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Nina Simone inspira luta anti-racismo no Brasil

O combate ao racismo é o exercício diário do caráter, da cidadania e da persistência. E também é o único caminho viável para construir uma sociedade justa e igualitária. Em todo mundo, brancos e negros estão juntos nessa luta. Nem sempre é fácil, mas está avançando principalmente por conta da garra de jovens ativistas que dedicam seu tempo e sua energia.

Por Juca Guimarães Do Diário de São Paulo

Um ótimo exemplo é a estudante de arquitetura e ativista Stephanie Ribeiro, de 22 anos, que enfrentou diversos ataques racista na PUC Campinas, onde estuda. Hoje a jovem Stephanie é uma referência nas discussões sobre racismo e questões de gênero.

Libertária e feminista, a ativista esbanja inteligência, humor, charme e argumentos ácidos para debater tanto a discriminação racial quanto as iniciativas de combate ao racismo. Para ela não existem tabus.

Sem ligar muito para a fila de desafetos que fica pelo caminho, Stephanie representa um novo tipo de engajamento, que ganha musculatura e reverberação nas redes sociais, muito promissor e necessário em tempos conservadores como o atual.

Confira a entrevista exclusiva com a ativista Stephanie Ribeiro:
O combate ao racismo no Brasil é eficaz?
Acho que viver no mito da democracia racial, onde muitos sofrem racismo, mas poucos falam disso é complicadíssimo. Dizer que o combate é eficaz é fingir que não estamos expostos a uma situação de genocídio do povo negro, acho que o problema é a falta de abertura.  E aí não dos negros, mas das pessoas brancas, lidas como tal, e privilegiadas por isso. São elas que tornam complicado ser negro no Brasil e  também que o combate seja eficaz.

Quais as principais características do novo ativismo negro no Brasil?
Os textos, as falas, os posicionamentos são bem parecidos, a diferença é o uso da plataforma digital para disputar narrativas e  espaços. Com isso, vozes até então silenciadas até mesmo dentro do ativismo negro, como as mulheres, estão vindo com muita força.

Quais são os pontos que devem ser abordados para efetivamente se combater o racismo?

Branquitude. A gente tem que entender o privilégio branco, porque ele evidencia o racismo. Se você tem o direito de andar na rua e não ser parado pela policia, como os negros são, você tem um privilégio. Isso é óbvio. Eles não aceitam quando são questionadas sobre o que é o privilégio do branco. Ele não precisa saber disso afinal não o atinge diretamente. Por outro lado, o negro tem que saber desde criança, afinal ele precisa aprender a reagir quando é chamado de macaco pelos colegas da escola.  Por isso por mais que nós negros estejamos falando sobre o que é ser negro na sociedade, se a gente não questionar o que é ser branco, e o branco em si, não teremos mudanças efetivas. Nosso papel é o incomodar e pautar sempre que possível que esse é um país racista sim. Um país racista que não faz nada para que isso mude.

Quais as ações que devem ser feitas para valorização da cultura, religião e estética de origem africana?
Acho que a primeira é parar de tratar a África como algo unificado e não como um continente amplo de culturas diversas, religiões e estéticas. Não devemos enfatizar o olhar colonizador do “exótico” e muito menos se apropriar dele.

As redes sociais são amplificadores do pensamento racista ou elas revelam nitidamente o racismo cotidiano da sociedade?
Elas só dão coragem para quem te olha torto no supermercado, no ônibus, no shopping e na vida. A questão não é o discurso ter mudado, mas como ele ganha força quando ninguém está realmente ali do seu lado, esse poder que ela fornece pode ser usado tanto para o bem quanto pro mal.

Por outro lado, a internet também é uma ferramenta de união, apoio e fortalecimento das ações de resistência e combate ao racismo. O que te surpreendeu positivamente no ativismo negro nas redes sociais?
Muito! Assim como o ativismo transfeminista que também vem ganhando espaço. Se podemos disputar essas narrativas tanto com a mídia tradicional, quanto com o discurso de ódio faremos isso, seja na internet, seja na rua. A motivação e o foco é o mesmo.

O que pode ser feito para preparar os jovens e as crianças negras a enfrentarem o racismo e se defenderem?
Dizer a verdade. Não camuflar que racismo não existe. De fato existe e, infelizmente,eles sofrerão com isso.O caminho é ir empoderando, ou seja, ir mostrando o que eles são, mostrando as referencias e sempre trabalhando a autoestima, desde muito cedo. Mas infelizmente também falando da parte ruim do que é ser negro na sociedade racista.

Quais são os dez negros e negras que você sugere para serem seguidos nas redes sociais por quem quer realmente fazer uma discussão interessante sobre racismo?

Djamila Ribeiro
Silvio Almeida
Aline Ramos
Janaina Damaceno
Heitor Augusto
Laura Astrolabio
Luma de Lima
Thamyra Thâmara
Adélia Martins
Luiz Roberto Lima
 
Você é uma ativista bastante atuante e influente nas redes sociais. Quando você percebeu que suas opiniões e postagens estavam fazendo a diferença e ajudando as pessoas?

Foi de um ano para cá, mas tudo veio posterior a um texto meu onde evidencio tudo que passei na universidade em relação ao racismo. Foi um texto que teve mais visibilidade.

No caso da jornalista que foi ofendida nas redes sociais recentemente, eu percebi que a maioria da imprensa optou por personificar os ataques. Você não acha que o problema é mais amplo do que o ataque direto a uma pessoa especificamente, mas sim a ideia enraizada e absurda que uma raça é melhor que a outra?

Eu acho que o problema é o racismo, a falta de discussão sobre isso, e a forma como algumas pessoas acham que o racista é o outro e nunca si mesmo, mesmo que seja uma emissora que só agora trouxe uma jornalista negra para o Jornal Nacional e nem é na bancada,sendo assim o racismo dos comentários ele é um ciclo gerado também pela falta de representatividade negra em diversos espaços, coisa que a TV Globo reforça na sua programação.

Qual música melhor representa você e essas questões que a gente conversou nessa entrevista e por que?
A Nina Simone cantando “Ain’t got not. I got Live”. Ahh não acho que eu precise explicar muito, a letra fala por si tem uma processo de mudança e empoderamento nos versos que significa muita coisa para mim no que diz respeito a minha trajetória “I’ve got life, I’ve got my freedom. I’ve got the life” (Eu tenho vida, eu tenho minha liberdade. Eu tenho a vida).

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