Guest Post »

O caso Maria Julia Coutinho em 14 esquetes

Nós somos Maju porque vivemos e enfrentamos a discriminação racial cotidianamente, em diversos níveis, da morte simbólica que tentaram impingir a ela ao extermínio físico imposto a Cláudia Ferreira e a 82 jovens negros por dia no Brasil

por Cidinha da Silva no Revista Fórum

1 – O nome

Utilizar o nome Maria Júlia ou Maju, sempre acompanhado do sobrenome, Coutinho, constitui falso dilema. A própria jornalista, protagonista do nome e da história, consagrou o apelido e sente-se confortável ao usá-lo. Acabou o papo.

2 – Alguma coisa está fora da ordem

 Uma mulher negra, formada numa das melhores universidades de comunicação social da cidade de São Paulo, depois de 10 anos de profissão, nos mais recentes dormindo às 19:00 e acordando às 2:00 para cumprir exigência do horário de trabalho, passa por diversos postos, estágios profissionais e chega ao programa diário mais importante da emissora em que trabalha, um telejornal.

3 – A reação positiva à presença de uma mulher negra no Jornal Nacional

As pessoas do grupo racial de Maju Coutinho, simpatizantes e/ou ativistas antirracistas vislumbram o simbolismo de uma mulher negra naquele lugar e a incensam, fazem agradecimentos, sentem-se representados (é uma nação calada que se reconhece em sua voz), dialogam com a simpatia da profissional competente, sóbria, equilibrada, sorridente (ela deve ser do time dos que acham que sorrir faz as pessoas viverem melhor).

4 – A casa grande acende o sinal amarelo

  Os ataques racistas são iniciados, sempre ardilosos e escancarados, mas em menor número, querem intimidá-la, é a primeira parte da estratégia.

5 – A casa grande dá o sinal vermelho

Recomenda-se lançar mão de piadas, granadas sórdidas, armas químicas de desagregação molecular da humanidade de uma pessoa negra. A ordem agora é destrui-la psicologicamente, abatê-la de maneira irrecuperável, protegidos pela impunidade aos crimes raciais, na internet e nas ruas.

6 – A reação do alvo

Maju Coutinho manda beijinho no ombro para os detratores racistas. Um exército digital a defende e contra-ataca.

7 – Entra em campo o senso de oportunidade global

Os redatores enxergam a onda de apoio a Maju Coutinho nas redes sociais como possibilidade de alavancar a audiência do combalido Jornal Nacional. Há muito se sabe que as redes sociais pautam os veículos de telecomunicação. A princípio fazem um jogral em vídeo (santa falta de criatividade, Batman!), são todos Maju, evocam a hahstag de apoio aos chargistas franceses mortos em atentado. Surpreendentemente, concedem à jornalista racialmente agredida o direito de resposta durante o telejornal.

8 – Somos todos Maju ou não somos?

Sim, somos! Eles é que são elas! Ou seja, nós somos Maju porque vivemos e enfrentamos a discriminação racial cotidianamente, em diversos níveis, da morte simbólica que tentaram impingir a ela ao extermínio físico imposto a Cláudia Ferreira e a 82 jovens negros por dia no Brasil.

Eles (o grosso do pessoal da hashtag) também são Maju, mas por outros motivos. São pessoas que escolhem uma mulher negra única para respeitar, até para endeusar, isso é muito comum entre discípulos brancos e suas mestras negras, Ialorixás, professoras, regentes de grupos, companheiras de trabalho, como Maju, algumas artistas, celebridades, algo válido para mulheres negras únicas, consideradas especiais e divas, em conluio com um lugar de afeto no coração da legião de fãs ou seguidores. São pessoas que se não souberem que uma determinada senhora negra que passa por eles é a mãe daquela mulher negra que admiram são capazes de tropeçar nela e seguir em frente sem pedir desculpas, como se esbarrassem num objeto inanimado.

9 – A resposta de Maju Coutinho em rede nacional

A jornalista aparece bela como de hábito, leve, em vermelho iansânico e esvoaçante, responde firme, dura, embora circunscrita aos limites globais que permitem que se fale em preconceito e preconceituosos e impede que sejam usadas as expressões adequadas, racismo e racistas. São os racistas que ladram enquanto Maju Coutinho apresenta as alternâncias do tempo. Mas qual é a novidade do procedimento? Nenhuma! Será mesmo assim enquanto não nos tornarmos mais gregos nas ruas e alargarmos avenidas de radicalidade no enfrentamento ao racismo. Se dependermos do que está instituído, a pílula racista continuará dourada pelo preconceito.

10 – Sinuca de bico para o diretor de jornalismo da Globo?

Aquele que escreveu o livro Não somos racistas para denunciar a tentativa de produção aleatória de um Brasil racialmente binário. Não creio, seguimos emparedados e diante do impasse, é preciso ser mais negro e mais grego. Ironia do Tempo, entidade caprichosa, pois nunca, na escala do tempo, pensei na possibilidade de juntar negros e gregos para caracterizar uma luta política.

11 – O debate racial ganha a ágora

As opiniões se expressam em alguns discursos analíticos, outros descritivos do cotidiano de discriminação racial, outros laudatórios, outros confusos, outros catárticos, alguns midiáticos, outros tantos intra-comunidade, agressivos e descrentes, outros ainda, blackface para inflar a hahstag de defesa a uma mulher negra (coisa de recém-filiados ao fã clube da jornalista do tempo).

A recepção também é múltipla, tanto quanto as narrativas que debatem o caso, e destaca os nonsense costumeiros, a despeito de não serem ingênuos, são especialistas em esvaziar as manifestações de racismo no país, são os mesmos que garantem o substrato sociopolítico (e sociopata) para que as teses de redução da maioridade penal e do não-racismo brasileiro avancem.

12 – Aumenta o número de pessoas brancas antirracistas publicamente posicionadas

O recrudescimento da direita e a ampliação de seus tentáculos têm forçado os progressistas a também perfilarem como antirracistas.  Finalmente, parecem ter compreendido que o espírito da casa grande está na raiz de tudo aquilo que combatem e também do que chamam de desigualdade no país.

13 – O caso Maju Coutinho suscita questões de gênero e intra-gênero

Surgem comparações entre o suposto tratamento isento dado a Heraldo Pereira, jornalista negro e apresentador eventual do Jornal Nacional e as agressões à badalada Maju Coutinho. O cotejamento de gênero procede, sim, mulheres negras em posição de poder incomodam mais do que homens negros no mesmo espaço. Negras afirmadas são ainda mais incomuns e inaceitáveis para os herdeiros da casa grande, cujos ancestrais detinham o direito de estupro aos corpos das ancestrais das mulheres negras de hoje. Mas há um erro no argumento, quer seja, supor-se que Heraldo Pereira não sofreu ataques racistas ao longo dos anos em que cobriu as folgas de Bonner. Ledo engano, tosca ilusão.  É certo que sim, ele também foi agredido. Entretanto, é vero, Heraldo Pereira é um homem negro e incomodou menos do que Maju Coutinho que, além de tudo, conta com o plus de ter-se transformado em menina querida nas redes sociais. Acontecimento amplificador de qualquer existência na sociedade hodierna.

Outra comparação pertinente deu-se entre os ataques racistas sofridos por Maju Coutinho e os misóginos e machistas dirigidos à presidenta Dilma (em que pese aquela ter sido alvo também de machismo e misoginia), exposta em adesivo sexual vexatório, comercializado na internet para ser acoplado a carros de passeio.

Nos dois casos, analisa-se a determinação de serem mulheres os alvos dos crimes, bem como a diferente posição do jornalismo da Globo face às duas situações. No primeiro, Maju Coutinho teria se valido do justo direito de resposta por gozar da simpatia dos poderosos da TV. No segundo, os ataques à presidenta Dilma, demonizada pela mesma TV, por este motivo não teriam recebido tratamento crítico adequado.

Aqui, o erro do argumento foi desconsiderar que a simpatia dos patrões e de seus representantes diretos, angariada por Maju Coutinho, não se deve apenas a seus dotes pessoais e profissionais, mas à possível alavanca de audiência que uma discussão bombada na internet pode representar para um programa de TV em declínio evidente.

14 – Os passos das mulheres negras vêm de longe!

Contam que Oxum banhava-se nas águas calmas do rio, olhava-se no espelho e suas filhas faziam o mesmo, e ela, pelo espelho das filhas mapeava o movimento do inimigo que se aproximava. Na hora certa, os espelhos se voltaram para o Sol e ofuscaram o oponente. Nesse momento, seu exército sacou as armas e atacou. São tolos os que pensam que Oxum não guerreia. Do trono das águas ela olha para Maju Coutinho e pisca os olhos, matreira. Ora iêiê, Maria Júlia Coutinho! Ora iêiê!


Foram comentados os artigos Por que Heraldo nunca foi ofendido e Maju acabou discriminada?  e Qual a diferença entre  ataques a Maju e a Dilma?  

Related posts