segunda-feira, agosto 8, 2022
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“Mas morreu esse tanto de gente por covid-19 mesmo?”

A pergunta que temos ouvido com o anúncio de 200 mil pessoas mortas por covid-19 no Brasil ajuda a compreender o cenário que estamos vivendo. A descrença nas informações oficiais (não à toa). A descrença na imprensa (também não à toa). O negacionismo que, por progressão geométrica, vai do Planalto às praias e bares, tendo passado por campanhas eleitorais da direita e da esquerda.

Nosso negacionismo não é novidade. Arrisco afirmar que nossa negação histórica é o ovo da política de morte do governo Bolsonaro. Não apenas porque permitimos, sem sanção, a continuidade da campanha de um pré-candidato que cometeu o crime de racismo ao afirmar que “quilombola não serve nem para procriar”. Nem porque renovamos continuamente os mandatos de um deputado federal que elogiava torturadores, defendia a ditadura, e chegou a interromper a inauguração de um busto em homenagem a Rubens Paiva com uma cusparada.

Mas principalmente por convivermos com os dados brutais de extermínio de uma parcela da população por sua raça e nos negarmos a reconhecer que há um genocídio em curso no Brasil. Por termos dados e mais dados mostrando que nossas desigualdades e violências têm raça como elemento estruturante e seguirmos no pensamento mágico de que homens brancos eleitos vão nos salvar enquanto aprofundam o genocídio negro.

Em 1988, Lélia Gonzalez apresentou a categoria freudiana de denegação (Verneinung) para compreendermos as artimanhas do nosso racismo. Em “A categoria político-cultural de amefricanidade”, Lélia explica o processo pelo qual o indivíduo se defende dos próprios desejos, pensamentos e sentimentos recalcados pela negação deles e explicita: “Enquanto denegação de nossa latino-amefricanidade, o racismo ‘à brasileira’ se volta justamente contra aqueles que são o testemunho vivo da mesma (os negros), ao mesmo tempo que diz não o fazer (‘democracia racial’ brasileira)”. Embora o vice-presidente da república ainda esteja na fase de negar o racismo, a maior parte da sociedade compreendeu a denúncia do movimento negro de que a democracia racial era uma falácia e de que somos um dos países mais racistas do mundo. Mas o reconhecimento do racismo ainda não foi suficiente para deixarmos de nos voltar contra negras e negros.

No início da pandemia, em 20 de março de 2020, a Coalizão Negra por Direitos divulgou uma nota que alertava desde o primeiro parágrafo: “Estamos às portas de uma grave crise, com o acelerado avanço da covid-19, que vitimará grandes contingentes populacionais, desestruturará cadeias produtivas e mergulhará as economias num caos sem precedentes em todo o planeta”. E afirmava nos parágrafos seguintes o terror que se estabeleceria com mais gravidade caso prevalecesse a lógica da seletividade de critérios racistas, misóginos e LGBTfóbicos. “O Coronavírus é uma oportunidade para as elites globais de implantação radical do genocídio. Abandonando as populações indesejáveis, aglomeradas em estruturas habitacionais degradadas nas periferias das grandes metrópoles, em benefício da classe média branca dos países do centro econômico e político”. Exatamente o que tem sido descortinado dia a dia.

A nota era também propositiva. Revogação da Emenda Constitucional nº 95, com retomada do investimento no SUS; acesso imediato ao saneamento básico para as áreas sem cobertura; acesso a água potável e coleta de lixo regular; congelamento de preços de alimentação e produtos de higiene; proibição de cortes de energia elétrica, água e outros serviços; suspensão de racionamento de água, além dos cuidados com pessoas infectadas foram algumas das medidas urgentes apresentadas que teriam salvado muitas das mais de 200 mil vidas perdidas.

Diante das ações genocidas de Jair Bolsonaro, em 12 de agosto de 2020 a Coalizão Negra por Direitos protocolou um pedido de impeachment que, se não tivesse ficado na gaveta de Rodrigo Maia, e tivesse apelo dentre a maioria de parlamentares brancos e ricos que ocupa o Congresso também poderia ter mudado os rumos da política de saúde e assistência social, evitando ainda mais mortes. Mas na negação a que estamos habituados, Rodrigo Maia também pode postar críticas ao governo no Twitter e seguir fingindo que não é com ele.

O Brasil é bom em negar.

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