domingo, novembro 27, 2022
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Mães, pais e “pães” do mundo, sejamos feministas!

Cena 1

Por Patrícia Maeda Do Justificando

Casal feliz aguarda a chegada da filha. Ao anunciar o sexo biológico do bebê, ouve de um casal amigo de longa data, também pais de uma menina:

– Então, vocês também terão uma fornecedora?

“Oi? O que se quer dizer com fornecedora?” Ao se depreender do contexto da fala o significado do termo, os pais sorriem mudos, enquanto sentem um misto de incômodo e indignação.

Cena 2

Sob a desculpa de que meninos são mais ativos, os pais deixam a criança subir e pular livremente no sofá da casa dos anfitriões, que apreensivos comentam sobre os riscos de queda. A criança cai e abre o berreiro. Os pais a reprimem, não porque quebrou o vaso herdado da falecida avó da anfitrião, mas argumentando tão somente que menino não chora

Perdoem-me os exemplos estereotipados. Não pretendemos obviamente dizer o que é certo ou errado nem dar receitas prontas a ninguém. Se conseguirmos provocar-lhes, seja para concordar ou repelir, mas sobretudo para pensar, teremos atingido nosso intento. Bom, o ponto é o quanto, nós, adultos, por vezes, responsáveis pela educação de crianças e adolescentes, contribuímos para reproduzir nelxs papéis socialmente definidos e naturalizados a partir do sexo biológico, que reforçam a opressão de gênero. Essa discussão deve ser ampla e ao mesmo tempo aprofundada, de modo que certamente neste espaço teremos a chance apenas de pontuar algumas questões.

A cena 1 traz à tona a objetificação do corpo da mulher. Ainda que quem faça esse tipo de comentário não tenha essa intenção, é necessário dizer que pouco importa sua intenção, pois o sentido desse tipo de fala é o mesmo: o controle do corpo da mulher não lhe pertence desde antes de seu nascimento. Reparem que essa ideia está tão introjetada no ideário do casal, já pais de menina, que eles reproduzem as boas vindas à “nova fornecedora”, naturalizando essa forma de opressão. Isso a acompanha por toda infância: “sente-se direito, feche suas pernas”; “não use um shorts tão curto nem um decote tão ousado”; “não fale palavrão”; “seja boazinha”… Ressaltamos o contexto de educação, digamos, ocidentalizada, pois se sairmos de nossabolha, veremos mulheres que não podem mostrar suas roupas, seus cabelos, seus lábios etc. Esse tipo de controle sobre o corpo e, no limite, sobre a sexualidade das meninas tem efeitos perversos, ainda que não desejados por nós: a violência contra a mulher, a cultura do estupro… Afinal, “se ela se veste desse jeito, é porque estava esperando”; “o que ela estava fazendo sozinha naquele lugar?”… O julgamento moral e as cobranças que a sociedade impõe à mulher que busca independência, autonomia e liberdade de expressão é, por vezes, cruel. Uma sociedade igualitária não seria aquela em que as mulheres pudessem se vestir e ocupar os espaços como quisessem? Não importa o que elas vestem, falam ou onde estejam, ainda que você não concorde, todas merecem respeito!

A cena 2 traz a falsa ideia de falta de controle físico masculino, além da repressão de suas emoções. Não queremos corpos disciplinados (Foucault) e obedientes, mas isso significa uma total ausência de controle? Ensinar o autocontrole físico, bem como o respeito para com o outro, seria incompatível com a biológica prevalência da testosterona? Se partimos da ideia de que ele é “uma peste” e “ninguém o segura”, como esperar que, quando crescido, reconheça a linha tênue que marca até onde vai sua liberdade e começa a de outrem? Como vai entender a diferença entre a cantada e o assédio? Além disso, se não ensinamos a lidar com emoções e sentimentos, apenas reprimindo seu choro, como esperar que ele desenvolva empatia? Não sentir dor e medo nem aceitar qualquer vulnerabilidade pode fazer um homem duro, mas talvez não altruísta.

A sociedade em que vivemos está patriarcal e ainda os papéis sociais do sexo masculino e feminino estão muito bem delineados.

Ao homem pertence o espaço público e (en)cargo de provedor do lar. Quando criança, ele brincou de carrinhos e de super heróis, jogou bola e criou certo senso de equipe. Como adulto pode ser corajoso, durão e empreendedor. Competição e conquistas fazem parte de seu dia a dia. À mulher pertence o espaço privado e de cuidadora do lar e da família. Ela brincou de bonecas e de panelinhas, sonhou em ser princesa e viver feliz para sempre ao lado do príncipe encantado. Para tanto passou (ou foi ensinada) a ver suas amiguinhas como concorrentes, rivais da atenção masculina… Felicidade para esta princesa está no príncipe encantado e não em suas próprias realizações. Na fase adulta, ela pode ser “bela, recatada e do lar”, mas ser assertiva, desafiadora e ocupar um espaço público de destaque pode ser umproblema. A respeito da rigidez desses papéis sociais e de suas consequências na subjetividade, a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche propõe:

A questão de gênero é importante em qualquer canto do mundo. É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.

Sabemos que as relações sociais, assim como a própria história, estão em movimento contínuo. Daí porque podemos apostar no potencial transformador da educação, além da possibilidade de desconstrução do machismo em todxs nós. A consciência das práticas machistas pode surgir aos poucos, mas quando “essas lentes” se instalam dificilmente voltamos a ver o mundo como antes. Isso pode ser um pouco doloroso ao mesmo tempo em que é potencialmente emancipatório. Mas falar em feminismo pode parecer revolucionário demais. Sugerimos então o seguinte teste, desenvolvido por Cynthia Semíramis.

Teste: você é feminista?

1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?

2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?

3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?

4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?

5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?

6. Você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?

7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?

8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?

9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?

10. Você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?

Todos os itens acima referem-se a direitos que historicamente foram negados às mulheres (e alguns ainda o são). Cada resposta sim significa assumir um ponto de vista feminista. (grifamos)

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Esse teste também é recomendado para os homens. Sim, vocês podem ser pró-feministas! Ademais, para quem ainda não percebeu o feminismo não afeta a sexualidade de ninguém: apenas significa a busca por condições de igualdade entre os gêneros. Por exemplo, no cuidado do lar e dos filhos, o grande orgulho do “homem que ajuda em casa” deve ser desconstruído, pois parte de uma premissa, sentimos dizer, machista. Isso porque, se ele ajuda e não divide o cuidado, a responsabilidade é da mulher e isso não é igualdade.

Um outro ponto sensível em termos de educação é pensar para além da dualidade homem x mulher, que parece ser, mas não é universal. Resumidamente, os estudos de gênero revelam que a anatomia (sexo biológico) não determina a identidade de gênero (gênero com o qual a pessoa se identifica, de modo que pode ser cisgênero ou transexual, concordando ou não com o sexo) nem a orientação sexual (homossexualidade ou heterossexualidade). Assim, biologia, gênero e sexualidade se conectam, mas não se confundem. O tema é bem mais complexo, por hoje somente gostaríamos de sugerir repensar a educação sem impor às crianças papéis sociais que afrontem suas subjetividades, além de ensinar o respeito e a tolerância com a linda diversidade da raça humana sob todos os aspectos, ao mesmo tempo em que lutamos por uma sociedade mais igualitária.

Patrícia Maeda é juíza do trabalho no TRT da 15ª Região (Campinas/SP) e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Foi escrevente técnica judiciária no TJ/SP e auditora-fiscal do trabalho do Ministério do Trabalho. Mãe de duas feministas mirins, esposa do Sá (seu companheiro em todas as aventuras) e corredora de rua. Vivencia de diversas formas a frase de Rosa Luxemburgo: “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem”. Mestra pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, defendeu sua dissertação com o título “Trabalho no capitalismo pós-fordista: trabalho decente, terceirização e contrato zero-hora”. Pesquisadora do Grupo de Pesquisas Trabalho e Capital – GPTC/USP.

Fotos: Humans of New York

[1] Rendemos aqui nossas homenagens a quem assume o duplo papel de pai e mãe solitariamente.
[2] O corretor ortográfico não aceita, mas a grafia que desejamos é essa mesma: nelxs para abranger todas as possibilidades – nelas, neles e nelxs mesmo!
[3] Respeitamos todas as religiões, apenas descrevo algo que nos salta aos olhos: não conhecemos religião que imponha o mesmo tipo de controle sobre os corpos masculinos.
[4] Sobre o tema, recomendo a leitura de “Mulheres livres também são estupradas” de autoria de Laura Benda. Disponível em:http://www.justificando.com/2016/06/09/mulheres-livres-tambem-sao-estupradas/. Acesso em: 21/8/2016.
[5] Outro artigo de Laura Benda. “Vadia? Eu? O que você faz tem nome e se chama slutshaming”. Disponível em:http://justificando.com/2016/08/10/vadia-eu-o-que-voce-faz-tem-nome-e-se-chama-slutshaming/. Acesso em 27/8/2016.
[6] Quero chamar a atenção aos ataques misóginos e recomendo a leitura de “E se fossem um juiz, um presidente e um professor”, de minha co-autoria com Elinay Melo, Laura Benda, Núbia Guedes e Sofia Dutra. Disponível em:http://justificando.com/2016/04/07/e-se-fossem-um-juiz-um-presidente-e-um-professor/. Acesso em: 21/8/2016.
[7] ADICHE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas. Tradução de Christina Baum. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
[8] Disponível em: https://cynthiasemiramis.org/teste-voce-e-feminista/. Acesso em: 10/9/2016.
[9] Super recomendada a leitura de: CASTRO, Alex. Feminismo para homens, um curso rápido em 26 lições, por Alex Castro. Disponível em:http://papodehomem.com.br/feminismo. Acesso em: 10/9/2016.
[10] O feminismo reivindica para si a luta por todas as mulheres, sejam elas cis, trans, homo ou heterossexuais.
[11] Para início de conversa sugerimos: JESUS, Jaqueline Gomes de.Orientações sobre identidade de gênero : conceitos e termos. Brasília, 2012. Disponível em:https://www.sertao.ufg.br/up/16/o/ORIENTAÇÕES_SOBRE_IDENTIDADE_DE_GÊNERO__CONCEITOS_E_TERMOS_-_2ª_Edição.pdf?1355331649. Acesso em: 10/9/2016.
[12] O papel da escola e as questões por trás da “Escola sem partido” e da “ideologia de gênero” serão abordadas oportunamente.
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