Mulheres negras por um mundo em que caibamos todas

“Povoada,/ Quem falou que eu ando só/ Nessa terra, nesse chão de meu Deus/ Só uma, mas não sou só.” A chegança soprada pelas brisas do mar da Bahia molhou nossos olhos e corações. Na Costa do Sauípe, Mata de São João recebeu mulheres afro-lationo-americanas, afro-caribenhas e da diáspora para a celebração dos 30 anos da RMAAD (Red de Mujeres Afro-lationo-americanas Afro-caribeñas e de la Diáspora).

As mensagens e fotos das mulheres negras que inundaram nossos celulares durante o trânsito: nos aeroportos, comendo e se abraçando, já transmitiam a emoção que se materializaria em 18 de novembro, quando, juntas, nos emocionaríamos com as memórias, as histórias dos 30 anos de militância e luta.

As brasileiras anfitriãs, sob a responsabilidade da AMNB (Articulação de Mulheres Negras Brasileiras) proporcionaram um espaço de acolhimento e alegria, abrindo os trabalhos com a coordenação geral de Paola Yañes, da Bolívia.

Emocionadas e irmanadas pelo Axé de Mãe Raidalva e seus amados filhos, do Ilê Axé Oyá Tolá, invocamos e agradecemos a Oxalá na sexta-feira que viria a desvelar os desafios vividos em 1992 e, antes, quando da mobilização das mulheres negras no interior dos movimentos feministas e movimentos negros. Relembramos o passado homenageando as fundadoras que já partiram e algumas presentes: Sergia Galván (Caribe), Matilde Ribeiro (Brasil), Vicenta Camusso (Cone Sul), Yvete Modestin (Centro América y Diáspora) e Genesis Guitierrez (Andina).

O passado, falado a partir das bem lembradas, foi o tom desse dia, onde as memórias dos Encontros Feministas Latino-americanos e a resistência das mulheres negras incidindo sobre as pautas que até então não estavam postas. O legado, segundo Matilde Ribeiro, é uma percepção mais global das coisas, maior do que nossa cidade e país. O sentimento de pertencimento, a visão crítica sobre a sociedade, onde nem sempre a nossa voz ecoa.

Além dos encontros intramovimentos, as conquistas a partir das incidências internacionais, como Durban, as constituições dos fóruns internacionais, as incansáveis escritas de documentos e pactos que culminaram na criação do Decênio Internacional para as pessoas afrodescendentes e toda a conquista de políticas específicas para a região conformam os logros de um movimento de mulheres afrodescendentes exitoso.

Nos dias subsequentes, tratamos de analisar e construir propostas para os próximos 10 anos. Nos reunimos de maneira regional e de acordo com as pautas da Plataforma Política da Red, para conversar sobre estratégias para apoio da nossa agenda, sobre direitos sexuais e reprodutivos, sobre autonomia econômica e combate à violências do Estado e ameaças contra defensoras de direitos humanos, comunicação e acesso à justiça, participação política e incidência internacional.

Fomos brindadas com a presença de mulheres como Robeyoncé Lima, Epsy Campbell, Sonia Viveiros, Cecília, Ramires, Altagarcia Balacer, Vinólia Andrade, Milene Molina, Lidice Gammie, Mireya entre tantas outras que, com sua emoção, alegria e espirituosidade, proporcionaram momentos memoráveis, com poesia, música e felicidade.

Fomos embaladas pela voz de Matilde Charles e energizadas pelo axé das ganhadeiras de Itapuã, quando nos espalhamos e celebramos a força ancestral das mulheres negras que nos alimentaram de força para construir e anunciar juntas o documento coletivo que traça nossos caminhos para os próximos 10 anos.

Nos arvoraremos pelo caminho do bem viver e do combate a todos os tipos de discriminações, com ênfase ao sexismo, racismo e violências correlatas. Construiremos a II Marcha de Mulheres Negras em 2025 no Brasil, convocando as mulheres afrodescendentes da região a se mobilizar conosco e participar, demandaremos dos Estados e Organismos Internacionais a corresponsabilização para os cumprimentos do acordos regionais e internacionais; e exigimos mais uma década dedicada às pessoas, povos e comunidades afrodescendentes para que, ao mesmo tempo em que se avalia o que passou, possamos dar passos mais largos na garantia dos direitos humanos para as pessoas negras na região.

Nos encontramos com ¡mucha energia calida y alegria! Como colocou Mireya, pois alli estaban nuestras ancestras con su espiritu. Manteremos o nosso compromisso de transformar o mundo a partir da energia e da força das mulheres negras. íContinuaremos o legado da RMAAD, com entusiasmo e compromisso, para seguir avançando por las reparaciones, por la inclusión y la extensión del racismo, la discriminación; en fin por una vida de calidad en nuestros territorios. Para que continuemos construindo a viva voz nossa história.

+ sobre o tema

‘Ainda faltam papéis para a mulher negra’ , diz Ruth de Souza

Filmes da atriz estão em cartaz em mostra no...

Assim falou Luiza Bairros

Nascida em 1953, a gaúcha de Porto Alegre Luiza...

Mortes de mulheres negras aumentam 54% em dez anos

A violência contra as mulheres brancas diminuiu, mas contra...

“Queremos representatividade para além do comercial de xampu”

A blogueira Rosangela J. Silva é nossa primeira entrevistada...

para lembrar

Dupla opressão: mulheres negras

Em 1851, na Convenção dos Direitos das Mulheres, em...

Mulheres Negras e as Eleições Municipais de 2020

A discussão sobre a participação política das mulheres no...

É hora de defender as mulheres negras que nos defendem!

Ao longo de toda a pandemia de Covid-19 os...
spot_imgspot_img

Mulheres pretas e pardas são as mais afetadas pela dengue no Brasil

Mulheres pretas e pardas são o grupo populacional com maior registro de casos prováveis de dengue em 2024 no Brasil. Os dados são do painel de...

Esperança de justiça une mães de vítimas da violência policial no Rio

A longa espera por justiça é uma realidade presente entre as mães de vítimas da violência policial do Rio de Janeiro. Deise Silva de...

E assim vamos nós, lutando pela existência de nossas gerações

Vamos que vamos! Frase muito usada por quem sonha em passar o cajado para descansar. Com olhar cansado e triste, cabelos brancos, mãos trêmulas com...
-+=