quarta-feira, agosto 17, 2022
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A luta contra o extermínio da juventude negra tem que fazer barulho

O 17º Congresso da UJS comemora os 30 anos de uma entidade que sempre procurou falar a linguagem da juventude, entender os problemas dos jovens brasileiros e buscar a realidade que os cerca, seja nas grandes cidades, seja nas periferias do Brasil.

Na noite de sexta-feira (23), uma roda de debate, no estilo “Fala, que eu te escuto”, formou-se para discutir a segurança pública da juventude. Não a segurança pública de uma parcela da sociedade que sempre teve respaldo do Estado, mas a segurança pública dos brasileiros pobres, pretos, jovens, moradores das favelas, historicamente excluídos das oportunidades e dos direitos básicos.

Uma equipe de peso comandou o espaço “Chega da política que mata”, em prol da batalha contra o racismo: Renegado, rapper mineiro que já foi filiado à UJS; Ângela Guimarães, secretária adjunta da Secretaria Nacional de Juventude; Toni C, autor da biografia do Sabotage; e Hot Black, rapper e idealizador de uma série de programas sobre a cultura hip hop. Os rappers do Aliado CP confirmavam em rima, entre uma fala e outra, as batidas do preconceito que se enraizou no Brasil e mata todo dia jovens negros.

Música, palestra, grafite, street dance. O resultado dessa diversidade foi claro: é preciso fazer muito barulho para combater o racismo e acabar com o extermínio dos jovens negros.
Estudos apontam que a cada 25 minutos morre um jovem negro pobre no Brasil, vítima da violência. São aproximadamente dois jovens negros mortos por hora, 48 mortos por dia, 335 mortos por semana, 1344 mortos por mês. Esse é um número igual ou maior do que muitas guerras pelo mundo.

“Se preferirem, tenho outros dados assustadores: 25% dos jovens já vivenciaram ou está vivenciando uma situação de violência. Desse universo, 50% já perderam um parente próximo vítima dessa brutalidade. Para essa geração de agora, a principal preocupação é a segurança pública. Muitos jovens têm medo de não chegar à faixa dos 30 anos”, disse Ângela Guimarães.

No Brasil, se você é jovem, negro e favelado, a grande chance é entrar para as estatísticas. Existe, no entanto, um reconhecimento do Estado em relação aos dados alarmantes, o que Ângela Guimarães considera um primeiro passo pela luta contra o genocídio. “A presidenta Dilma inaugurou em 2012 um projeto que tem dado passos significativos para a mudança desse lamentável quadro”
Trata-se do Plano Juventude Viva, que visa reduzir a vulnerabilidade dos jovens em situações de violência física e simbólica. A iniciativa prioriza 142 municípios com os maiores índices de homicídios de jovens, criando oportunidades de inclusão e autonomia, por meio da oferta de serviços públicos nos territórios mais vulneráveis à violência.

Por que o boné de aba reta é menos que o nó da sua gravata?

Entrou em vigor essa semana no Rio de Janeiro, a pedido da deputada estadual Lucinha (PSDB), uma lei que proíbe usar boné em bancos, lojas e em condomínios. O objetivo seria impedir que “marginais”, segundo a própria autora qualifica, escondam o rosto das câmeras de segurança durante assalto.

“Se você fuma maconha, obviamente significa que em alguns meses estará fumando outras drogas mais pesadas; se você passou por uma rua observando as casas, está mais do que certo que você está bolando uma maneira de roubá-las; se você saiu de casa com uma roupa mais curta, não há duvidas que você está querendo sexo e pedindo pra ser estuprada”, pontuou Toni C sobre o caso, que ainda reforçou:

“Leis de prevenção muitas vezes são preconceituosas e arbitrárias. Sem contar que, neste caso, você não estaria nem prevenindo o assalto ou qualquer coisa do gênero que viesse a acontecer, estaria apenas facilitando a identificação pra depois capturar a pessoa. Ou seja, foda-se se morrer alguém durante a parada, o importante é que o culpado seja pego. E o culpado sempre é negro. Se isso é fator de risco e demonstra periculosidade, então a gente tem que criar uma lei para que as pessoas não andem de gravatas, porque elas também servem só pra corromper”.

Na ocasião, Toni C também lançou seu novo livro “Sabotage – Um bom lugar – biografia oficial de Mauro Mateus dos Santos”. O livro conta a história de Mauro Mateus dos Santos, o Maurinho do Canão ou, como ficou conehcido, Sabotage. “Quando eu era pequeno, lembro de me identificar apenas como uma página do livro de história. E vocês sabem qual página era? Não era a da princesinha Isabel, que tínhamos que decorar até o nome da sua tataravó. Era o negro anônimo, sem registro, preso no tronco de uma árvore pelado e com marcas de uma brutalidade sem tamanho. Temos que reforçar nossos heróis negros, que não têm suas trajetórias contadas nas páginas das bibliotecas. Sabotage é um deles. E entrou para a estatística, infelizmente”, finalizou Toni C

Desmilitarização da PM para combater o genocídio negro

Quem cuida da violência dos pobres? Quem está lá para preservar suas vidas? Na democracia, o Estado é quem pode usar a força e essa força é usada através da polícia. A polícia é quem deveria proteger aqueles que estão correndo risco. A polícia é quem deveria contribuir para salvar a vida dos jovens nas periferias.

Infelizmente, o que acontece é exatamente o contrário. A polícia, especialmente a polícia militar, é uma das principais causadoras das mortes da juventude negra e pobre. É por isso que a UJS e diversos movimentos sociais defendem a desmilitarização da polícia no Brasil. “Ninguém precisa dessa estrutura de guerra de um país contra seu próprio povo. Ninguém precisa de um sistema em que policiais são treinados para matar pobres e defender a propriedade dos ricos”, afirmou Renegado.

Flávio Renegado foi nascido e criado na favela do bairro Alto Vera Cruz, comunidade expressiva da zona Leste de Belo Horizonte. No final dos anos 90, Flávio entrou na adolescência e passou por fases conturbadas de rebeldia, libertando-se, em seguida, através da música. Sempre morou no Alto Vera Cruz e, atualmente, faz projetos para libertar outros jovens negros, como ele.
Grafite, dança e som pesado para finalizar os trabalhos

O final do ato contra o racismo não poderia ser mais apropriado. Curujito e Neros, artistas de Brasília, finalizaram o ato com um grafite especial sobre o tema. Hot Black mandou uma rima, no free style, e alguns participantes roubaram a cena com street dance. O rap dos Aliados CP fechou o debate com um recado: “Preconceito aqui não”.

 

Fonte: Vermelho 

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