Machado e a política

A campanha eleitoral, como outras, tem sido pródiga em manifestações de destempero. O segundo turno da corrida presidencial promete um festival de bordoadas no ringue midiático, ambiente concebido para a desconsideração das questões que poderiam interessar ao distinto público votante.

Não fosse por outras virtudes, a campanha será lembrada por ter escancarado as portas da baixaria aos bem-pensantes. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escorregou na maionese ao atribuir a votação de Dilma aos desinformados e habitantes das camadas sociais de baixa renda. Tenho saudades do sociólogo, meu professor, que escreveu Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional.

Um porta-voz da Contradição em Termos – o pensamento mercadista – decretou que Dilma é a grande responsável pelas turbulências cambiais, jur(ássicas) e bursáteis. Disse o sabichão que as expectativas quanto ao futuro governam o presente, e os mercados da riqueza fictícia já decidiram quem pode e quem não pode governar. A riqueza morta se arroga o direito de governar o mundo dos vivos. O povo brasileiro ainda não se manifestou. Mas, para as forças civilizatórias do mercado, pouco importa o que as urnas proclamem.

O expediente de satanizar o adversário revela, esta é minha opinião, indigência mental e despreparo para a convivência democrática. Intelectuais, incluídos os jornalistas, não escapam desses desígnios: as sagradas funções da crítica e da dúvida sistemática são atropeladas pela paixão política e, pior, pela sanha partidária.

É saudável exorcizar as tentações do maniqueísmo. Melhor ainda é benzer-se contra os demônios dos julgamentos peremptórios, aquela coceira do sabe-tudo que ataca frequentemente os que não sabem nada. Uma bateria de ofensas saiu ao encalço dos nordestinos: gente inculta, preguiçosos clientes do Programa Bolsa Família, pobres, burros. Os projéteis ganharam impulso nos Facebooks, Twitters e Instagrams da vida.  Os impropérios lançados das plataformas da arrogância não atingiram apenas os alvos visados, mas maltrataram impiedosamente a língua portuguesa. Os tecladistas alcançam a proeza de cometer cinco atentados contra o vernáculo numa frase de 12 palavras.

Os leitores de CartaCapital hão de permitir lembrá-los de minhas opiniões a respeito das chamadas “redes sociais”. Os bárbaros do teclado manejam com desembaraço a técnica das oposições binárias, método dominante nas modernas ações e interações entre os participantes das redes.  Nos comentários da internet, vai “de vento em popa” o que Herbert Marcuse chamou de “automatização psíquica” dos indivíduos. Os processos conscientes são substituídos por reações imediatas, simplificadoras e simplistas, quase sempre grosseiras, corpóreas.

Nesses soluços de presunção opinativa, a consciência inteligente, o pensamento e os próprios sentimentos desempenham um papel modesto.   Convencidos da universalidade do seu particularismo, os internautas comentaristas distribuem bordoadas nos que estão no mundo exatamente como eles, só que do lado contrário. Os indivíduos mutilados executam os processos descritos por Franz Neumann, em Behemoth, seu livro clássico sobre o nazismo: “Aquilo contra o que os indivíduos nada podem e que os nega é aquilo em que se convertem”. O que aparece sob a forma farsista de um conflito entre o bem e o mal, está objetivado em estruturas  que enclausuram e deformam as subjetividades exaltadas. A indignação individualista e os arroubos moralistas são expressões da impotência que, não raro, se metamorfoseia em desvario autoritário.

Para escapar do contágio, peço socorro a Machado de Assis. Em uma de suas crônicas semanais nos idos de 1878, Machado falava da experiência fracassada da tauromaquia na cidade do Rio de Janeiro. Em seu estilo de incomparável mordacidade, sentenciou: “Uma civilização imberbe não tolera melhoramentos de certo porte”.

Não há como negar esforços às barbas para alçar os povos à civilização.  Há milênios pelejam para brotar não só no rosto dos brasileiros ricos e bonitos, mas também para assomar às faces de outros habitantes do sofrido Planeta Azul. Na terra de Santa Cruz, os pelos encontram cerrada resistência na inexpugnável cara de pau que encobre a fachada dos senhores, senhoritos e de seus fâmulos. São os fâmulos que trovejam em seus teclados. Os que mandam, de fato, no Brasil são mestres na estratégia de fomentar a confusão na Senzala enquanto se empanturram na Casa-Grande.

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