quinta-feira, fevereiro 2, 2023
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Mulheres negras por um mundo em que caibamos todas

“Povoada,/ Quem falou que eu ando só/ Nessa terra, nesse chão de meu Deus/ Só uma, mas não sou só.” A chegança soprada pelas brisas do mar da Bahia molhou nossos olhos e corações. Na Costa do Sauípe, Mata de São João recebeu mulheres afro-lationo-americanas, afro-caribenhas e da diáspora para a celebração dos 30 anos da RMAAD (Red de Mujeres Afro-lationo-americanas Afro-caribeñas e de la Diáspora).

As mensagens e fotos das mulheres negras que inundaram nossos celulares durante o trânsito: nos aeroportos, comendo e se abraçando, já transmitiam a emoção que se materializaria em 18 de novembro, quando, juntas, nos emocionaríamos com as memórias, as histórias dos 30 anos de militância e luta.

As brasileiras anfitriãs, sob a responsabilidade da AMNB (Articulação de Mulheres Negras Brasileiras) proporcionaram um espaço de acolhimento e alegria, abrindo os trabalhos com a coordenação geral de Paola Yañes, da Bolívia.

Emocionadas e irmanadas pelo Axé de Mãe Raidalva e seus amados filhos, do Ilê Axé Oyá Tolá, invocamos e agradecemos a Oxalá na sexta-feira que viria a desvelar os desafios vividos em 1992 e, antes, quando da mobilização das mulheres negras no interior dos movimentos feministas e movimentos negros. Relembramos o passado homenageando as fundadoras que já partiram e algumas presentes: Sergia Galván (Caribe), Matilde Ribeiro (Brasil), Vicenta Camusso (Cone Sul), Yvete Modestin (Centro América y Diáspora) e Genesis Guitierrez (Andina).

O passado, falado a partir das bem lembradas, foi o tom desse dia, onde as memórias dos Encontros Feministas Latino-americanos e a resistência das mulheres negras incidindo sobre as pautas que até então não estavam postas. O legado, segundo Matilde Ribeiro, é uma percepção mais global das coisas, maior do que nossa cidade e país. O sentimento de pertencimento, a visão crítica sobre a sociedade, onde nem sempre a nossa voz ecoa.

Além dos encontros intramovimentos, as conquistas a partir das incidências internacionais, como Durban, as constituições dos fóruns internacionais, as incansáveis escritas de documentos e pactos que culminaram na criação do Decênio Internacional para as pessoas afrodescendentes e toda a conquista de políticas específicas para a região conformam os logros de um movimento de mulheres afrodescendentes exitoso.

Nos dias subsequentes, tratamos de analisar e construir propostas para os próximos 10 anos. Nos reunimos de maneira regional e de acordo com as pautas da Plataforma Política da Red, para conversar sobre estratégias para apoio da nossa agenda, sobre direitos sexuais e reprodutivos, sobre autonomia econômica e combate à violências do Estado e ameaças contra defensoras de direitos humanos, comunicação e acesso à justiça, participação política e incidência internacional.

Fomos brindadas com a presença de mulheres como Robeyoncé Lima, Epsy Campbell, Sonia Viveiros, Cecília, Ramires, Altagarcia Balacer, Vinólia Andrade, Milene Molina, Lidice Gammie, Mireya entre tantas outras que, com sua emoção, alegria e espirituosidade, proporcionaram momentos memoráveis, com poesia, música e felicidade.

Fomos embaladas pela voz de Matilde Charles e energizadas pelo axé das ganhadeiras de Itapuã, quando nos espalhamos e celebramos a força ancestral das mulheres negras que nos alimentaram de força para construir e anunciar juntas o documento coletivo que traça nossos caminhos para os próximos 10 anos.

Nos arvoraremos pelo caminho do bem viver e do combate a todos os tipos de discriminações, com ênfase ao sexismo, racismo e violências correlatas. Construiremos a II Marcha de Mulheres Negras em 2025 no Brasil, convocando as mulheres afrodescendentes da região a se mobilizar conosco e participar, demandaremos dos Estados e Organismos Internacionais a corresponsabilização para os cumprimentos do acordos regionais e internacionais; e exigimos mais uma década dedicada às pessoas, povos e comunidades afrodescendentes para que, ao mesmo tempo em que se avalia o que passou, possamos dar passos mais largos na garantia dos direitos humanos para as pessoas negras na região.

Nos encontramos com ¡mucha energia calida y alegria! Como colocou Mireya, pois alli estaban nuestras ancestras con su espiritu. Manteremos o nosso compromisso de transformar o mundo a partir da energia e da força das mulheres negras. íContinuaremos o legado da RMAAD, com entusiasmo e compromisso, para seguir avançando por las reparaciones, por la inclusión y la extensión del racismo, la discriminación; en fin por una vida de calidad en nuestros territorios. Para que continuemos construindo a viva voz nossa história.

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