“Meu ex abusivo me fazia alisar o cabelo”

Mariana levou seis anos para entender que as críticas do namorado aos seus cachos não eram para o seu bem, mas para controlá-la. Antes de acabar com o namoro, quase ficou careca…

Reportagem: Caroline Cabral, do Sou Mais eu 

O João* era um cara bacana com quem eu dançava no “pump it up”, aquela máquina que sinaliza os passos de dança através de luzes no chão e a gente precisa acompanhar no tempo certo. Me apaixonei assim que o vi e, alguns meses de paquera depois, estávamos namorando de aliança e tudo. Eu tinha 17 anos e aquele era meu primeiro relacionamento sério. Fiquei enlouquecida! Podia jurar que o João era o homem da minha vida. Tinha 20 anos, era bonito, simpático, engraçado e ótima companhia. Mesmo me vendo sempre de roupas esportivas e cabelo preso por causa do jogo, vivia dizendo que eu era linda e me surpreendia com presentes e mimos. Ah, era um conto de fadas!

Três meses depois, aquele rapaz fofo começou a mudar. De repente, eu não era mais tão bonita para os padrões dele. Meu cabelo enrolado, sobre o qual ele nunca havia reclamado, virou motivo de briga. Insegura, fiz de tudo para agradar-lhe: alisei, pintei, cortei… Virei escrava da chapinha! Mas meus esforços não bastaram. Tinha que ouvir direto coisas como: “Você parece um moleque!” Passei a me sentir um lixo, mas demorei seis anos para sair disso, porque tinha medo de ficar sozinha. Até que quase fiquei careca…
“Por que o cabelo das outras é mais bonito que o seu?”, ele dizia
Meu cabelo é cacheado e, lá em 2007, estava tingido de castanho-avermelhado. Como sempre gostei dos cachos, a tintura era o máximo de química que eu usava. Quando completei 18 anos, resolvi me dar uma escova no salão de presente. Não uma definitiva. Era só pra mudar um pouco… Não contei para ninguém. Cheguei alisada de surpresa na minha festa e todos adoraram. O João disse que eu estava linda! No dia seguinte, lavei a cabeça e voltei ao natural. Foi aí que ouvi o primeiro insulto. “Caramba, Mariana! Como seu cabelo é feio! Por que o das outras meninas são tão mais bonitos que o seu?”, perguntou meu namorado.
Virei escrava da chapinha e rezava pra não chover. Mas que inferno!
Do nada, o João passou a me comparar com todas, de desconhecidas no shopping a amigas dele que tinham cabelo liso. Eu, que já havia sido traída por outro cara e tinha baixa autoestima, nem questionei as críticas dele. Como elas confirmavam meus medos, acreditar nelas era fácil. Pra piorar, eu não trabalhava, então não tinha grana para alisamento. Isso também não importava. “Se vira”, ele disse uma vez, depois de ameaçar me largar.
Eu estava num relacionamento abusivo, mas não sabia. Na época, o João me fez acreditar que dizia tudo aquilo porque me amava e queria meu bem. Quando completamos seis meses de namoro, estava empregada e resolvi usar meu primeiro salário para deixá-lo feliz. Como pagar uma progressiva no cabelo comprido que eu tinha custaria R$ 220, cortei os fios na altura dos ombros e alisei por R$ 100. Até achei bonito e parecia ser prático, mas não me sentia eu. Ignorei a sensação. Não era o mais importante…
Mostrei a progressiva ao meu amor saltitando de tão contente! Ele gostou e achei que tinha resolvido nossos problemas, mas minha felicidade durou só um dia. Como progressiva não alisa de verdade, bastou uma lavagem para os fios ganharem volume e um pouco das ondas. Algo esquisito, entre o liso e enrolado. Morrendo de medo de perder o namorado por causa do cabelo, passei a fazer chapinha toda vez que saía com ele. Era um trabalho do cão! Perdia mais de hora na frente do espelho tentando deixar os cachos lisos e rezando pra não chover.
Achava que era para o meu bem, mas fiquei sem personalidade
Um dia, o João apareceu de surpresa na faculdade pra me buscar. Como a gente não tinha combinado de se ver, nem fiz chapinha. Ele me deu o maior sermão. “Você não se cuida! Não dá valor pra minha opinião!”, gritava ele enquanto eu chorava, humilhada, no meio da rua. “Quer ficar feia? Parece mais um moleque que uma menina!” Essa cena se repetiu várias vezes e piorou com o tempo. Se não era meu cabelo, ele reclamava das minhas roupas e implicava até com os acessórios! Fazia questão de dizer que eu era a menina mais desleixada que ele conhecia, só porque usava calça jeans e tênis em vez de salto alto e saia curta.
Dediquei seis anos para ser a mulher que o João queria, acreditando que eu estava errada e ele só queria me ver “melhorada”. Deixei de sair com meus amigos por causa do ciúme dele. Possessivo, o cara me ligava a cada 15 minutos para saber onde eu estava e sempre dava a entender que eu era infiel. Me sentia feia e sem graça. Parecia que eu não era digna de elogios e de amor. No fim, me vi tão arrasada que cheguei a acreditar que o João era o único cara que me namoraria, então eu tinha mais era que agradecer por tê-lo.
Minha família já tinha percebido que eu andava fazendo coisas contra minha vontade e me pediram para terminar, mas eu insistia que estava fazendo só o que queria. Afinal, ele não me forçava diretamente, então eu acreditava nisso mesmo.
A verdade é que estava dependente daquele namoro doentio. Até que, um dia, minha melhor amiga disse: “Mari, não te reconheço mais. Você sumiu aí dentro”. Aquilo mexeu comigo. Meu cabelo não era a única coisa que havia mudado. Me matava para ficar sobre saltos porque “mulher que é mulher usa salto” e troquei as peças esportivas por saias e vestidos dos quais não gostava, “roupas de mulher”. Eu não tinha mais personalidade.
Ele comprou uma tintura horrível que, pra piorar, fez meu cabelo cair!
O João me presenteou com uma viagem para o Beto Carrero World, em Santa Catarina, quando fizemos cinco anos de namoro. Um dia antes de embarcarmos, disse: “Ou você tira esse castanho horrível do cabelo ou não deixo você entrar no avião!” Fiquei desesperada, porque nosso voo era às 7h. Acordei às 4h para fazer a tintura, mas fiquei sem água. Achei que ele não me deixaria embarcar mesmo. Ele até deixou, mas antes passamos na farmácia e ele escolheu a cor que queria. Pintei o cabelo logo que chegamos ao hotel e ficou horrível. Odiei os fios pretos e me senti morta. Lembrei do que minha amiga havia dito e comecei a acordar.
A viagem foi péssima. Assim que voltamos, meu cabelo começou a cair em tufos. Desesperada, fui até uma dermatologista que garantiu ser efeito do excesso de química. O João não se importou. “Tudo bem se você ficar careca. É até melhor. Assim você raspa e coloca uma peruca decente”, desdenhou. Foi o fim da linha pra mim. Estava emocionalmente esgotada e cansada de me desdobrar para agradar-lhe sem nunca conseguir. Aquele namoro não valia a pena. Sem avisá-lo, cortei o cabelo na altura do queixo conforme a médica aconselhou para fortalecer os fios. Abandonei a progressiva e decidi parar de me mudar para agradar ao João.
Terminei o namoro, assumi meus cachos e resgatei a autoestima
A baixa autoestima me cegou para minha própria beleza e meu valor como pessoa. Por causa dela, deixei o João passar por cima da minha vontade várias vezes. Sofri demais! A única coisa que aprendi por causa desse infeliz é que existe limite pra tudo na vida. E o meu ficou muito menor. Hoje, não deixo ninguém palpitar no meu corpo, nas minhas roupas e muito menos no meu cabelo! Assim que larguei o alisamento, em 2013, pedi um tempo. Já sabia que era o fim. O João não aceitou e ficou ligando pra me xingar e dizer que eu não prestava. Até os meus amigos ele procurou pra saber se eu estava com outro. Ele não tolerava ser deixado e tentava me colocar para baixo para ver se eu voltava com ele. Coitado. Tive que trocar o número de celular, fazer um Facebook novo e bloqueá-lo nas redes sociais. Seis meses depois, ele me deixou em paz.

Nos últimos dois anos, mudei muito o visual e a cabeça. Entendi que o João era mais inseguro e carente do que eu. Arrisco dizer que de um jeito doentio. Ele queria me manter presa a ele, acreditando que só ele me amaria e namoraria, porque assim eu nunca o largaria. Para o bem dele, espero que um dia ele mude. Mas, ainda que isso venha a acontecer, não o quero mais na minha vida. Depois do término, voltei a usar o cabelo avermelhado que amo e parei com as outras químicas. Cheguei a colorir as pontas dos cachos de azul, rosa, loiro… Adoro! Finalmente, passei a me sentir eu novamente, uma pessoa com vontade própria e uma personalidade muito forte. Fiquei solteira por dois anos e estou com outro cara há seis meses. Agora sei o que é um namoro saudável. Minha relação é baseada na parceria, confiança e respeito mútuo. Ele me apoia em tudo e não critica minha aparência. Pelo contrário, elogia. Me reaproximei dos meus amigos, da família e passei a me achar bonita, alegre e divertida! Entendi que posso ser feliz com alguém sem me sentir diminuída. E o melhor: sem correr o risco de ficar careca… -MARIANA LIENEMANN, 24 anos, atendimento ao cliente, São Paulo, SP

Como funciona um relacionamento abusivo?
O sexólogo Théo Lerner explica que relacionamento abusivo não merece salvação. “A pessoa coloca a vida nas mãos do parceiro e deixa de ter desejos próprios para se enquadrar”, analisa. Para ele, o melhor é terminar. Veja como a seguir:
■ Como é um namoro abusivo?
O abusador diminui a parceira com críticas o tempo todo. Ele controla as amizades, as atitudes e as roupas dela, ameaçando abandonála para que ela obedeça. As regras que o opressor dita valem só para a parte oprimida, nunca para ele.
■ Como sair desse tipo de relação?
O primeiro passo é entender que o relacionamento é abusivo. Descreva uma briga a conhecidos e peça a opinião deles. Deixe de lado o sonho de que um dia a relação irá melhorar. Tenha sempre amigos e parentes com quem possa conversar por perto.
■ Identifique o opressor
Ele é alguém altamente possessivo e inseguro. O sentimento que rege o abusador é o apego, não o amor. Ele trata a parceira como um objeto, não uma pessoa, e a leva a se sentir culpada em toda discussão.

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