A história do 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado na República Dominicana, em 1992, evidencia que lésbicas negras sempre estiveram à frente dos principais fatos políticos e históricos do mundo, embora o apagamento estrutural seja um desafio ainda a ser superado.
Quem conta essa história é Ochy Curiel, de 61 anos, autora do livro A nação heterossexual, organizadora da primeira edição do encontro e, hoje, referência no pensamento feminista decolonial.
Em entrevista à Revista Brejeiras e ao Brasil de Fato, Curiel falou sobre os processos históricos, os desmontes do neoliberalismo no mundo e suas consequências na América Latina e no Caribe, as armadilhas da institucionalização e na aposta da radicalidade feminista. Para além de uma conversa sobre política e feminismos, a militante defende que manter o coração com alegria, cultura e felicidade é uma ação revolucionária.
Confira a entrevista completa
Revista Brejeiras/Brasil de Fato: Como você ingressou no movimento de mulheres negras e também no movimento de mulheres lésbicas?
Ochy Curiel: É uma longa história. Na República Dominicana, onde eu morava na época, havia um movimento cultural que reivindicava a parte negra da República Dominicana, através da mulatagem, porque temos um contexto em que a negritude foi historicamente negada, apesar de termos uma população alta de afrodescendentes.
Esta negação da negritude foi produto de uma estratégia de branqueamento por parte das elites, isso não era reconhecido e continua não sendo. Talvez tenhamos mudado um pouco, mas não tanto. Estou falando fundamentalmente dos anos 1980, quando um grupo de mulheres negras começou a dizer: não somos mulatas, mas negras. Foi aí que formamos o coletivo A Casa pela Identidade das Mulheres Negras, que depois chamamos de Mulheres Afro, que tinha como objetivo colocar a negritude no centro, obviamente articulada ao sexismo, porque éramos mulheres, também articuladas à questão do racismo, do classismo. Assim começamos.
O nosso trabalho era educativo e formativo para a sociedade dominicana, mas também para as mulheres negras. Muitas de nós estávamos em organizações feministas e a ideia era formar, conscientizar as feministas de que era fundamental abordar a questão do racismo nas organizações e também na sociedade em geral. Fizemos muito trabalho de formação política, campanhas e articulação com outros movimentos culturais.
Assim começou A Casa pela Identidade das Mulheres Afro e foi aí que eu entrei, com muita força, para abordar o tema do racismo, do sexismo e do classismo. Uma das nossas referências fundamentais eram vocês, as brasileiras. Para mim, foi uma escola muito importante porque vocês tinham muito mais experiência em coletivos. Uma das coisas que eu vejo como um ponto de reflexão foi a organização do 1° Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe. Ou seja, antes do encontro eu já tinha bastante articulação com companheiras no Brasil como Sueli Carneiro, a própria Neusa das Dores.
Começamos a nos articular para fazer o primeiro encontro de mulheres negras em um contexto muito importante para a América Latina e o Caribe, porque aconteceu em 1992 e havia, em nível regional, uma articulação de populações afro, negras, indígenas, populares, diante da “comemoração” dos 500 anos, com a Igreja e os Estados da evangelização.
Desenvolvemos um discurso e uma prática política para denunciar que o que tinha acontecido em 1492 era um genocídio e éramos contrárias a qualquer celebração, por parte do Estado e da igreja católica. Esse foi um contexto chave para articular o discurso das mulheres negras com uma questão muito mais histórica que foi o genocídio e a invasão de 1492.
Desta forma, eu vou entrando no movimento das mulheres negras e o que hoje se chama feminismo negro, naquela época chamávamos de movimento de mulheres negras da América Latina e do Caribe. O primeiro encontro permitiu ampliar a quantidade de coletivos que havia na América Latina e o Caribe. Embora o Brasil estivesse na vanguarda da organização, em outros países não existiam coletivos. Eu acho que esse primeiro encontro foi fundamental porque foi criada a Rede de Mulheres Negras na América Latina, que depois passou a se chamar Rede de Mulheres Afro-Latinas e Afro-Caribenhas e a Diáspora.
Então, eu entro e, até hoje, permaneci nesse lugar político. Com o aparecimento do feminismo lésbico, eu entro quase que paralelamente. O feminismo lésbico não estava tão desenvolvido como corrente política, mas, eu era lésbica em termos da minha experiência pessoal. Encontrei muitas lésbicas que estavam se articulando na República Dominicana e em outros países e entro para fazer parte dessa corrente política. Uma das coisas que me preocupava muito nessa corrente, no início, era que ela não abordava a questão do racismo.
Quando começaram a ser realizados os encontros lésbicos-feministas na América Latina e no Caribe, muitas de nós colocamos a questão do racismo como um elemento central: como pensar a relação entre a heterossexualidade como regime político e a questão do racismo e do classicismo e, obviamente, os nossos contextos?
Eu entrei, quase paralelamente, como se estivéssemos, ou pelo menos eu estava, na corrente mais crítica do feminismo, colocando a questão do racismo no movimento feminista e lésbico-feminista e no movimento das mulheres negras a questão do lesbianidade, porque no início era essa política de identidade que apenas definia mulheres negras, mas que não ampliava o seu sujeito político. Algumas de nós éramos mulheres negras, mas também lésbicas, migrantes, etc. Foi algo que muitas de nós, lésbicas, impulsionamos dentro do movimento, inclusive estávamos fazendo tudo isso no feminismo em geral, ou seja, colocar a questão da lesbianidade e também a questão do racismo. E é por isso que eu sempre digo que essa articulação entre os dois movimentos foi central, e tem sido, a minha política desde o início.
Eu li o seu artigo sobre as lesbofobias no encontro. E queria saber como elas foram atravessadas e também se houve momentos em que o assunto da sexualidade, especificamente das lesbianidades, foram pautadas nos debates e também nas resoluções finais. E como elas foram pautadas?
Foi um problema no primeiro encontro, na verdade, porque a maioria das mulheres negras eram heterossexuais. Eu lembro que houve uma oficina no encontro e várias colegas, sobretudo imigrantes que estavam nos EUA e muitas dominicanas também, colocaram o tema da lesbianidade, o que foi uma tensão bem grande. Imagino que muitas não entendiam muito bem porque havia lésbicas nesse encontro, porque a única identidade que se assumia, e pensavam que era a única experiência que nos atravessava, era ser mulheres negras. Por isso, foi uma tensão quando o tema da sexualidade foi colocado e evidenciava os limites da identidade, pensando apenas como mulheres negras, sem considerar, outras questões.
Depois do encontro, melhorou um pouco. Mas eu me lembro que, ao construir a rede, havia companheiras que diziam que o problema dessa rede era ser liderada por lésbicas. De fato, a maioria das mulheres negras líderes éramos lésbicas visíveis. Tínhamos uma postura pública como lésbicas e, muitas de nós, éramos lésbicas.
Naquela época, uma das acusações era de que as lésbicas iriam tomar o movimento, e nós sempre tentávamos explicar que uma das questões fundamentais era colocar, como disse o feminismo negro, todas as lógicas de poder que existiam, mas abordávamos isso mais como a multiplicidade de identidades que tínhamos entre todas.
Foi um ponto de grande tensão, tanto no encontro como também nas primeiras etapas da Rede de Mulheres Afro. Depois foi diminuindo à medida que houve uma reflexão coletiva sobre essa questão. Mas certamente foi um momento de tensão bastante forte. Além disso, acredito que se deve ao fato de se pensar esse tema do feminismo negro ou do movimento das mulheres negras como uma questão homogênea, que é uma das coisas que sempre escrevi. No início, pensávamos que éramos todas iguais, que não havia diferença de classe, sexualidade. Foi só mais tarde, com o tempo, que o tema da sexualidade das mulheres negras começou a ser abordado.
Houve um momento específico de discussão no encontro para debater as políticas para as lésbicas negras?
Nesse momento inicial, não se pensava tanto que a lesbofobia seria parte da imposição do regime da heterossexualidade, mas é uma parte importante para entender o que, hoje, chamamos de matriz de dominação. A abordagem era: nem todas as mulheres negras somos iguais, existem algumas lésbicas, mas não havia naquele momento uma análise estrutural do que isso significava e que a maioria das mulheres negras também deveria se concentrar na luta contra esses sistemas de dominação.
Lembro-me de que o encontro que foi feito no Brasil organizado pela Neusa [das Dores] depois, esse foi um momento que considero muito importante, porque lá foi abordado, a partir de algumas oficinas que houve sobre lésbicas. Antes, não havia espaços específicos para abordar de forma profunda o que significava a lesbofobia. Isso foi muito depois.
E falando da Neusa, você a conheceu nesse encontro ou antes? Gostaria que você também falasse um pouco sobre esse encontro com a Neusa e com outras lésbicas negras brasileiras.
Não foi só um encontro, como também muitos outros em diferentes lugares, onde a Neusa, eu e várias outras companheiras nos encontramos e colocamos o tema em discussão. Lembro-me que foi fundamental a maneira como foi abordada a subjetividade de muitas de nós como lésbicas negras. Para mim, foi um divisor de águas, no sentido de que foi uma centralidade do tema da lesbianidade, em relação a outros encontros que basicamente abordavam a identidade negra. No encontro do Brasil foi um momento importante, porque teve uma oficina específica. Nos outros encontros não havia espaço para esse assunto e éramos sempre nós que abordávamos esse tema.
Quantos anos tinha e que memória guarda do 1º Encontro?
Tinha 28 anos. Eu estava na organização do 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas e quem fazia a logística era a Casa pela Identidade das Mulheres Afro. Houve muitas manifestações contra a celebração do quincentenário. Além disso, acho que receber tantas mulheres negras de tantos lugares foi fantástico, tanto as que tinham muito mais experiência como as novas gerações que estavam lá, mulheres das aldeias, mulheres negras dos bateyes, que são aquelas de comunidades onde vive a maioria das pessoas dominico-haitianas.
Foi um encontro maravilhoso, de criação coletiva, de música e cultura como parte da política do próprio encontro e como parte da resistência nessa construção coletiva transnacional. Embora nós tivéssemos na Casa pela Identidade Afro a responsabilidade da logística, foram muitas companheiras de muitos lugares que construíram o encontro: do Brasil, da Venezuela, do Haiti.
Uma das belas lembranças que tenho desse encontro é que a minha mãe, que não era ativista, me disse que queria ir na abertura. Ela foi, pegou um ônibus sozinha e apareceu lá, foi a coisa mais linda que lembro. Estar com minha mãe, que sempre se reconheceu como uma mulher negra em um país tão difícil, foi lindo. Eu sempre digo que esse primeiro encontro de mulheres negras foi muito importante para mim. Para a minha vida pessoal, tanto por fazer parte da organização quanto por ter recebido o acolhimento das mulheres afro da sede da rede, que surgiu como resultado desse encontro.
Nós tivemos muitos anos com a rede de forma autogerida, porque eu me lembro que naquela época não tínhamos recursos, fazíamos boletins a mão, não tínhamos dinheiro, mas foi muito bonito. Foi a partir da consciência política e de uma posição autônoma que fizemos muitas coisas como encontros em nível nacional e até nível internacional.
Você falou da construção coletiva transnacional. O que avançou na agenda política do movimento das mulheres negras internacional? Quais são as dificuldades e os desafios ainda hoje?
Em princípio, a partir do encontro, muitos coletivos se expandiram em muitos países. Quando a Rede de Mulheres Afro vai para a sede da Costa Rica, há uma mudança em termos da institucionalização. Eu vinha da autonomia feminista latino-americana e caribenha e o que denunciávamos era essa lógica imposta pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional e pela cooperação internacional, de que se passasse de coletivos para ONGs.
Essa foi uma mudança fundamental, porque a linha política já não era tanto o fortalecimento autônomo das organizações, mas sim continuar e seguir a agenda imposta por essas instituições transnacionais. Isso aconteceu não só no movimento das mulheres negras como aconteceu também no movimento feminista e podemos ampliar a outros movimentos sociais. Foi o momento do neoliberalismo em que os movimentos sociais foram cooptados por muitas dessas políticas transnacionais e que hoje chamamos de políticas neocoloniais.
E isso deu uma reviravolta no movimento internacional das mulheres negras, com suas exceções, obviamente, porque primeiro se reforçou muito a política de identidade sem considerar os projetos políticos mais transformadores.
No meu caso, o que eu entendia como uma proposta política era muito mais transformadora, e acredito que isso se manteve durante muitos anos. Saí da rede, tendo sido uma de suas impulsionadoras, porque o que importava era a questão da representação, e essa representação era nesses lugares, nessas instâncias de poder estatal, fazendo lobby. Lembro-me de que, naquela época, gastava-se muito dinheiro para participação em eventos organizados por ONGs e cooperação internacional simplesmente porque o que se buscava era que as mulheres negras estivessem presentes. E muitas mulheres negras assumiram essa política como sua prioridade.
Posteriormente, acredito que com o giro decolonial e o feminismo decolonial, podemos encontrar uma variedade de posicionamentos políticos em relação ao movimento das mulheres negras, que hoje é chamado de feminismo negro. Encontramos organizações que embora façam parte da identidade da mulher negra, afrodiaspórica ou afrofeminista, que são conceitos que começaram a surgir há alguns anos, há apostas muito mais radicais, eu diria, de não se limitar apenas à questão da representação, mas, sim, de como entender a matriz colonial do poder.
Ainda hoje podemos dizer que existem companheiras feministas negras que se autodenominam decoloniais, que entendem que existe uma colonialidade do poder que nos atravessa o tempo todo e se posicionam a partir daí. Essa é uma mudança importante, mas também acho que o sujeito do feminismo negro também se ampliou no sentido de que há muito mais participação de lésbicas negras com lideranças importantes colocando o tema do regime da heterossexualidade, pessoas queer, não binárias, o que abre o espectro das mulheres negras.
Hoje, temos um leque mais amplo que poderíamos ver das diferenças políticas daquelas que só estão interessadas na representação no Estado, em contrapartida vemos companheiras que estão lutando em suas comunidades por uma mudança estrutural. A questão do meio ambiente começa a ganhar muita força nos territórios e todo o impacto do extrativismo capitalista racial. Acho também que muitas das companheiras negras não se limitam apenas à luta das mulheres negras, mas, por exemplo, como se articulam com a luta em torno do genocídio na Palestina. O espectro se abriu, mas continuo pensando que hegemonicamente existe ainda uma centralidade na política da identidade que não permite ampliar um olhar político. Isso acontece com todos os movimentos sociais, essa fragmentação de que os negros de um lado, os indígenas do outro lado, as mulheres de outro, as lésbicas ou o movimento LGTBQ+ de outro lado, isso faz parte da colonialidade. O que tenho dito ultimamente é como a partir de nossas diferenças históricas podemos criar um projeto comum que permita articulações, alianças, coalizões políticas importantes. Acredito que o movimento das mulheres negras ainda tem muito a pensar sobre essa possibilidade de coalizão política com outros movimentos sociais.
Você fala muito sobre autonomia, é algo em que também acredito muito, que a institucionalização realmente faz com que percamos muito da radicalidade. Como podemos subverter, romper com essa institucionalidade e propor outras formas subversivas de organização?
Penso na autonomia feminista, porque quando as organizações são condicionadas pelo dinheiro, é uma tragédia, sobretudo porque nessas relações norte-sul. A cooperação internacional define algumas prioridades para o sul, e através de suas organizações, e essas prioridades têm a ver com essa relação geopolítica de poder. O dinheiro não chega às organizações simplesmente porque a cooperação é solidária. Há interesses geopolíticos do norte em relação ao sul e, particularmente, nas organizações racializadas, feminizadas, que é muito evidente o que estão buscando, além do fato de que hoje há uma crise na cooperação por toda a geopolítica como está se movendo. A maioria das organizações, não apenas de mulheres negras, depende da cooperação internacional e quando dependem da cooperação internacional, há um condicionamento ideológico em relação às prioridades políticas, que fica apenas em função de projetos, não de processos políticos. Mas agora também vou falar sobre o Estado, há poucas possibilidades de questionar até mesmo a própria cooperação, o que é um problema político. Embora saibamos que, precisamos de dinheiro, antes, quando não existia a cooperação, eu lembro que nós fazíamos atividades, festas, rifas. Enfim, era possível conseguir dinheiro. Acima de tudo, um dos impactos que essa dependência teve é que as organizações se tornaram burocráticas e tecnocráticas, ou seja, uma, duas ou apenas três pessoas que dirigem as organizações e isso não permite a construção coletiva. Portanto, autonomia não é apenas a dependência do dinheiro, mas como pensamos a política. Uma das coisas que eu sempre disse e tenho pensado é em organizações que não dependem do dinheiro da cooperação e nem do Estado, e isso permite uma horizontalidade na construção do conhecimento e de lideranças e na autonomia política que estamos definindo para o mundo e para nós. Se houve um desastre em termos de ação política, foi o impacto da cooperação. O Estado é um campo de disputa e uma instituição colonial e sabemos que temos que pressioná-lo para garantir o bem público, para que haja educação pública, tanto nas universidades quanto nas escolas, temos que lutar para que a saúde seja uma questão pública, para que todos tenham esses serviços básicos, o Estado tem que garantir isso porque esse é o seu papel.
Agora, quando a maioria dos movimentos e, nesse sentido, as mulheres negras pensam que é no Estado vamos fazer as transformações, aí temos um problema sério. E é uma diferença que tenho com a maioria das ativistas negras que pensam que é entrando no Estado que a transformação vai acontecer. Uma coisa é haver políticas multiculturais que reconheçam, por exemplo, as pessoas negras, que é o que vem acontecendo desde os anos 1990, mas não implicou uma redistribuição, por exemplo, de renda, de terras, que tem sido tão fundamental para nossos povos. Não há uma mudança no que significa o racismo como um sistema de dominação que não se baseia apenas na cor da pele ou na diferença cultural, mas sim na materialidade do racismo. Além disso, um dos problemas que temos observado nos últimos tempos é que as pessoas negras que ingressam no Estado nem sempre têm uma proposta de transformação social. Na verdade, temos muitas pessoas negras de direita no Estado que, de certa forma, reivindicam até mesmo as lógicas liberais como os empreendimentos individualistas. Para mim, não garante absolutamente nada uma pessoa negra ocupar um lugar no Estado sem uma aposta na transformação social. A transformação social não se faz a partir do Estado, se faz pelas lutas políticas através dos movimentos sociais que temos. O Estado é a reprodução do racismo e do capitalismo neoliberal. É necessário manter a autonomia política em torno do Estado. Isso não quer dizer que em algum momento conjuntural não faremos pressão para alcançarmos certos direitos políticos, sociais e culturais. Os Estados Unidos tiveram um presidente negro, que foi também quem mais investiu em armas para Israel em torno do genocídio na Palestina. Na Colômbia, com Francia Márquez, que gosto muito, mas que há muitos problemas, tanto pelo sistema racista que existe no país, como pelos erros que a própria Francia cometeu em termos de um projeto de transformação social. Eu realmente acredito que a autonomia tem que ser uma proposta fundamental dos movimentos sociais e temos que debater sobre os impactos que essa dependência tem em termos de cooperação internacional quanto também do Estado.
Vemos a esquerda e o movimento feminista retrocedendo na narrativa da agenda política do discurso. Não é mais o direito ao aborto; fala-se em direitos sexuais e reprodutivos. A gente amaciando, diminuindo nossa agenda política. Como é possível uma radicalidade feminista?
A primeira coisa que tenho a dizer é que tenho muitos problemas com o feminismo. Muitos mesmo, embora eu venha desse lugar e faça parte dessa genealogia. Acredito que o feminismo se tornou mais elitizado e em muitos sentidos. Primeiro, em torno de seu sujeito político, porque há um retorno ao naturalismo de pensar que os sujeitos políticos feministas são as mulheres cis e que isso levou a uma transfobia impressionante, nos últimos tempos com essas feministas TERF, que é algo muito fascista de pensar que as feministas só podem ser aquelas mulheres que têm vagina. É algo que eu não consigo suportar, porque uma das coisas que o feminismo contribuiu no seu início foi desnaturalizar esse sujeito mulher, quando se começou a perguntar: o que é uma mulher? É uma construção social.
Se é uma construção social, você pode se tornar nesse sentido. Agora, a outra questão tem a ver com esse processo de institucionalização dos feminismos, não todos feminismos, ao submeterem a dependência a cooperação internacional. Você falou sobre os direitos sexuais e reprodutivos e temos que perguntar por que tanto dinheiro doado para uma agenda sobre esse tema, que além disso são projetos muito curtos.
O tema colocou prioridades dentro do feminismo em geral, e nesse feminismo hegemônico, que é muito branco e é sustentado por muitas mulheres que têm privilégios de classe. Se tornou o lenço verde que vem da Argentina e do Uruguai, dois dos países em termos geopolíticos que não têm o mesmo lugar que outros países. É importante analisar por que esse tema ganhou tanta força e sua relação com o dinheiro que está sendo investido.
Eu sempre digo que essa questão dos direitos sexuais e reprodutivos pode ser vista, às vezes, como uma política eugenista para que as mulheres não se reproduzam, especialmente as mulheres negras e indígenas. A outra coisa tem a ver com o fato de que, apesar da interseccionalidade, por exemplo, eu não gosto muito da interseccionalidade, mais é uma categoria que permitiu abrir a possibilidade de compreender que não apenas o gênero deve ser considerado categoria fundamental, mas que é preciso atravessar raça, classe etc., isso muitas mulheres negras vêm dizendo há muito tempo, tanto nos Estados Unidos quanto na América Latina e no Caribe.
Apesar de que interseccionalidade ter se tornado uma moda e que muitos feminismos agora dizem: não somos apenas mulheres, mas somos negras, também somos indígenas, também somos lésbicas, o gênero continua sendo a categoria fundamental a partir da qual as análises são feitas, são mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres lésbicas, mulheres, o gênero continua sendo o foco fundamental pelo qual as lutas feministas continuam sendo definidas, e isso é um problema. É um problema porque não permite ver, em primeiro lugar, a questão estrutural da imbricação dos sistemas de dominação. Para mim, isso continua sendo uma limitação do feminismo, por mais interseccionalidade que exista, por mais que tenha aprendido com o feminismo negro, ainda é isso que define a política feminista e traz muitos problemas, por exemplo, quando vemos como a cooperação internacional, o Estado que entram nos territórios, nas comunidades, o que fazem é fragmentá-las.
Começam a financiar projetos só de mulheres. Antes as companheiras negras e indígenas sempre pensavam como coletivo e como comunidade. O que não quer dizer que essa comunidade não tenha relações de poder, obviamente e que os homens, a maioria, são machistas. Mas essa lógica de poder era trabalhada em comunidade, como muitas têm feito historicamente, e há uma fragmentação da política das comunidades. Esse é o impacto que traz fundamentalmente a cooperação internacional e as políticas públicas do Estado. Uma das coisas que temos que estar atentas e aprofundar sobre isso é quais têm sido os impactos e os limites do feminismo, porque lembremos que o feminismo é uma aposta moderna e como uma aposta moderna, ele pensa a partir de uma série de experiências que são a partir de um privilégio racial e de classe e, nesse sentido, há relações de poder que o feminismo não conseguiu aprofundar, exceto quando começam a surgirem esses feminismos negros e populares. Hoje, o feminismo hegemônico, aquele que está nas ONGs, na cooperação internacional e no Estado, continua marcando as agendas, inclusive em relação às organizações de mulheres negras, e é por isso que muitas mulheres negras hoje estão muito envolvidas na questão dos direitos sexuais e reprodutivos, o que antes não era tão comum. Como podemos chegar a uma radicalidade disso? Primeiro, debatendo. Segundo, visibilizando os impactos que isso teve e sua relação com a geopolítica internacional e analisando nossas próprias experiências organizacionais. Em que momento demos esse salto em termos históricos? E aí redefinir as ações políticas. Precisamos de muito debate e formação política, que é o que estamos fazendo nas escolas decoloniais, analisando nossa própria prática política.
Estamos caminhando para a segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, que as marchas que acontecem nos estados elas vem como desdobramento do primeiro encontro, que deu origem em 25 de julho. Eu queria que você deixasse um chamamento para as lésbicas negras aqui, brasileiras, sobre a importância da luta política para um projeto de transformação social.
Eu acredito que as lésbicas negras feministas devem continuar lutando em relação ao regime da heterossexualidade, mas acima de tudo não ficarmos apenas na política da identidade. Embora seja importante para nós, a política de identidade precisa ser articulada com uma análise profunda da matriz colonial de poder que é racista, heterossexista, classista e nacionalista, que teve inicio em 1492, mas que vemos até hoje na colonialidade. É importante nos assumirmos como lésbicas e negras para a nossa existência individual e coletiva. Uma das coisas que aprendi depois de tantos anos é que não basta ser lésbica negra, é preciso articular a um projeto político transformador de todas as lógicas de poder. E isso significa que nossos projetos políticos têm que ser voltados para um projeto sistêmico, não apenas centrado na identidade que implica em analisar a questão estrutural e sistêmica do mundo, portanto, tem que ser também antinacionalista.
Se entendermos como surgiram os Estados nacionais, veremos que temos muitas limitações para pensar apenas a partir do Brasil ou apenas a partir da Colômbia, embora possamos nos particularizar. Esse projeto deve envolver múltiplos sujeitos políticos, lésbicas negras, heterossexuais negras, LGBTQI+, movimentos indígenas, movimentos de moradores, movimentos de favelados, e é isso que devemos buscar. Obviamente, não podemos, nesse processo, deixar de falar da heterossexualidade como regime político, colocando no centro a questão do racismo. Para mim, diante deste mundo de hoje que é um sistema de morte, onde se articulam os grandes poderes, acredito que cada vez mais os movimentos sociais, os ativistas, as ativistas de muitos lugares do mundo, temos que redefinir nossa ação política e superar esse centralismo da política identitária.
Muito difícil, muito difícil. Eu te ouvindo assim, fico analisando como os movimentos estão caindo para essa institucionalização e burocratização cada vez mais. Então, eu penso, ah! como isso é difícil. Onde está a radicalidade?
Total, total. E agora temos que ser mais radicais do que nunca. É uma urgência.
Ochy, quais são seus sonhos?
Nossa! eu tenho muitos sonhos. Sempre tenho muitos sonhos. Acho que talvez o mais importante seja que algum dia, não sei se vou chegar a ver, acho que não, as pessoas negras, indígenas e empobrecidas possam viver com dignidade e tranquilidade. Esse é o meu grande sonho, por isso lutei durante tanto tempo, continua a ser a minha prioridade política, existencial, humana.
Sonho também com esse grande movimento internacionalista, com tanta gente, construindo coletivamente a partir da autonomia desse projeto em que a alegria, seja o centro e não tanto essa tristeza que nos trazem tantas mortes, tantos assassinatos, para mim, esse é o projeto político decolonial e é o sonho decolonial, de que através das lutas políticas, da alegria, da construção, do quilombismo, sejamos dignos e dignas, e esse é o meu sonho, que haja muita música, muita dança e muitas risadas, porque a ideia não é lutar para sofrer, mas lutar para buscar um projeto de libertação para todos, todas e todes.
Para encerrar, o que você diria a uma sapatona mais nova que está chegando agora na luta?
Primeiro que já houve muitas sapatonas antes de nós, e é importante que elas reconheçam esse legado, como muitas de nós já fizemos. Esse reconhecimento pode vir desde referências do bairro até as escritoras importantes, cineastas e realizadoras de documentários. Eu acho que o essencial é compreender que essa experiência que ela tem se conecta historicamente com outras. Esse chamado é fundamental, porque, do contrário, perdemos a memória. E não nos convém perder a memória.
O segundo recado: é possível vencer o medo, e o medo é vencido na medida em que nos articulamos com outras companheiras. Às vezes é difícil, dependendo do contexto, ser lésbica, ser lésbica negra, mas na medida em que nos articulamos com outras, acredito que isso se transforma em força, então, muitas de nós passamos por situações difíceis e saímos delas. Acredito que essa é a esperança: pensar que há outras experiências anteriores que nos ensinam como lutar e como entrelaçar todas essas forças políticas de antes, de agora, de amanhã. E acho que isso é o fundamental que eu diria às sapatonas jovens.
*Camila Marins é jornalista, lésbica negra, editora da Revista Brejeiras e mestre em políticas públicas em direitos humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – @camilamarinsrj
**Entrevista traduzida por Jeane Rinque