Milton Santos e sua atualidade para os desafios ligados à tecnologia e ao território

06/08/26
Por André Pasti
Neste centenário de nascimento do grande geógrafo e intelectual latino-americano Milton Santos, sua obra segue atual e vigorosa para interpretar e analisar diversos desafios contemporâneos. Entre eles, as questões ligadas às novas tecnologias.

Mesmo 25 anos depois de sua morte, a grande diversidade de contribuições de Milton Santos para construir uma Teoria Crítica do Espaço, a partir das realidades dos nossos próprios territórios e da periferia do capitalismo global, segue orientando pesquisas que enfrentam temas complexos e atuais das dinâmicas territoriais.

O que Milton Santos trouxe em sua obra e segue atual para a interpretação das novas tecnologias da informação a partir do território? Como o seu pensamento contribuiu para entender os desafios territoriais ligados à desinformação, à aceleração e à concentração do poder tecnológico em poucas empresas e lugares?

Neste texto, são apresentadas algumas das ideias do autor que contribuem para o contemporâneo debate sobre a relação entre as novas tecnologias e o espaço habitado e vivido. Também busco, ao longo do texto, fazer convites à leitura da obra de Milton Santos. Considero que o maior respeito e homenagem ao autor é a dedicação que podemos ter na leitura de sua obra e no diálogo com ela.

O território no presente 

Milton Santos trouxe debates fundamentais para analisar dinâmicas territoriais em nosso mundo atravessado por redes, pela possibilidade de conhecer exaustivamente lugares distantes e por impulsos de poder e comando que reorganizaram as hierarquias entre os territórios. Atualizando o debate conceitual da Geografia a partir da centralidade da periferia, Milton Santos propôs o reconhecimento do território usado como um quadro onde a história humana se dá.

Esse território usado — ou território praticado — reúne as materialidades e as ações humanas, o chão e a vida que o anima, com os diferentes projetos em disputa. Milton propôs, assim, elementos para uma Geografia crítica que parte das existências, considerando, ao mesmo tempo, os diversos cotidianos vividos e o movimento da totalidade e das estruturas em múltiplas escalas.

Também discutiu as redes como conteúdos desse território, trazendo uma série de contribuições para analisar suas marcas no mundo, nas nações e nos lugares.  Entre outras obras, o livro “Da totalidade ao lugar” (2005) reúne contribuições do autor sobre alguns desses temas. Essas concepções seguem muito operacionais para interpretar os territórios no presente, com dimensões que vão desde a financeirização até os movimentos culturais das periferias.

Técnica e Política: inseparáveis

Na obra de Milton, as tecnologias ou técnicas são centrais para a interpretação de nosso território usado do presente, assim como das mudanças do espaço ao longo do tempo. Os diferentes conjuntos de técnicas deixam marcas no espaço e criam condições para usos do território em cada momento histórico. 

Daí o autor propor a noção de “fenômeno técnico”, buscando compreender a técnica inseparável da política, incorporando os projetos, os modos de uso das técnicas e as formas de controle e apropriação. Esse debate está bastante presente em obras como os livros “Técnica, Espaço, Tempo” (1994) e “A Natureza do Espaço” (1996), onde ele já vislumbrava as transformações das tecnologias do atual período. 

Analisando esse fenômeno técnico do atual período, Milton Santos identificou que os usos do território se dariam em uma interação entre duas dimensões:  das tecnologias enquanto materialidades, incluindo os diversos objetos técnicos que povoam o espaço hoje — que ele chama de tecnosfera; e a dimensão dos imaginários, sentidos e crenças que também compõem o território usado — que ele chama de psicosfera. 

Essa interação entre psicosfera e tecnosfera permite compreender que o mundo das técnicas atuais se inscreve na nossa vida cotidiana, povoando e se alimentando dos imaginários que moldam a experiência social. Esse debate também consta nas obras já mencionadas.

Desinformação, concentração de poder e usos contra-hegemônicos

A expressão geográfica do período em que vivemos seria, para Milton, o que ele chama de meio técnico-científico informacional. Apesar das palavras parecerem de difícil compreensão, o autor nos ensina que o meio geográfico atual é mais produtivo e valioso quanto mais incorpora a tecnociência e as redes de informação. 

Ele também interpreta como a difusão seletiva desse meio técnico-científico informacional no território cria ou aprofunda desigualdades significativas entre os lugares. Milton Santos mobiliza essa interpretação em uma obra em que traz profunda leitura da realidade de nosso país: o livro “O Brasil: território e sociedade no início do século XXI” (2001), escrito em conjunto com a também geógrafa María Laura Silveira.

Em tempos de debate sobre regulação de Big Techs, mediação algorítmica de  processos territoriais e profusão de IAs generativas, a captura das tecnologias por poucos agentes, sobretudo grandes empresas globais, também foi analisada e denunciada pelo autor. 

Milton Santos já apontava uma crescente “violência da informação” como uma característica do atual período, onde a desinformação acompanha o controle de narrativas por poucos agentes globais. Este debate é apresentado no livro “Por uma outra globalização” (2000). A concentração midiática histórica na América Latina e os novos monopólios digitais são expressões desse processo.

Na mesma obra, o autor destaca a importância de reconhecermos outros usos possíveis dessas técnicas, que são mais dóceis e de fácil apropriação pelos “de baixo”. Milton já olhava para processos onde estavam em curso a apropriação das técnicas da informação, a informática e a manipulação de imagens e sons para amplificar as vozes de sujeitos periféricos. 

Hoje, o Núcleo de Tecnologias do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) é um exemplo de agente contra-hegemônico que propõe a apropriação das tecnologias para construir novos projetos e usos baseados na soberania digital popular. Não por acaso, Milton Santos é uma das referências do movimento.

Aceleração do mundo e a força da lentidão

Outro desafio contemporâneo muito discutido por Milton Santos é a aceleração do mundo, os imperativos da velocidade e da competitividade. Hoje, essa aceleração aparece em vídeos e áudios acelerados, no cotidiano de cansaço e esgotamento, na indústria da captura da atenção, entre outras expressões. Santos revelava que essa aceleração se apresentava como “irrecusável”, mas que a força das pessoas pobres, dos e das “de baixo”, das pessoas migrantes, reside justamente em seu tempo lento. O debate sobre aceleração se encontra em “Técnica, Espaço, Tempo”, enquanto o debate sobre desalienação também está em “O Espaço do Cidadão” (de 1987).

Reconhecer o que estão fazendo sujeitos e sujeitas da lentidão, do tempo do cotidiano compartilhado, dá pistas para reconhecer novas formas de solidariedade existentes nas periferias, novas contra-racionalidades transformadoras, apontando para outro futuro e outros usos do território. Milton Santos nos deixa, assim, uma obra que preenche nosso imaginário com um esperançar que vislumbra muitas sementes de outras possibilidades de futuro no território praticado, escapando das narrativas fatalistas e imobilizantes que se irradiam pelos grandes meios.

Inspirado por suas obras, que possamos defender a importância da presencialidade e do cotidiano compartilhado; usos contra-hegemônicos e solidários para as técnicas do presente; a amplificação das vozes dos lugares silenciados, sobretudo nas periferias; as recusas à aceleração alienante; as regulações e projetos tecnológicos baseados na soberania popular, em pactos ativos e na garantia de uma cidadania efetivamente fundada no espaço vivido. 

Mãos às obras!

Obras mencionadas: A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção (Edusp); Da totalidade ao lugar (Edusp); Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (Record); Técnica, espaço, tempo: globalização e o meio técnico-científico informacional (Edusp); O espaço do cidadão (Edusp); O Brasil: território e sociedade no início do século XXI, com María Laura Silveira (Record).


Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés

Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.


A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.

Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.


André Pasti é Doutor em Geografia Humana, professor de Planejamento Territorial, Geografia e Ciências Humanas na UFABC. Coordena o Grupo de Pesquisa TERRITORIAL, o Grupo de Estudos “A Natureza do Espaço”, sobre a obra de Milton Santos, e integra a coordenação executiva do CEFAVELA.

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