Nos EUA, movimento por vidas negras libertou mulheres em cárcere para o dia das mães

Quando Tanisha Bynum decidiu dirigir para a praia após sua licença ter sido suspensa, duas semanas atrás, ela não sabia que estava correndo o risco de deixar suas crianças sozinhas no Dia das Mães. E, ainda, perder o aniversário de três anos de seu filho e a formatura da sua filha no jardim de infância.

Por Semayat Oliveira No Nos Mulheres da Periferia

Mas quando Bynum, 25, dirigiu do Alabama para a Flórida- nos Estados Unidos – a caminho da praia, outro carro passou no farol vermelho e bateu em sua caminhonete, fazendo com que ela colidisse com um poste. Ela não se feriu, mas foi detida por dirigir com uma licença suspensa e levada para a prisão. Ela já tinha sido multada na Flórida e não compareceu ao fórum por morar no Alabama. Então, a fiança definida para o seu caso foi de $10 mil dólares, com um julgamento marcado para o começo de junho. Bynum, grávida de dois meses e mãe de quatro crianças com menos de 8 anos, teria que sentar e esperar, na prisão.

“São marcos na vida dos meus filhos,” ela disse sobre o aniversário e a graduação. “Eu não queria ter perdido isso por causa de uma multa de trânsito.”

Mas na última sexta-feira, 12 de maio, Bynum foi uma das centenas de mulheres negras liberadas da cadeia pelo Mama’s Bail Out Day (‘Mães fora da prisão’, em português), uma campanha de Dia das Mães organizada por mais de doze grupos ligados ao Movimento por Vidas  Negras (também protagonizada pela organização Black Lives Matter, mas não só).

Até a publicação original deste texto, grupos de justiça social como Color of Change e Southerners on New Ground levantaram mais que $550 mil dólares para pagar a fiança de mulheres negras em diferentes estados dos Estados Unidos, com $345 mil dólares direcionados apenas para o custo das fianças, e o restante para reforçar a organização local e a prestação de serviços para as pessoas que têm sido resgatadas.

O trabalho tem a intenção de chamar a atenção do sistema econômico de fianças nos Estados Unidos, onde cada pessoa retida é mantida na cadeia esperando o julgamento, a não ser que se pague uma fiança considerável. O sistema afeta, de maneira desproporcional, famílias e comunidades negras. Essas mulheres foram apenas presas, não condenadas por um crime.

“O Sistema econômico de fiança nesse país é injusto e pune pessoas por serem pobres”, disse Serena Sebring, uma das organizadoras locais do Southerners an New Ground, que tem foco em justiça social para grupos homoafetivos (LGBTQ).

Relatório publicado pelo grupo Color of Change (Cor da Mudança) e o American Civil Liberties Union (ou ACLU) estima que cerca de 440 mil  pessoas estão presas sem terem sido condenadas por um crime, o que equivale, aproximadamente, a 70% da população encarcerada. E o ACLU estima ainda que, em comparação com 1980, há oito vezes mais mulheres em cárcere atualmente. Esta é uma questão que afeta principalmente famílias negras: de acordo com relatório da  Human Rights Watch, organização internacional de direitos humanos,  abordando o impacto das fianças em comunidades com baixa-renda, a população negra é 6,5 vezes mais vulnerável à prisão e, ao mesmo tempo, possui menos condição de arcar com o custo da fiança.

Semanas antes do Dia das Mães, as organizações estudaram os registros de cadeias locais para identificar quem estava aguardando por julgamento. Além disso, escreveram cartas para as mulheres perguntando se eram mães ou cuidadoras. Também solicitaram ao clero que trabalha no sistema prisional para contribuir na identificação de mães que concordariam com a proposta. “Estamos trabalhando com a defensoria pública, pessoas do sistema judicial, prestadores de serviços e famílias,” disse Scott Roberts, diretor de campanhas de justiça criminal na Color of Change. “Se houver critérios, isso é determinado a nível local”.

Outra preocupação da ação é garantir que as mulheres sejam assistidas e recebam o suporte necessário enquanto aguardam os respectivos julgamentos, independente se isso significa uma casa temporária ou cuidados pessoais, como de beleza. “Estamos fazendo além do possível para ter certeza de que estão se sentido cuidadas e amadas”, disse Ashley Green, uma das lideranças na rede de justiça social Dream Defenders, na Florida. “Estamos levando-as para fazer os cabelos, as unhas, nos certificando de que têm um espaço adequado para ficarem, fazendo o transporte para e a partir das prisões”.

E concluiu: “Tudo que leva os pais para longe de seus filhos por muito tempo pode criar o fracasso dessas crianças”, ela disse.

Antes do incidente no trânsito, Tanisha trabalhava como enfermeira assistente. Mas como ela não era autorizada a usar seu celular na cadeia, presumiu que provavelmente tinha perdido seu emprego por conta de sua ausência. Suas crianças ficaram com o pai e o avô, longe da casa dela, de seus quartos e brinquedos. A primeira coisa que ela planejou fazer no Dia das Mães, ela disse, seria ir para a igreja. Depois disso, “lavar nossas roupas, cozinhar um jantar e aproveitar o fato de estar com meus filhos”.

“Eles têm um milhão de perguntas, querem saber onde eu estive”, ela disse. “Minha mãe costumava me dizer: ‘é fácil entrar em um problema, mas é difícil sair dele’. Vou dizer a mesma coisa para eles”.

+ sobre o tema

Homem é retirado de avião após comentários racistas e passageiros comemoram

“Tchau, racista!”. Vídeo mostra momento em que homem é...

Brasil embranqueceu no pensamento, afirma Nei Lopes, que faz 80 anos

Nei Lopes olha para seus 80 anos com a consciência...

Red Bulls paga aos adeptos para não insultarem jogadores

Major League Soccer quer limpar o futebol nos EUA...

ONU diz que ação contra imigrantes na Itália é preocupante

ROMA - Representantes de direitos humanos da Organização das...

para lembrar

Folha, eu discordo de você e não te sigo! Cotas sim!

por Letícia Peçanha É de uma desonestidade intelectual tremenda querer...

Apreensão de jovens sem flagrante autoriza racismo e segregação em praias do Rio

O sol não é para todos A Procuradoria-Geral da República...

 Número de negros em universidades brasileiras cresceu 230% na última década

Para cada cem médicos formados no país, menos de...
spot_imgspot_img

Nem a tragédia está imune ao racismo

Uma das marcas do Brasil já foi cantada de diferentes formas, mas ficou muito conhecida pelo verso de Jorge Ben: "um país tropical, abençoado...

Futuro está em construção no Rio Grande do Sul

Não é demais repetir nem insistir. A tragédia socioclimática que colapsou o Rio Grande do Sul é inédita em intensidade, tamanho, duração. Nunca, de...

Kelly Rowland abre motivo de discussão com segurança em Cannes: ‘Tenho limites’

Kelly Rowland falou à imprensa sobre a discussão que teve com uma segurança no tapete vermelho do Festival de Cannes durante essa semana. A cantora compartilhou seu...
-+=