Murro em ponta de faca

Das obstinações, várias tentativas, repetições, não desistências, insistências, confesso: não sou das melhores.

O tempo às vezes me ganha, esse deus lindo e valiosíssimo. Não só ele, o cansaço, a preguiça. Quer me matar? Tenha comigo as mesmas discussões, não resolva os mesmos temas durante semanas, meses, anos, me faça as mesmas perguntas sempre, brigue comigo pelos mesmos motivos, me diga para resolver coisas que já foram resolvidas por outras pessoas no passado.

Minha ansiedade me faz querer avançar, pensar no que pode ser a próxima coisa, no que posso trazer de novo. Não consigo acreditar que recebi esta vida para perder tempo pensando em coisas que já foram resolvidas. Mas, veja bem, não digo que estou certa. Na verdade, percebi que várias vezes estou muito errada.

Uma das últimas vezes foi assim: eu seguia na minha plenitude quando Julio Ludemir, da Flup, na live de lançamento do livro “Carolinas”, me perguntou sobre o programa que realizei em 2018, o “Querendo assunto”. Eu respondi que, quando escrevi a ideia do programa, eu queria comprovar “cientificamente” algo que já sabia: era possível realizar um produto audiovisual de entretenimento em que mulheres pretas brasileiras falassem de coisas que não fossem racismo, violência, exclusão, sofrimento, fome ou qualquer outra caixinha onde geralmente a mídia coloca nossa fala, vida e corpos.

Pronto. Com minha comprovação debaixo do braço eu segui para o mundo achando erroneamente que certas coisas eu não precisaria mais falar. E, mesmo antes de mim, tinha também os tantos outros assuntos já abordados por outras mulheres e homens negros, pra citar alguns:

Relações entre gênero e raça: Lélia Gonzalez, check. Economia: Flávia Oliveira, check. Racismo e televisão brasileira: Joel Zito Araújo, check. Movimento social: Átila Roque, check. Literatura: Conceição Evaristo, check. Teatro: Abdias do Nascimento, check. Atuação: Léa Garcia, check. Música: Elza Soares, check. Política: Marielle Franco, check.

Foi no assassinato da Mari, na véspera no lançamento do “Querendo assunto”, que percebi que nada estava resolvido. Mesmo que eu queira, mesmo que eu olhe para o futuro, mesmo que eu escreva sobre ele, há lá o retorno das falas óbvias, a insistência delas. E o que eu (re)percebi esses dias é que, quanto menos se foge dele, melhor. É preciso se entregar ao óbvio, pelo menos neste momento histórico.

Eu espero que meus netos não precisem continuar a repetir que uma operação policial que mata 27 civis é uma chacina, que três crianças não podem simplesmente desaparecer, que o 13 de Maio serviu para pouca coisa, que não precisamos que todos os lutos virem luta, que todas as formas de existir são válidas e por isso que não há espaço para a homofobia, que os mais de 400 mil mortos pelo Covid no Brasil sofreram genocídio, o absurdo de mais de 200 mortos na Faixa de Gaza em uma semana ou que “manicômio nunca mais”.

Mas é cansativo, todos sabem. Há dias que são como murros em ponta de faca, outros em que tudo faz sentido. Um salve aos chilenos que elegeram os 155 deputados constituintes, e nenhum deles faz parte do atual congresso, metade é de mulheres, 17 são indígenas e 30% não pertencem a nenhum partido.

Ou como escreveu o Instagram da Casa Porto esses dias: Sejamos insistência!

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