Nova Orleans vive explosão cultural pós-Katrina

A centenária tradição artística de Nova Orleans, cidade que é conhecida como berço do jazz, ganhou um novo impulso nos cinco anos que se seguiram à tragédia do Katrina.

Quando o furacão devastou a região, em 29 de agosto de 2005, muitos artistas tiveram de abandonar a cidade.

Nos anos que se seguiram, porém, Nova Orleans assistiu à chegada de uma nova geração de artistas, atraídos pela possibilidade de participar do processo de reconstrução – e também pela grande quantia de dinheiro injetada na cidade nos primeiros anos após a tragédia.

“Muitos jovens artistas chegaram à cidade após o Katrina”, diz a americana Suzanne Corley, que apresenta um programa semanal de música brasileira em uma rádio local.

Na semana passada, a reportagem da BBC Brasil acompanhou um debate entre jovens artistas plásticos que atuam em Nova Orleans.

Todos relataram que foram atraídos pelo senso de comunidade surgido após o desastre e pela possibilidade de participar do processo de criação de uma cidade que renascia. Havia, ainda, uma profusão de histórias para contar.

Passados cinco anos do Katrina, a maioria dos músicos e outros artistas que deixaram a cidade por causa do furacão já estão de volta. E muitos daqueles que vieram durante a reconstrução acabaram ficando.

Música e cinema

Nas ruas do bairro francês, um dos principais pontos turísticos da cidade, há novamente um músico em cada esquina, e nos bares lotados, moradores e turistas assistem a shows de jazz, blues, rock e até salsa.

Entre os inúmeros projetos habitacionais surgidos após o Katrina, um é o Musicians Village, um bairro criado dentro da região do Upper Ninth Ward especialmente para abrigar músicos e suas famílias.

A renovação cultural da cidade vai além da música. Nova Orleans é hoje um importante pólo cinematográfico nos Estados Unidos, atrás apenas de Los Angeles e Nova York, graças especialmente aos incentivos fiscais oferecidos pelo Estado da Louisiana.

Segundo dados do New Orleans Office of Film & Video, em 2007 foram rodados na cidade 14 grandes projetos cinematográficos, e desde então esse número vem crescendo. Neste ano, já foram 24.

Nova Orleans também ganhou mais importância nos campos das artes plásticas, especialmente a partir da Prospect. 1, bienal realizada em 2008 que trouxe o trabalho de 80 artistas internacionais e chamou a atenção para o setor de artes plásticas da cidade.

Segundo o Arts Council of New Orleans, a cidade tem hoje mais de 160 galerias de arte.

Dificuldades

Apesar da efervescência cultural da cidade, os artistas também enfrentam dificuldades.

Segundo um relatório da ONG Sweet Home New Orleans, que trabalha com a comunidade musical, cerca de dois terços dos músicos da cidade moravam em casas alugadas durante o desastre, e não puderam receber compensação financeira por perdas.

O estudo também revela que, logo após o Katrina, o número de oportunidades de trabalho para os músicos caiu de uma média de 12 para seis shows por mês, situação que persiste até hoje. O cachê recebido também sofreu redução, estimada em 63% nesses cinco anos.

As condições foram agravadas pela recessão e pelo vazamento de petróleo no Golfo do México, que teve um forte impacto econômico na região, diz o relatório.

No entanto, mesmo diante das dificuldades, os artistas tiveram um papel crucial na reconstrução da cidade.

“Cinco anos depois, a música e a cultura de Nova Orleans provaram ser um agente poderoso na renovação da cidade”, diz a Sweet Home New Orleans.

Fonte: BBC Brasil

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