Marielle Franco e as fake news

No dia 14 de março de 2018 o país e o mundo foram tomados pelas notícias que anunciavam a morte da vereadora carioca Marielle Franco. Muitas pessoas não sabiam quem era ela, mas saber que ela tinha morrido era e é uma percepção comum. Alguns se questionavam o porquê de uma mulher tão socialmente proativa não ter tido em vida sua imagem pautada de forma merecedora na mídia. Outros só assistiam a recente tragédia e posteriormente desligavam suas televisões a fim de dormir e descansar contra outro e outros dias corridos.

É importante ressaltar que não eram apenas as pessoas “comuns” que não tinham conhecimento acerca de Marielle, muitas pessoas inseridas no mundo da comunicação, como jornalistas também não a conheciam. E como jornalistas, perceber esse apagamento midiático de pessoas que tornam a sociedade melhor é um grande avanço para discutir empecilhos que ainda circundam nossa profissão.

O inciso II do Art. 2º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, declara que “a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”. É pelo código de ética que nossa profissão deve ser pautada, e é pelo fato contrário que percebemos a grande desvalorização da profissão no mercado de trabalho. No caso da morte da mulher, feminista, socióloga e vereadora Marielle Franco não foi diferente. Não só seu apagamento midiático enquanto viva, como também as notícias falsas ou chamadas fake news que surgiram após a sua morte representam a urgência de se discutir e pautar o código de ética e a regulamentação midiática no Brasil.

Marielle era Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e para além de discussões políticas maniqueístas, Marielle era uma mulher negra, lésbica e que lutou contra as mais variadas injustiças que atingiam seus semelhantes de vivência. Em sua estadia de um ano e três meses como vereadora, ela apresentou 16 Projetos de Lei, tendo dois aprovados. Um deles foi o Projeto de Lei 0265/2017, nomeado Lei das Casas de Parto, o qual tem por objetivo estimular a criação de casas de parto, que além de contribuir para a saúde da mãe e do bebê, amenizam as sobrecargas das maternidades de grande porte.

Analisando os Projetos de Lei da Vereadora, percebe-se que as minorias sociais eram sua pauta. Mas só quem conhecia ou agora conhece a história de Marielle pode rebater ou abraçar as milhares de publicações que saem sobre ela nas redes sociais. Quem conhece sua história, como também quem possui as habilidades técnicas e teóricas para revidar as fake news, como os comunicólogos, por exemplo. O restante da sociedade fica a mercê da avalanche de notícias sem procedência e com interesses particulares.

As pessoas que criam e disseminam notícias falsas possuem, para além do ódio a uma classe, interesses particulares. E, indo de encontro aos deveres pregados no Inciso V do Art. 7º do Código de Ética dos Jornalistas, o qual diz que “o jornalista não pode usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime”, o caso de Marielle nos mostrou o quão urgente e abrangente deve ser a discussão sobre o combate as fake news na sociedade.

De acordo com um estudo do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) a notícia mais compartilhada sobre a morte de Marielle é uma fake news. A situação começou com algumas postagens publicadas pelo site Ceticismo Político, as quais afirmavam que Marielle era casada com o traficante Marcinho VP, que havia sido eleita pelo Comando Vermelho e que também tinha engravidado aos 16 anos. Logo após o referido site ter publicado as notícias sobre a vereadora, a página do Movimento Brasil Livre (MBL) no facebook compartilhou as fake news. chegando a gerar um alcance de mais de 360 mil compartilhamentos.

O engajamento do MBL para com as fake news publicadas pelo site ceticismo político não foram em vão. A parceria entre eles já era algo perceptível pelo engajamento e compartilhamento de várias outras publicações anteriores, e as atitudes fraudulentas que revelam os interesses políticos do MBL também não são novidades. O movimento que surgiu com o intuito de acabar com a corrupção no Brasil, é alvo de vários processos que envolvem corrupção, e mais uma vez aparece ligado a atitudes criminosas, desta vez com notícias falsas.

O objetivo das publicações que foram criadas pelo site Ceticismo Político e disseminadas pelo MBL é unicamente político. É esperado do MBL ou de outros vários que os apoiam, desvalorizar uma mulher, negra, lésbica, de movimentos ditos de esquerda. Desvalorizar a imagem de Marielle é algo positivo para pessoas que preenchem o discurso político com ódio e superficialidade. E para além dessa necessidade de alguns por disseminar ódio, há os interesses políticos de outros. O MBL não impulsionou as publicações em vão, por trás da figura de Marielle há todo um sistema político polarizado, que inclui a direita e a esquerda. E é neste ano de eleições que os interesses políticos e as fake news emergem.

Neste caso que envolve Marielle, apesar dos milhares de compartilhamentos nas redes sociais, notou-se que os principais portais jornalísticos pautaram de forma crítica as fake news. Porém, para além do meio jornalístico, combater as notícias falsas é um papel de todos, pois estas são grandes influenciadoras políticas, e quando disseminadas podem causar grandes estragos na vida de pessoas e de modo geral na Democracia.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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