e sinuosa; quase sensual. a fachada de vidros espelha o lindo céu da cidade.

estamos na primavera, lá fora há canto de cigarras por todos os cantos.

o edifício tem três andares de lojas, o restante é ocupado por profissionais liberais: publicitários, médicos, advogados, dentistas, psicólogos e afins.

no térreo há um Piano Bar e é pra lá que vamos agora.

mas, antes, permita-me uma digressão, durante anos eu era o único jovem negro naquela selva, pelo menos o único a não utilizar o elevador de serviço. foi ali que ganhei meus primeiros prêmios como redator, iniciando uma promissora carreira como publicitário.

e foi neste Piano Bar que vos levo agora que conheci a Senhorita Lee, a garota mais linda de Brasília.

eu chegava de uma festa de premiação, animado e com as mãos cheias; então, decidi subir ao palco, recitei um poema anarquista de minha autoria e toquei Ariosto, de Bach, no velho violoncelo que ficava num canto à disposição dos clientes.

todo aquele exotismo chamou a atenção da Senhorita Lee: um jovem negro, punk, cheio de si e tocando música barroca num violoncelo era demais.

trocamos olhares, palavras, admirações, beijos e juras de amor. em poucos dias, o meu pobre coração já não cabia em meu peito. o diabo é que éramos, ambos, casados. em pouco tempo descasamos e juntamos nossas almas.

seis meses depois estávamos também separados, e arrependidos de ter deixado nossos filhos com os ex, que agora nos odiavam mortalmente.

o que seria uma linda junção de almas, resultou em dois corações dilacerados.

mas não é da Senhorita Lee que quero falar agora, lembrar dela é como tirar esparadrapos e espiar por baixo da gaze, para constatar, mais uma vez, que a ferida não cicatrizou e que o pus continua lá, produzindo microrganismos que vão roendo o tecido necrosado.

voltemos ao presente.

há estrelas no céu escuro e uma lua nova se insinua. é noite de quinta-feira e estão todos lá, o Piano Bar está cheio, os clientes habituais desceram dos seus escritórios e ocupam as mesmas, o piano é livre para os fregueses.

75% da clientela é formada por recém-casados e recém separados. apenas 25% são solteiros e solteiras que ainda não se casaram e, portanto, ainda não se separaram.

assim é Brasília.

há algumas mesas com casais, outras com três pessoas ou quatro. sempre rola flertes; o vinho e o clima romântico ajudam.

no entanto, há uma única mesa em que se nota uma linda garota negra solitária.

tem como companhia apenas uma garrafa de pinot noir, uma taça com água sem gás e uma taça com vinho, além de um bloco de notas em que ela, de quando em quando, escreve algumas coisas.

de repente, essa moça (uns 35 anos) se levanta e caminha com elegância e vagar até o piando de calda, que fica suspenso no meio do bar, sob um tablado forrado com um tapete de veludo grená.

a moça veste um lindo vestido vermelho, de tecido delicado, que realça as formas de seu corpo. as alças, finas, escorrem pelos ombros, revelando os braços torneados, as costas marcadas por músculos bem definidos e o busto discreto; sem soutien.

o pescoço, longo e delgado, está à mostra. o rosto, de traços suaves, é emoldurado por lindos e volumosos cachos negros. a boca não é beijada por batom, os olhos não piscam em rímel, não há vestígio de maquiagem.

a beleza natural e altiva revela segurança e firmeza em si mesma.

assim que ela se sentou ao piano, o bar ficou em silêncio, todos os olhares grudaram nela. ela deu um profundo e tântrico suspiro, de olhos fechados, e passou as mãos pelo teclado de marfim, suavemente, como se afagasse seu animal de regaço; mostrava intimidade e respeito ao instrumento.

então ela soltou as primeiras notas.

um minuto e meio depois, um rapaz, desses advogados cheios de dinheiro e vazios de educação, sentado numa mesa próxima ao piano, mostrou um meme ao amigo, no celular; eles gargalharam alto.

um casal grisalho, na mesa imediatamente ao lado, fez shiii, com o indicador nos lábios, pedindo silêncio à dupla.

era tarde demais.

a moça parou de tocar e, quando ela ia se levantar, a companheira do coroa disse: “por favor, querida, fique”. outras pessoas disseram o mesmo.

e ela ficou.

suspirou novamente e deu dois toquinhos com o indicador no microfone, viu que estava ligado, então ela disse: “já é tarde, é hora de colocar as crianças para dormir”.

então, novamente, ela deitou as mãos suaves sobre o teclado e, dessa vez também, cantou:

“Thula thul, thula baba, thula sana / thul’ulabab uzobuya ekuseni…”

o maître, sensível, pôs a mão no dimmer e, baixando a luz, mergulhou o pub na penumbra. em seguida, ligou um canhão de luz que iluminava apenas a pianista e o piano.

o salão se encheu de um silêncio reverente. a voz, suave e delicada, preenchia o ambiente.

“Kukh’inkanyezi, zi-holel’ ubaba
zimkhanuisela indlel’e ziyak-haya
sobe sikhona ka bonke bashoyo
bayathi buyela. ubuye le khana…”

ao terminar a peça houve um aplauso uníssono.

quem ouviu o farfalhar de mãos do lado de fora do bar, deve ter imaginado uma revoada de pombas. eu imaginei o cair repentino de uma chuva torrencial sobre copas de árvores numa floresta ignota.

então, a moça se levantou e inclinou o corpo, agradecendo os aplausos e, delicadamente, voltou à sua mesa, sob o olhar sorridente e admirado da plateia.

sentou-se, tomou a última gota da taça e fez sinal ao garçom, pedindo outra garrafa.

ato contínuo, o coroa grisalho que pediu silêncio aos jovens inconvenientes e gargalhões subiu ao piano e disse:

“boa noite a todos, eu queria, em nome de todos nós, pedir desculpas a essa grande artista que subiu aqui… desculpas pela grosseria dos rapazes que estão sentados na mesa ao lado da minha. se me permitem… eu gostaria de tocar a música que ela começou e foi interrompida. a composição chama-se Clair de Lune, do magistral compositor impressionista Claude Debussy.”

e começou a tocar.

um dos gargalhões, de gravata, pegou sua garrafa de vinho, sua taça e se dirigiu à mesa da moça: “com licença, não quero ser invasivo, desculpe pela grosseria do meu amigo… linda você… posso me sentar um pouco…”

ela não deveria, mas assentiu.

sei o que se passou na cabeça dela. durante anos eu me diverti torturando esses sujeitos com a minha presença altiva, ativa e desaforada.

um homem é um homem, dizia minha mãe, não importa a cor da sua pele. assim como um cão é um cão, não importa o seu pedigree.

já vi vira-latas removedores de lixo dando surras em pitbulls bem nutridos e chihuahuas minúsculos botando rottweilers pra correr.

força é uma questão de atitude.

força e atitude aquela moça demonstrava ter, deixar aquele insolente se sentar pode ter sido mais um gesto de força que uma abertura de guarda; acompanhemos e veremos no que vai dar.

o advogado conquistador e gargalhão, logo ao se sentar, engatou um galanteio: “linda música, não conhecia. a língua me pareceu familiar, era italiano?”

ela respondeu com um sorriso de desdém: “estranho que um jovem da sua idade e posição não conheça a fonética da língua italiana. cantei uma música sul-africana, bastante conhecida no continente negro. é uma canção de ninar, um lullaby como se diz em inglês, chama-se Thula Baba, e foi escrita na língua xhosa, uma das onze línguas faladas na África do Sul…”

“ah, você é africana, que exótico. achei que se falava inglês na África do Sul…”

“o inglês”, disse ela, “é uma língua da Inglaterra, é a língua do colonizador, mas os sul-africanos mantiveram intactas suas memórias, a sonoridade e a sintaxe de suas línguas ancestrais, assim mantiveram suas almas intactas. uma língua não é só um idioma, é uma forma de apreender e compreender o mundo. a África do Sul, como eu disse, tem onze línguas oficias, entre elas o inglês e o africâner, mas além disso há ainda outras oito línguas que são faladas no país, são línguas nacionais, mas não receberam o status de línguas oficiais… e… eu sou brasileira, morei por quatro anos na Cidade do Cabo, onde fiz doutorado em psicologia”.

“hummmm, que surpreendente, além de linda… culta. eu me chamo Felipe”, disse, estendendo a mão a ela.

“Luna”, ela respondeu.

como todo galanteador inseguro e abusador, Felipe ataca, tentando mostrar quem manda na situação, buscando deixar a moça por baixo.

“posso ser um monoglota troglodita, mas sei que luna significa lua em espanhol. o que não deixa de ser curioso, uma mulher negra com nome de um satélite branco. é uma tentativa de embranquiçamento?”

ela suspirou profundo, beijou a taça com vinho e disse: “os racistas sempre têm uma visão superficial das coisas, estão sempre na superfície, por isso o que você vê em mim é, primeiro, a minha epiderme.”

“não, não, eu não sou racista, sem traumas… tentei apenas, ser objetivo”.

“esse é o problema, ser objetivo é dirigir-se ao objeto e a lua objeto está a mais de 384 mil km daqui. essa lua aqui é sujeito… você deveria tentar uma abordagem subjetiva, não acha?”

“difícil você hein, meni…”

ela pôs o indicador nos lábios, pedindo para que ele fizesse silêncio: “quando um burro fala, o outro baixa as orelhas e escuta…”

“tá me chamando de burro?”

ela sorriu, maliciosa: “é uma expressão corriqueira. mas já que você gosta da onomástica, a arte de analisar nomes, sabe o que significa Felipe?”

e ele: “nunca procurei saber, tem um significado?”

“Felipe é a justaposição de duas palavras gregas Phílos, que significa amigo, e Hippos, que traduzimos por cavalo. Felipe deriva de Phílippos e significa amigo do cavalo. adequado, não?”

“desculpe, eu não quis ser indelicado…”

“Felipe, quando eu entrei aqui, todos os homens me olharam, voltando suas cabeças para seguir o meu rastro; é queee… tô no meu período fértil e os machos sentem, instintivamente, o exalar dos feromônios de uma mulher no cio. a cor do vestido, claro, também ajudou a aguçar os sentidos. mas, sendo eu uma mulher negra, os olhares logo se calaram. é claro que uns caras esperariam o álcool bater para virem bater na minha porta, em busca de uma diversão de final de noite…”

“nossa, você é dramática, hein. eu vim à sua mesa porque fiquei encantado com a sua beleza e com o seu talento…”

“não, Felipe, você só me viu porque as luzes foram projetadas sobre mim, é só assim que idiotas como você enxergam a lua, sabia? naquele momento, por causa do holofote, eu me transformei numa lua cheia, me embranqueci, como você disse. aliás, Felipe, a lua não é branca, nunca foi branca…”

Felipe sorveu o vinho da taça com um gole exagerado e sorriu, sentindo que houve espaço para ele mostrar sua sabedoria. ele tentou de novo um galanteio: “entendi, há dois lados na lua, um deles é negro, o lado oculto da lua, por isso você é assim tão misteriosa e enigmática. você representa a mística da mulher que não oferece a outra face aos simples mortais…”

ela sorriu, com a taça de vinho nos lábios: “hummm, tentou uma poesia… bela tentativa, mas foi piegas.”

“caralho, você é mesmo difícil, hein!”

“nada, você que está acostumado a esses galanteios baratos de bêbado para bêbadas. de homens como você os bares estão cheios, Felipe. ah, os motéis também; afinal, tem sempre alguém com a autoestima baixa por aí esperando um idiota qualquer que a chame de linda”.

Felipe mexe na gravata, tentando desenforcar-se. há suor em sua testa. o amigo o olha de longe, mexendo no celular, mandando mensagens idiotas e encorajadoras pra ele.

na mesa ao lado do idiota do celular, o casal de coroas grisalhos (uns 65 anos) acenam para Luna, gesticulando que querem falar com ela. ela sinaliza com as mãos para que esperem um pouco.

Felipe, como um náufrago perdido, se debate na mesa, tentando se agarrar a alguma tábua de salvação: “voltemos à lua, o que você quis dizer quando disse que a lua não é branca?

“qual é a cor da lua nova, Felipe?”

“ah, saquei. esperta você… mas deixa eu te dizer… a lua nova não é negra, não há duas luas no céu, há apenas uma no céu e outra aqui neste bar. a lua nova se parece negra porque não há uma luz incidindo sobre ela; é simples assim… acende-se a luz do sol e a vemos em sua cor original… branca, afinal…”

ela deu uma risada silenciosa de escárnio e desdém, meneando a cabeça negativamente: “ah, Felipe, Felipe… Felipe, o que você vê quando olha pro céu numa noite de lua cheia, não é a cor da lua, é apenas a cor da luz do sol, cujo reflexo é branco; por isso, sem a luz do sol, a lua nova nos parece engolida pelo negror do espaço ao seu redor.”

Felipe baixou os ombros, baixou a guarda, baixou a crista…

“Felipe, você já viu algum poeta fazer poemas para a lua nova? já viu casais saírem numa noite de lua nova para namorarem na praia? os amantes apaixonados fazem votos de amor sob a lua nova…”

a tudo isso Felipe respondia com um negativo gesto de cabeça.

“essa falta de encanto da lua nova representa, metaforicamente, a solidão da mulher negra, Felipe. a sombria e assombrosa solidão da alcova semivazia, do medo do escuro…”

“entendo, mas…”

“Felipe, a superfície da lua recebe forte incidência de radiação solar e, por isso, ela é composta de um material escuro, acinzentado; só nos parece clara por causa do contraste da escuridão do cosmo que a envolve e do branco reflexo da luz do sol.”

Felipe toma todo o vinho da taça em um só gole e enche a taça novamente, atento.

“e olha que a lua só reflete pouco mais de 10% da luz que recebe do sol. meu pai, Felipe, tem a pele escura, minha mãe, a pele clara. eu sou Luna porque a lua, na verdade, é cinza; o cinza é a perfeita combinação do preto, que é a ausência de cor, com o branco, que é a junção de todas as cores. meu pai queria chamar-me Ceniza, que significa cinzas em espanhol. mas minha mãe achou Luna mais poético e mais filosófico.”

os olhos de Felipe brilhavam: “estou encantado”.

“é que a luz desses seus olhos bobos e apaixonados incidiram sobre mim e, de lua nova me fez lua cheia. Felipe, eu sou inteira como a lua, sendo ela cheia, crescente, minguante ou nova, a luz de holofotes ou de olhares não faz de mim mais lua ou menos lua. toda vez que saio de casa eu me vejo, me desejo, e me sinto linda… mas não se preocupe, na medida que você for indo à sua mesa, essa luz vai ficando distante e eu vou minguando pra você, até eu voltar a ser lua nova quando você já estiver na sua cadeira ao lado do seu amigo idiota..”

“está me mandando embora, tá me dispensando, é isso?”

“Felipe, meu querido, não perca seu tempo. eu sou casada, a minha esposa está na África do Sul e chega daqui a uma semana, é por isso que estou sozinha; sem ela, estar só é a melhor forma de estar bem acompanhada. não estou aqui como uma isca ou uma presa.”

ela fez um gesto com as mãos, chamando o casal de coroas. “bom, terei companhia agora. adeus, Felipe”!

Felipe saiu trotando e relinchou alguma coisa desaforada.

como todo galanteador abusador e cretino, Felipe não sabe perder.

palavra da salvação.


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