quarta-feira, setembro 29, 2021
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Mapeamento de trancistas afro do estado do Rio de Janeiro

A atividade de trançar cabelos tornou-se um modo de trabalho para muitas mulheres e homens negros na sociedade brasileira. Na cidade do Rio de Janeiro (capital do estado) é possível visualizar trancistas pela Zona Norte, pela Zona Oeste e pelo Centro da cidade. Este número de trabalhadoras e trabalhadores também é expressivo em outras áreas da região metropolitana. Na Baixada Fluminense também encontramos estas trabalhadoras e trabalhadores cultivando uma arte ancestral que como apontou Nilma Lino Gomes em seu estudo “Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo de identidade negra” (2006) não começou nos territórios de diáspora africana. Penteados complexos eram marcas civilizatórias de várias sociedades africanas. Estudos etnográficos como do Padre Carlos Estermann (1960) demonstram a beleza e os significados dos penteados em grupos étnicos do sudoeste de Angola.

Trançar cabelos e enfeitá-los com adornos tais como: concha búzios e miçangas é uma ação muito antiga que era promovida em várias sociedades africanas (LODY, 2004). Ação essa que tem sido reforçada no continente afro-pindorâmico pelos movimentos negros e pelas famílias negras (famílias biológicas e famílias de axé). Afinal, búzios e miçangas dentre seus muitos significados representam prosperidade e quem não precisa de prosperidade? Manter o uso destes elementos dados generosamente pela natureza é afirmar a identidade negra e elos ancestrais.

No Rio de Janeiro, na capital, não podemos e nem devemos falar de cultura negra sem pensar a cultura das tranças e penteados afro que são como mencionei presentes em vários pontos da cidade. O bairro de Madureira é consagrado por ser um dos berços da cultura negra. Em Madureira vemos a manifestação das culturas de terreiros, da cultura hip hop, dos sambas, dos grupos de Jongos e escurecidamente um quantitativo de trancistas espalhadas (os) por salões e guichês disseminando a artesania de trançar cabelos nos Oris (cabeças). É em Madureira que se localiza um dos mais antigos salões especializados somente em penteados trançados o famoso salão de beleza Trança Nagô. Salão com dez anos prestando o serviço de tramar trançados e que emprega mulheres negras trancistas, trançadeiras e tranceiras.

Outro salão que se destaca na cidade do Rio de Janeiro e também na Zona Norte é o salão Iporinchê, localizado no bairro da Tijuca. Este salão de beleza étnico é um dos pontos de referência nos cuidados das mechas crespas e cacheadas. O Iporinchê é frequentado pela militância negra, intelectuais negros, artistas e pessoas negras de diversos setores da sociedade. No perfil do Facebook do salão de beleza está publicado o significado de seu nome:

IPORINCHÊ, é uma forma aportuguesada da aglutinação de três expressões africanas que são: “IPO” = lugar, “ORI” = cabeça, e N’SE “= fazer. Significa LUGAR DE FAZER CABEÇA. Segundo a tradição africana, o “ORI” refere a sede do conhecimento e do espírito e a proposta no IPORINCHÊ é elevar a auto-estima através da valorização da beleza estética e cultural da etnia negra.

Salões de beleza étnico ou afro são uma crescente na sociedade carioca e brasileira. Neles encontramos trancistas, trançadeiras e cabeleireiras (os) étnicas (os) especializadas (os) no trato dos fios crespos. Estes salões fazem um importante trabalho de elevação da autoestima da população preta e parda. Eles fortalecem a identidade negra. São nossos Quilombos contemporâneos.

Os salões de beleza afro ou étnico estão minimamente listados no site do SEBRAE. É possível encontrar vídeos no Youtube e pequenas cartilhas produzidas pelo SEBRAE falando destes serviços especializados. Agora sobre o trabalho autônomo de trancistas e trançadeiras que não estão restritas apenas ao espaço dos salões de beleza não há números, relatórios, pesquisas, documentos ou mapeamentos realizados. Quantas trancistas circulam pela cidade e estado do Rio de Janeiro prestando o serviço dos penteados afro? Qual é o gênero, a raça, a geração, a renda média, a escolaridade e a religião de quem vive de entrelaçar cabelos? Trancistas são majoritariamente negras (os), são de religiões de matrizes africanas, têm baixas ou altas escolaridades, são ligadas aos grupos dos movimentos negros? Trancistas estão mais concentradas na região metropolitana do estado do Rio de Janeiro ou é possível encontrar estes trabalhadores e trabalhadoras em outras regiões como a Baixada litorânea? Ainda trancistas são trabalhadoras e trabalhadores de nacionalidade brasileira ou neste mercado de serviço estético há um quantitativo de trancistas de outras nacionalidades?

São muitas perguntas que buscamos responder com o mapeamento em aberto e que pode ser acessado no seguinte endereço eletrônico: https://bit.ly/mapeamentodetrancistas

O objetivo do mapeamento de trancistas e trançadeiras do estado do Rio de Janeiro é traçar o perfil socioeconômico destes trabalhadores e trabalhadoras, contribuir na coleta de dados para a pesquisa de doutoramento em andamento no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-Rio. Pesquisa que tem por objetivo abordar a construção identitária de trancistas afro na cidade do Rio de Janeiro. O estudo pesquisa está sendo realizado por Luane Bento dos Santos que é antropóloga, trançadeira afro, mãe, candomblecista, professora de sociologia da Educação Básica e militante negra.

Os dados preenchidos no formulário eletrônico servirão para a pesquisa de doutorado acima mencionada e para a produção de uma cartografia social deste grupo de trabalhadoras e trabalhadores. Além disso, saber quantas ou quantos somos poderá contribuir no reconhecimento profissional desta categoria de trabalhadoras (es). Trancista não é uma categoria de trabalho listada como profissão. Este tipo de reconhecimento é urgente no que se refere à aquisição de direitos sociais e formulação de políticas públicas.

Trançar cabelos é uma expressão artística, é uma tradição ancestral e é um modo de sobrevivência financeira que sustenta muitas famílias. A cultura das tranças alimenta e fortalece muitos indivíduos no sentido material e espiritual. A cultura das tranças faz parte da paisagem urbana. Ela está entranhada no cotidiano dos afro-brasileiros, é um sinônimo de resistência e resiliência. Trançar é um ato político contra uma sociedade que postula uma estética hegemônica branca. Viver das tranças é cultivar com muito custo um saber-fazer ancestral que atravessou o Atlântico. Um fazer que não sucumbiu a escravidão, a colonialidade e a depravação da discriminação racial persistente. Por essas razões, contribua com a divulgação do formulário eletrônico nas suas redes sociais.

Referências

ESTERMANN, Carlos, Padre. Álbum de penteados do sudoeste de Angola. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar; 1960.

GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolo da identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

LODY, Raul. Cabelos de Axé: identidade e resistência. Rio de Janeiro: E. Senac Nacional, 2004, p. 136.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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