Machismo e vítima questionada: como foi cobertura na época do caso de Cuca

Enviado por / FonteUOL, por Marinho Saldanha

Em 30 de julho de 1987, quatro jogadores do Grêmio foram acusados de estupro a uma menina de 13 anos durante uma excursão do time na Suíça. O caso, cujos protagonistas foram Eduardo, Fernando, Henrique e Cuca, ficou conhecido como ‘escândalo de Berna’, e invadiu novamente o noticiário 36 anos depois após o anúncio de Cuca como técnico do Corinthians. Ele aguentou apenas seis dias no cargo e pediu para sair por causa da pressão vinda sobre o caso.

Se novas informações ainda surgem e depoimentos jogam luz sobre o caso é porque muito ficou para trás na cobertura da imprensa da época. A reportagem do UOL se debruçou sobre publicações de jornais e revistas no fim da década de 80 que trataram do tema repetidamente, mas com uma abordagem que reflete um momento diferente.

O relato do caso: qual a idade da vítima?

Jornais de todo o país relataram o caso. Primeiro citando os fatos ocorridos no Hotel Metropole, em Berna, enquanto o Grêmio participava da Copa Philips. A prisão do quarteto foi noticiada com destaque na primeira página do jornal “O Globo”, em 1º de agosto de 1987.

Nesta matéria é citada a acusação do vice de futebol gremista na época, Raul Régis de Freitas Lima, de se tratar de uma ‘coisa montada’ e de uma suposta truculência da polícia suíça. Ainda segundo o dirigente, a menina teria assistido à partida do Grêmio na arquibancada e subido ao quarto para pedir uma camisa aos jogadores.

O cenário foi o mesmo nos principais veículos do país. O ‘passo a passo’ do caso foi tratado repetidamente pelos periódicos, desde as investidas com a embaixada brasileira, a opinião de especialistas e as versões para o fato, sempre sob viés brasileiro. A “Folha de S. Paulo” definiu o caso como ‘delicado e difícil’ citando fontes diplomáticas do Ministério das Relações Exteriores.

Em meio a cobertura, a vítima ‘mudou de idade’ mesmo que não tenha feito aniversário. Se no início ela era citada ‘com 13 anos’, que de fato tinha, ao longo da cobertura passou a ser citada como ‘com 14 anos incompletos’.

Perfil dos jogadores

A revista “Placar” em sua edição nº 898, em agosto de 1987, publicou uma matéria extensa sobre o caso. Nela, o perfil dos jogadores é desenhado antes mesmo de se detalhar o ocorrido na Europa.

Imagem: Reprodução

“Eduardo é um ex-atleta de Cristo que mora com os pais, Henrique, que não bebe nem fuma, costuma aproveitar suas folgas para ficar junto com a família e a noiva no interior gaúcho, Fernando nunca foi um paquerador — prefere namoros duradouros. E o discreto Cuca casou-se com a segunda namorada”, é o primeiro parágrafo do texto intitulado “O Escândalo de Berna”.

A mesma matéria traz relatos de familiares do quarteto desconfiando do que teria ocorrido. A esposa de Cuca e a noiva de Fernando, ex-colegas como Silas e Renato Gaúcho, todos se colocaram a favor dos acusados. “Conheço o homem que tenho”, declarou Rejane, esposa de Cuca.

Na edição 899, ainda em agosto de 87, a “Placar” relata “O Drama dos Prisioneiros”, outro texto grande sobre como era a rotina dos jogadores detidos na Suíça. Com riqueza de detalhes, o conteúdo humaniza os atletas citando sofrimento e arrependimento.

“Tudo começou quando tirou a blusa”

Os acontecimentos do quarto 204 ganharam atenção especial de algumas publicações. No jornal “O Globo”, a matéria intitulada “Tudo começou quando S. tirou a blusa e pediu uma camisa do time”, publicada em 28 de agosto de 87, é relatada a versão dos atletas para os fatos. O tom é machista.

Imagem: Reprodução

O texto, sem aspas ou citações a terceiros, enaltece os atributos físicos da menina, cita que ela aparentava ter bem mais do que os 13 anos que tinha e sublinha que ela queria uma camisa de presente e por não se fazer entender tirou a blusa, ficando com os seios a mostra.

No mesmo texto, então atribuindo a afirmação aos jogadores, o jornal relata que a menina teria bebido cerveja com os atletas depois do ocorrido, antes da prisão deles, e ainda prometido voltar no dia seguinte. “No entanto, o namorado dela, que também esteve no hotel, ficou enciumado e denunciou ao pai, em processo litigioso contra a mãe de S., que tratou de levar o caso à polícia”, diz a publicação.

Já a “Zero Hora” enviou dois repórteres ao hotel para produção de uma matéria veiculada no dia 29 de agosto daquele ano. ‘A história do apartamento 204’ conta com detalhes como era o local, as alternativas para subir ao quarto sem ser visto e ainda cita a versão de que a menina teria subido ao quarto com dois rapazes, um deles supostamente seu namorado.

“Foi aí que um dos amigos de S. informou, sem qualquer constrangimento, que ela gostaria de transar com um dos jogadores, que também topou logo a oferta. Começa então a confusão, porque os meninos saíram do quarto naturalmente, mas os três outros jogadores do Grêmio apenas se esconderam para fazer uma brincadeira com aquele que estava com S… em uma das duas camas do apartamento”, relata a matéria.

Imagem: Reprodução

O mesmo texto ainda traz entrevistas com funcionários e com o dono do hotel. “Ela queria alguma coisa com os jogadores no quarto que não era certamente só uma camisa, não é? A moça da limpeza do horário não ouviu sinal de violência, batidas, gritos, algo assim”, relatou a senhorita Kley, chefe das camareiras.

Por fim, o texto ainda traz um diálogo atribuído a jovem e uma das recepcionistas do hotel no dia do ato. “De onde você vem?”, perguntou a recepcionista. “Do apartamento 204”, disse a menina. “Você não sabia que é proibido?”, retrucou a funcionária. “Não é proibido para mim”, teria dito a garota mostrando a camisa do Grêmio que teria ganhado.

Novamente a versão de que a denúncia teria ocorrido em razão do ciúme do namorado e do litígio entre o pai e a mãe da vítima é citada pela imprensa brasileira.

China, que voltou ao Brasil antes dos demais membros da delegação, concedeu entrevistas relatando que a menina teria “saído bem alegre” do quarto onde esteve com os atletas. E que ela “aparentava ter mais de 18 anos”.

Frases marcantes

Se na imprensa em geral o tema foi tratado de forma noticiosa, no Rio Grande do Sul foi acompanhado de opinião. Colunistas dos principais jornais do Estado se encarregaram de escrever abertamente sobre o tema.

O fato ocorrido no hotel de Berna é normal em quase todas as excursões, dentro ou fora do país. Se os jogadores tivessem furtado, praticado desordem séria, ou outra atitude demasiadamente desabonadora, eu aconselharia sua eliminação do clube. Mas um deslize de ordem sexual em que, visivelmente, colaborou para sua consumação uma conduta, no mínimo, quase conivente da chamada vítima, não deve servir de amparo para uma decisão drástica. Agora é só torcer – no que acredito – que a Justiça fará justiça. Isto é, que ela realmente encare o fato como foi: uma travessura irresponsável e de total imprevidência dos seus atores quanto a ilicitude e consequências”

Paulo Santana, no jornal “Zero Hora”

Não faltou sequer um teste de escolha múltipla: Pense e responda. A) Uma garota que está sendo estuprada não grita? B) Se grita, ninguém ouve, mesmo estando em um hotel? C) Havendo violência, a vítima não reage a ponto de ferir-se? Violência? Claro que não. Ficou mais claro, pelo menos para mim, que não houve violência no quarto 204 do Hotel Metropole. Pode-se questionar, isso sim, o bom gosto dos envolvidos. Mas cores e sabores não se discute. Resta dar boas-vindas a nossos doces devassos”

Wianey Carlet, no jornal “Correio do Povo”

E os suíços?

A versão da imprensa suíça foi quase esquecida pela mídia brasileira. O jornal “Bulk” também tinha uma versão para os fatos. Mas esta não colocava a vítima em dúvida. Segundo a publicação, ela teria ido até o quarto com outros dois rapazes em busca de uma camisa ou flâmula do Grêmio. Lá, os meninos foram retirados pelos jogadores, que trancaram a porta e enquanto dois tinham relações sexuais com ela, os outros dois a seguravam.

Apoio popular ou não?

Passaram quase em branco duas informações importantes sobre o caso. A primeira foi citada pelo zagueiro Henrique, em entrevista à revista “Placar”, no retorno ao Brasil. Segundo ele, na primeira partida que disputou na volta ao Grêmio, em Rosário do Sul, no interior gaúcho, ouviu muitos xingamentos da torcida alusivos ao que houve na Europa, revelando inconformidade das pessoas.

E nem mesmo no Grêmio havia unanimidade. Segundo os jornais “Zero Hora” e “Correio do Povo”, conselheiros do Tricolor queriam a expulsão do quarteto do clube pois eles teriam ‘manchado a imagem do time no exterior’. O então presidente Paulo Odone Ribeiro chamou todos para uma conversa e optou por apenas forçar os jogadores a arcarem com os custos do processo na Suíça. Técnico do time, Felipão era contra qualquer punição, segundo a mídia da época.

Por outro lado, uma reportagem veiculada pela “TV Globo” traz outro viés ao tema. Além da defesa de familiares, os acusados ainda ganharam apoio popular. Segundo o repórter Julio Cesar Santos, de 20 entrevistados no centro de Porto Alegre, apenas um achava que os jogadores deviam ser condenados. Entre os entrevistados, familiares dos atletas e populares defenderam os gremistas.

“Eu acho que uma menina de 14 anos, se fosse minha filha, não sairia no meio dos hotéis com os rapazes. A culpa, no caso, seria mais dela do que deles”, disse a mãe de Henrique.

Chegada apoteótica

Imagem: Reprodução

O desfecho do caso na cobertura da imprensa teve tons de apoteose. A chegada dos jogadores de volta ao Brasil após quase um mês detidos na Suíça foi acompanhada de entrevistas, e a cobertura teve um ambiente festivo.

“A torcida vibrou, cantou o hino do Grêmio, aplaudiu os jogadores e xingou a jovem suíça”, resume a “Zero Hora” de 31 de agosto de 87.

“No instante em que saíram da pista de desembarque, os atletas provocaram uma verdadeira correria, que chegou a lembrar um quebra-quebra de dia de greve geral. Entre beijos, abraços, autógrafos e o delírio da multidão que desejava tocar em seus ídolos, ficou solitário o comentário da socióloga Isabel Cristina Ramos que estava no local para receber familiares: Isso tinha mesmo que acontecer no Estado da maior tradição machista do Brasil. A virilidade gaúcha retoma toda sua força de símbolo regional”, conclui o texto.

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