Mulheres Negras nas ruas. Ouçam nossas vozes!

Somos as mulheres negras de São Paulo que ajudaram a construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, que em 2015 levou a Brasília cerca de 50.000 mulheres fazendo ecoar nossas vozes por todo o Planalto Central, representando as 49 milhões de mulheres negras brasileiras.

Enviado por Nilza Iraci para o Portal Geledés

Dois anos após a Marcha histórica, nós mulheres negras de São Paulo voltamos às ruas, na 14ª Marcha da Consciência Negra, para celebrar, com as forças progressistas do movimento negro e antirracista, o Dia da Consciência Negra, e para trazer às ruas nossas vozes e dizer que continuamos em Marcha pelas Mulheres, por todas as Mulheres.

No momento em que o Brasil como um todo atravessa uma grave crise política, com o desmantelamento de políticas públicas duramente conquistadas, com desmandos por parte de um governo não eleito, com escandalosas denúncias de corrupção em todas as esferas dos governos federal, estadual, municipal e empresas, nós negras de São Paulo trazemos para toda a sociedade questões que nos afetam diretamente e que queremos ver enfrentadas por todas as pessoas que acreditam num novo projeto de nação.

Voltamos às ruas para denunciar o genocídio da população negra em curso pela violência da polícia do Estado, e a “guerra às drogas” que vem se efetivando como política de criminalização da juventude e não de enfrentamento efetivo ao narcotráfico. E, sobretudo, falamos sobre as mães, companheiras, filhas, irmãs, mulheres vítimas diretas desses assassinatos, e que além da dor da perda tem que arcar com todo o custo dessa violência.

Falamos sobre a violência obstétrica que por conta do racismo institucional, que provoca milhares de mortes evitáveis de mulheres negras por falta de atendimento nas maternidades e, sobre a criminalização do aborto que penaliza preferencialmente as mulheres negras e periféricas. E repudiamos a PEC 181, que quer obrigar mulheres vítimas de estupro ou em risco de morte terem filhos de estupradores ou levar até o fim uma gravidez que pode deixar mais crianças sem mãe neste país que quer encarcerar a nossa infância e adolescência. E o motivo desse retrocesso nós sabemos: nós mulheres negras somos 56,8% das
vítimas de estupro e 53.6% das mortes maternas. É a nós que querem continuar matando, no parto ou em abortos clandestinos.

Cobramos medidas para coibir o discurso de ódio que incentiva a violência e o assassinato de mulheres transexuais, travestis, lésbicas e bissexuais em nome de uma falsa moral e dos “bons costumes”. E chamar a atenção para o fato de que o Brasil é o País que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo!

Não aceitamos uma “Reforma” da Previdência que vai afetar milhões de trabalhadoras e trabalhadores, e denunciamos que as mulheres negras, maioria nos setores precarizados e na prestação de serviços, como limpeza, cozinha, telemarketing reciclagem e outros, serão as mais afetadas.

Nos mobilizamos contra a seletividade do sistema penal e do Judiciário, que criminalizam e encarceram a população negra, e em especial a mulher negra, cujos índices de cárcere aumentaram em 567% entre 2000 e 2014.

Não aceitamos o fato dos assassinatos contra mulheres negras terem aumentado 54% nos últimos dez anos, apesar da Lei Maria da Penha, e sermos as principais vítimas do feminicídio, seja por violência doméstica, seja pela polícia.

Se o racismo e as violações dos nossos direitos nos provocam situações de dores, de falta de condições de vida adequadas, dizemos à sociedade que estamos em luta e que exigimos estar presentes nas pautas dos movimentos sociais não como “as que sofrem mais”, mas sobretudo como aquelas que resistem e acreditam na transformação dessa sociedade injusta.

Somos negras herdeiras de nossas ancestrais, nossas avós, nossas mães e tantas outras mulheres que vêm lutando antes de nós. Somos do lar, das comunidades, das ruas, ousadas e nada recatadas, e é dessa forma que ocupamos as ruas nesse 20 de novembro. Para fazer valer nossa voz e dizer que nossos passos vêm de longe, que estamos atentas e que não vamos desistir até que todas as mulheres negras estejam livres do racismo, do patriarcado, da LGBTfobia e de todas as formas de preconceito e discriminação.

São Paulo, 20 de novembro de 2017

facebook.com/mmnegrasSP/

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