Nome de santa, atitude de racista

02/02/26
  • Protetora dos estudantes e educadores dá nome a estado que se destaca por atitudes racistas
  • Casos de racismo, homofobia e crueldade contra animais ofuscam belezas de Santa Catarina

Eu pretendia falar de amor em meados de dezembro passado, mas fui compelida a falar de ódio com a aprovação, pela Assembleia Legislativa, do fim das cotas étnico-raciais para pretos e pardos em universidades estaduais de Santa Catarina.

Passados 45 dias, a sanção da Lei 19.722/2026 por um governador que abriu mão da oportunidade de vetar uma proposta flagrantemente inconstitucional me obriga a falar novamente sobre ódio e violência étnico-racial.

Parece incrível, mas alguém precisa lembrar aos políticos (e a muitos dos habitantes) de SC que o estado integra uma federação composta majoritariamente por pessoas autodeclaradas pretas e pardas (56%, pelo IBGE).

Um cartaz de protesto com fundo roxo e letras brancas. O texto diz: 'JUNTAS PELAS VIDAS NEGRAS POR JUSTIÇA E DIGNIDADE'. O cartaz tem franjas verdes na parte inferior e está em um ambiente noturno, com luzes ao fundo.
Cartaz empunhado durante marcha para celebrar o Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha – Bruno Santos – 25.jul.25/Folhapress

E essa maioria encontra-se em situação de hipossuficiência devido às inúmeras políticas de Estado adotadas historicamente em favor da “branquitude” —coisa que beneficiou a maioria branca que povoa o solo catarinense.

Num devaneio pessoal, me perguntei o que Santa Catarina —considerada a protetora dos estudantes e dos educadores— diria dessa lei aprovada pelos políticos do estado que carrega seu nome, mas tem se destacado pelas atitudes racistas?

A lei foi suspensa liminarmente e está sob questionamento no Supremo Tribunal Federal por meio de três ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs). O STF já se manifestou pela constitucionalidade das cotas raciais para ingresso em universidades. Além disso, no final do ano a corte reconheceu por unanimidade a existência de racismo estrutural e graves violações aos direitos da população negra no Brasil. O que leva a crer na derrubada da norma catarinense.

A beleza natural de SC, estado que possui um litoral paradisíaco, tem sido ofuscada pelos casos de racismo, homofobia, crueldade contra animais —sem falar na quantidade de células neonazistas. A coisa é tão medonha que me permito adaptar a expressão racista dita por uma mulher branca a um jovem negro em Florianópolis: “Racista quando não caga na entrada, caga na saída”.


Ana Cristina Rosa – Jornalista especializada em comunicação pública e vice-presidente de gestão e parcerias da Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública)

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