quarta-feira, agosto 17, 2022
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Mulheres negras e o direito ao amor: entre escolher e ser escolhida

Conversava com um amigo italiano esses dias e ele disse o seguinte:

“Anos atrás eu estava perdido no trabalho. A empresa começou a demitir muita gente e ofereceu uma boa proposta para aqueles que pediam demissão de forma voluntária. Então pensei em ir para o sul da Itália, aonde chegam os barcos com os refugiados e pegar uma somaliana e me casar com ela”. 

Essa sua fala me incomodou profundamente. Pensei: ele estava no pior momento da sua vida, perdido e desempregado e não pensou sequer na possibilidade de “pegar” uma italiana, uma sua igual, ou mesmo de ir para a Alemanha, pegar uma mulher por lá, mas a da Somália, essa sim, na sua cabeça, o aceitaria sem pestanejar e em quaisquer condições. 

Porque uma somaliana? Para o meu amigo italiano, a mulher africana estaria ganhando ao ser “pega” por ele, logo, não ofereceria oposição. 

A construção da mulher negra como ser inferior, como aquela que se contenta com pouco a faria feliz até com um homem perdido, afinal, ele tinha a branquitude como posse, além da cidadania. 

Fiquei dias remoendo essa conversa. Confesso que perdi o sono, pois eu, mulher negra brasileira, não sou vista de forma muito diferente das mulheres do continente africano.  

Passados alguns dias, quis retomar a conversa com ele, pois é um homem que se considera antirracista e desconstruído. Ao questioná-lo, ele se defendeu dizendo que pensou nas somalianas porque elas são bonitas, dando uma risada em seguida. Mais um ponto a se pensar. Não é qualquer mulher negra, precisa ser bonita e uma beleza dentro dos cânones europeus. As somalianas têm fama de serem magras, altas e de traços finos. Ao lhe dizer tudo isso, ele me acusou de ver racismo em tudo e com raiva, fechou o assunto.

Em outra conversa, dessa vez com um francês, a constatação de superioridade do homem branco europeu com relação às mulheres negras se confirmou. Ele contou que entrou no Tinder e que muitas mulheres africanas (falando como se elas não tivessem países) lhe escreveram, mas, segundo ele, “essas mulheres querem se dar bem na vida” e por isso nem respondeu. Ora, ora, ora, ora!!! Que mulher não quer se dar bem na vida? As francesas não querem? As italianas não querem? Mas as mulheres negras não podem, né? 

No primeiro caso, o italiano é aquele que busca uma somaliana com tanta segurança que nem levantou a hipótese de ser rejeitado, já no segundo, quando é a mulher negra a tomar a iniciativa, elas são vistas como interesseiras. Lia Vainer, na sua pesquisa de doutorado com a branquitude paulistana, diz que o homem branco é visto e se vê como figura ativa, aquele que “pega” e escolhe, “que se valendo da posição de privilégio na estrutura racista e sexista pode ter mais escolha nas relações sexuais e afetivas. Assim “homens brancos escolhem e não são escolhidos”” (Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana, 2012)

Mulheres negras são vistas como aquelas que não podem ultrapassar a fronteira racista, machista e classista, elas precisam esperar serem escolhidas. Homens europeus, italianos ou franceses, que se relacionam com mulheres negras são chamados de “abertos” ou “desconstruídos”, já elas, de interesseiras, palmiteiras etc. 

Em 2019, uma amiga brasileira negra veio me visitar na França. Aí conheceu um francês no Tinder e foram beber algo num bar. O cara ficou o tempo todo olhando surpreso para as suas roupas e joias, e a certo ponto lhe disse: “Nossa, você usa coisas caras, né? Isso deve ter custado muito.” Parecia mais um coach de imagem. Minha amiga lhe respondeu: “Sim, compro coisa boa, trabalho para isso”. No decorrer da conversa ela descobriu que o cara se sente um fracassado diante da sua sociedade e das mulheres francesas e vendo-a projetou nela a imagem da mulher que suportaria tudo ao seu lado e até cuidaria dele, exigindo quase nada em troca.

Muitos europeus se aproximam da mulher negra porque acham que somos a carência em pessoa e assim nos contentamos com pouco. Muitos não têm a menor chance com as mulheres daqui, mas com a gente, se sentem reis. E não estou falando só em termos econômicos, eles acham  que somos felizes  até com as migalhas de afeto. 

Mulheres negras, no imaginário coletivo brasileiro ou europeu são vistas como aquelas que precisam ficar no seu lugar até ser escolhida e se for, ainda deve estar pronta e agarrar essa “chance” com unhas e dentes, sobretudo se o “benfeitor” for um homem branco. Mulheres que ousam escolher correm o risco de serem feridas na sua dignidade, acusadas de não buscarem amor, mas formas de se dar bem na vida, como se amor e se dar bem fossem duas coisas completamente diversas. 

Às mulheres negras é negado o direito não somente de escolha, mas de serem vistas como sujeitos completos, com integridade. Muitas desistiram de escolher por terem sido extremamente feridas, outras se veem no olhar do colonizador e esperam serem “pegas”, outras lutam por esse direito, enfrentando uma violência diária. O que bell hooks diz no livro “All about love” (Tudo sobre o amor) é que “não precisamos amar, escolhemos amar”, isso quer dizer que quando tiramos o amor da esfera da necessidade e o colocamos no campo da escolha, fica mais fácil lidar com a sociedade racista. Não digo que os problemas acabam, mas nos reapropriamos de nossa ação, negando a mera reação.  

 Escolher está longe dos manuais baratos de autoajuda que pregam que devemos amar a ns mesmas e nos valorizar mais, como se não o fizéssemos. Não é isso,  nessa obra, a autora bem colocou que não existe amor próprio isoladamente, sem um ambiente favorável para nos amar e nos olhar, sem sentirmos vergonha e  inferiores. A questão novamente é ver a possibilidade de nos relacionarmos fora do âmbito da necessidade, pois a solidão, a carência, o desespero, pode nos levar a aceitar qualquer coisa e visto que grande parte dos homens lucra com isso, precisamos colocá-los nos seus devidos lugares. 

As sociedades, as instituições sociais e as pessoas que lutam contra o racismo, devem contribuir com a luta aumentando nossas possibilidades de escolha, assim evitamos sermos “pegas”, outrora no laço, nas correntes e sob o domínio da pólvora, hoje, pela nossa condição de vulnerabilidade no mundo. 

Quando eu era criança, cresci ouvindo das pessoas ao meu redor que mulher que escolhe demais acaba sendo escolhida. É tão violenta essa ideia, pois nos nega o direito de escolha, nos ameaçando com a possibilidade de ficarmos sozinhas ou com o pior dos pretendentes. Isso é um dos mecanismos do patriarcado para sermos dóceis e gratas aos homens por nos “pegarem”, e somente quando eles quiserem. É também estratégia do racismo estrutural, podando-nos as escolhas, reduzindo nossa liberdade para melhor nos usar e controlar. bell hooks nos ensina que aprendemos desde pequenas que amor não é escolha, como quando nos obrigam a amar quem nos cuida,  ainda que nos abusem e violentem.

Precisamos nos convencer de uma vez por todas que podemos escolher e se ainda não podemos, é essa a dívida histrica que o mundo tem conosco, mulheres negras, devendo então criar as condições necessárias para que possamos escolher nosso próprio destino.

 

Fabiane Albuquerque
(Arquivo Pessoal)

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia.

 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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