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Maicon Rodrigues reflete sobre racismo e empoderamento: ‘Fomos muito oprimidos sobre as nossas culturas’

Com uma carreira em ascensão, o ator celebra a boa fase e fala da experiência de viver um escravo em ‘O Tempo Não Para’

por Thaís Meinicke no Gshow

Em sua quarta novela em apenas três anos, Maicon Rodrigues pode dizer que sua carreira vai de vento em popa. Aos 23 anos, o ator – que estreou em Malhação – Seu Lugar no Mundo, e passou por Rock Storye Tempo de Amar – celebra seu mais novo trabalho, agora em O Tempo Não Para. Apesar de a trama já ter estreado há um mês, para ele a diversão acaba de começar: Cecílio, seu personagem, foi descongelado e, finalmente, apresentado às maravilhas do século 21. “Não posso entrar numa de que o que estou vivendo não é especial, porque a realidade dos meus amigos atores que não estão no mainstream é muito diferente da minha”, diz.

“Não é fácil ser artista hoje. O que estou vivendo tem muito a ver com as pessoas que passaram no meu caminho, que me deram as oportunidades”

Maicon Rodrigues celebra boa fase profissional e lembra da infância em Nova Iguaçu (Foto: Dessa Pires/Divulgação)

Nascido e criado em Nova Iguaçu, Maicon lembra que, por lá, não tinha muito contato com a arte. “A Baixada Fluminense não tem nenhum acesso à cultura. Nada chega lá, porque é caro e não tem muito retorno”, explica. “Quando você está na Baixada, fica limitado, parece que o sistema te limita a olhar. Você vai crescer ali e, no máximo, vai fazer um curso técnico porque é mais barato”.

Até a adolescência, ele conta que sua rotina se dividia, basicamente, em três atividades: estudar, jogar bola e ajudar a mãe nos negócios. “Ela é empresária e já trabalhei com ela em algumas empresas. Meus pais eram separados e eu era o único homem da casa. Essa responsabilidade sempre caiu para cima de mim”, lembra o ator, que tem duas irmãs.

“Pode soar meio prepotente falar isso, mas sempre tive um olhar muito artístico das coisas e não me sentia parte daquilo ali”
Na adolescência, Maicon começou a fazer cursos de artes cênicas enquanto trabalhava com a mãe (Foto: Dessa Pires/Divulgação)

Quando, durante um período da adolescência, a família se mudou para a Barra da Tijuca, bairro de classe média alta carioca, um novo mundo se abriu para Maicon. “Fui estudar em um novo colégio e me deparei com pessoas de vários pensamentos, várias religiões… Conheci a Poliana Aleixo e a Olivia Torres, que também são atrizes. Só então fui entendendo o universo e vendo que o mundo não era só aquilo ali que eu estava vivendo na Baixada”, lembra.

Percebendo sua verve artística, um primo aconselhou Maicon a apostar em cursos de atuação para TV. “Acabei fazendo muitos cursos livres, porque, como tinha que trabalhar com a minha mãe, não tinha tempo de me dedicar integralmente a uma escola de teatro”, lembra.

O fato é que, depois de conseguir, em 2015, o papel para viver Beto em Malhação, ele não parou mais. Logo em seguida, interpretou JF, em Rock Story, e Pepito, em Tempo de Amar. “Adorei fazer uma novela de época, porque me deu noção e inteligência cênica. Você tem que trazer isso para o corpo e para a voz, é uma coisa que eu nunca tinha feito. Sou um cara muito contemporâneo, quando pego um desafio desses é gostoso de fazer”, diz.

“Sempre me senti incompleto. Por isso digo que, nos trabalhos que faço, tenho crescido muito como pessoa e como artista. As pessoas que cruzaram o meu caminho foram muito importantes”

Agora, ele vive a experiência de interpretar um personagem de época que, de repente, se vê em meio ao século 21. Na trama, Maicon é um dos escravos da família Sabino, e está encantado com a oportunidade de fazer essa viagem no tempo. “Quando você se vê sendo um personagem de época conflitando com a contemporaneidade é uma loucura. É difícil, mas muito bom. Você tem que pirar mesmo”, diz.

Dessa Pires/Divulgação

Para ele, a experiência de voltar no tempo para compor o papel tem sido enriquecedora para estreitar os laços com suas raízes. “A preparação foi muito importante para criar o elo com o passado, para eu me colocar nesse lugar de ser um ator negro fazendo um ser escravizado. Essa foi a minha maior arma, no sentido positivo”, acredita Maicon, que completa: “Nós fomos muito oprimidos sobre as nossas culturas, e somos até hoje. Sou de uma família evangélica e lembro que, quando quis fazer capoeira, ouvi que não era bom, não era de Deus. Eu ouvi isso”.

“Trabalhamos muito nesse lugar de descoberta, de investigação. Interpretar um escravo está sendo um presente para eu me aproximar do que os negros foram condicionados”

Maicon Rodrigues acredita que o papel em ‘O Tempo Não Para’ o aproximou das suas raízes e história (Foto: Dessa Pires/Divulgação)

Maicon lamenta que até hoje a opressão ao povo negro esteja presente na sociedade, mas celebra o fato de o próprio movimento estar começando a elevar sua autoestima. “Começamos a desconstruir essa ideia de que tudo que é nosso é negativo”, acredita ele. “E isso eu tento trazer com o meu personagem, questionar: ‘Por que está igual? Por que eu tenho que abaixar a cabeça? Por que tenho que ficar quieto de novo?’. A geração da minha avó fazia isso, ficava quieta, abaixava a cabeça”, conta.

“Acho que essa é a hora que estamos nos reconhecendo como pretos e recuperando a autoestima de uma nação”

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