sexta-feira, janeiro 14, 2022
InícioGuest PostO corpo negro masculino: uma reflexão sobre hiperssexualização e racismo dentro da...

O corpo negro masculino: uma reflexão sobre hiperssexualização e racismo dentro da comunidade LGBTQIA+

Nem tudo é óbvio e perceptivo quando se entra em um site pornográfico, nas redes sociais ou em grupos de mensagens e tenta estabelecer uma conexão com o que está sendo visto e consumido na sua mente e categorizados pela plataforma ou pelo seu clique. No entanto, faz-se necessário um olhar mais observador a fim de refletir os significados e significantes desse consumismo.

O presente artigo tem como objetivo refletir o negro na comunidade LGBTQIA+, explorado especificamente em torno de sua sexualidade.

O gênero masculino, sempre esteve em uma posição de poderio patriarcal em nossa sociedade. Tentar compreendê-lo, faz-se necessário enquanto ser social no contexto histórico-cultural, onde é possível também visualizar a construção do indivíduo e de sua identidade. Principalmente quando esta identidade se torna frágil na visão do outro, afinal sua construção social não pode se adequar ao adjetivo; nem permitindo que um igual haja da mesma forma, até por que tal incapacidade masculina o tornaria feminino.

(…)uma horda primitiva dominada por um macho que
gozava de um monopólio sexual absoluto, possuíra todas as fêmeas
ao mesmo tempo e impedia o acesso dos demais machos a elas.
Puro gozo, frustrava o desejo dos filhos por suas mães
e irmãs, submetendo todos à sua lei, imposta pela força.
(KOLTAI, p.47, 2010).

Sob a tutela da construção social de raça, o negro do gênero masculino, carrega uma carga negativa neste contexto. É sabido que em sua historiografia, por exemplo na escravidão, que o negro é estigmatizado como o dominado, o oponente a ser excluído e diminuído, padecendo assim dos efeitos do racismo.
Sentida como realidade até os dias atuais no Brasil, de acordo com o estudo do IPEA, o Atlas da Violência, 75,5% das vítimas de homicídio no País são negras. No entanto, as violências sobre a comunidade negra são sentida de diversas maneiras entre atos físicos ou psicológicos que desautorizam esses corpos a terem uma representatividade social. E até em outras comunidades que também lutam pelo mesmo direito. Pelo fato do carregamento do estigma de racismo à uma normalidade dos atos sob o negro em relação a brancos, que ainda os vêem e trazem consigo a falta de empatia e o escárnio do preconceito.

O antropólogo Osmundo Pinho – Doutor em Ciências Sociais -, em seu texto “Qual é a identidade do homem negro?”, afirma: “O corpo negro masculino é fundamentalmente corpo-para-o-trabalho e corpo sexuado. Está fragmentado em partes: a pele; as marcas corporais da raça (cabelo, feições, odores); os músculos, ou força física; o sexo, genitalizado dimorficamente como o pênis, símbolo falocrático do plus de sensualidade que o negro representa e que, ironicamente, significa sua recondução ao reino dos fetiches animados pelo olhar branco”.

Refletir sobre beleza, estética, atributos físicos é um exercício relevante para o entendimento que levam quaisquer seres humanos a projeções imagéticas de sexualidade e erotismo. Tais projeções ajudam a entender também questões onde o corpo negro masculino fora construído socialmente por meio da erotização. As diferenças corporais do homem negro e do homem branco oferecem elementos para esta desenvoltura descabida.

Percepção esta, que chega a níveis altos de estigmatização erótica que por muita vezes não é observada também por muitos negros, fazendo com que muitos acabam incorporando valores negativos às suas identidades masculinas, os deixando estereotipados e sem força para uma melhor relação com seu corpo.

Esse olhar se traduz na hiperssesualização do corpo negro e na devastação equidade da liberdade do desejo sexual levando o mesmo a uma hipossesualização, isto é, a não ter experiências sexuais propositivas. Dentro da cena LGBT há muitos relatos e dados que comprovam este fato: na pesquisa realizada pela revista britânica FS magazine, impressionantes 80% dos negros, 79% dos asiáticos e 75% dos sul-asiáticos já passaram por situações de racismo na cena gay.

A dialética não é diferente no Brasil. Em sites ou aplicativos de relacionamento a padronização do homossexual se opõe a liberdade das lutas da comunidade LGBTQI+, por exemplo. Um retrato que o colunista Owen Jones do The Guardian descreve em seu artigo uma entrevista com um brasileiro:

(…) me contou que seu país tem um “conceito eurocêntrico de beleza”, e que há um “culto ao homem branco, o que é absurdo, já que mais da metade da população são de negros ou miscigenados. (traduzido, The Guardian, 2016)

Podemos dizer que hoje em dia os aplicativos de relacionamento são canais de comunicação
muito potentes em nossa era para quem está em busca de encontros amorosos ou casuais. Por muito tempo, antes da existência dos smartphones, sites já ofereciam este serviço, porém muitos deles não eram específicos ou não tinham opção para o público homossexual.

É preciso compreender que não há a necessidade de sair do armário ao se cadastrar, até por que a plataforma pode ser um dos canais para que isso aconteça.
No entanto, ainda se mantém muitas atitudes e expressões do convívio no mundo real a exemplo disso são os jargões, replicados à exaustão, como o muito conhecido pela comunidade “discreto fora do meio”- aquele que curte ter relações sexuais com o mesmo sexo, mas que jamais pisará na Parada Gay de São Paulo.

O problemático é que algumas expressão não são tão leves e demonstram nas entrelinhas ou de forma escancaradas preconceitos, como:

“Se miar dou logo um block”
“Não a negros e gordos. Nada contra é só gosto mesmo”
“21 cm pra cima. Roludos (emoji berinjela) negros e mulatos”
“Ativos roludos sem frescura pronto pra soca”
“Homem com voz de homem, sem trejeitos”
“Não a afeminados”
“ Cú rosinha”

Pincelando dois dos termos como: “não a negros e gordo” é de claro compreensão que o indivíduo é racista e gordofóbico e “se miar (…)”, contextualizando pra você que é hétero, significa que se o ser humano tiver qualquer emissão de sua voz ou expressão corporal a de uma mulher o outro bloqueia. E nem precisa ser negro para isto acontecer, os categorizados como homens afeminados ou trans e travestis são os que mais sofrem preconceitos deste tipo no cenário gay, porém são os que mais lutam para a nossa sobrevivência. Uma identidade que sofremos e demoramos muito a construir ser destruída assim é horrível.

Para Hall (2006, p.12): O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático. Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente.

Sendo assim, o sujeito é formado por várias constituições de si mesmo a partir daquilo com o que ele se identifica. A identidade do indivíduo, portanto, sendo mutável e impermanente, se constrói a partir do que vê, presencia e se relaciona. Uma reprodução fatal ao corpo negro, neste sentido segundo Hall, pois os perfis analisados trouxeram a tona a incapacidade da percepção positiva sob o olhar alheio e a si mesmo de uma prejudicação da sua representatividade sexual no quesito liberdade e não aprisionamento dele.

Em muitos perfis, suas descrições é visto uma categorização do corpo humano enquanto ao desejo egoísta. Muitos aplicativos têm seu público específico, igualmente fora do ambiente online, como os ursos, lontras, papai, peludos, magros, coroas, caçador, sem pelos, sarados, couro, militares, novinhos, HIV+, bissexuais, trans, drag, universitários, nerds, atletas, rapazes comuns entre outros.

Porém toda essa dinâmica acaba por discriminar aqueles que não tenham tais fatores, os tornando um caso sério dentro da comunidade, pois esses corpos não devem se comprometer a estas ditaduras do arquétipo categorizado e dissimulado que visa a perfeição.

Entretanto a imagem do corpo estratificado dentro de categorias não é exclusivo de aplicativos que só refletem algo já normatizado.

Em sites pornográficos encontra-se categorias para todos os gostos, inclusive para negros, onde mais uma vez descrevem a erotização negativa do corpo negro perfeito, quando másculo, ativo, quando magro, passivo, o que resulta em uma estereotipação e hiperssexualização, apenas.

É necessário dizer que a pornografia não tem a prioridade de educar sexualmente o indivíduo ou normatizar situações, pois é constituída em obscenidades e fuga dos padrões morais da sexualidade considerada normal, porém novamente digo, que o olhar sobre a identidade atuante sobre o corpo negro em sua maioria é negativa.

A análise de insights do site pornográfico PornHub publicada em 2018, em páginas gay, mostra que a pesquisa por negros subiu duas posições, ocupando o terceiro lugar sendo que, a segunda categoria mais vista é negro. Já em outro site podemos encontrar uma categoria ainda mais específica, BBC (Big Black Cock, traduzido: grande pênis negro).

A causa e consequência desse consumo categorizado é irônica, por que já fora construído uma condição pejorativa em uma sociedade branca patriarcal cisgênero que diminui o negro; e ao invés de haver uma crítica e reflexão sobre o consumo depreciativo, a comunidade branca LGBT dá mais sinais de descaso e de uma maior adequação ao preconceito hétero branco.

Umas das principais vertentes que poderia ser um fator de ajuda neste descolamento da hiperssexualização e numa normatividade mais afetuosa é a comunicação. Durante anos passou uma mensagem errada do negro em todos os sentidos. Porém com uma falta de produções audiovisuais brasileiras que trouxessem uma relação afetiva em destaque, ou divulgação de produtos e disseminação publicitária afro-centrada, depõe este lado excludente que o negro gay não faz parte da sociedade.

Na Rede Globo de televisão, o casal gay mais famoso fora protagonizado por dois atores brancos (não gays) o que proporcionou no primeiro beijo gay entre homens da televisão aberta em novelas. Modern Family e Will and Grace são produções norte americanas que ajudam nessa concepção de uma relação afetiva através do casamento, mas é com a série Pose por exemplo que temos uma diversidade étnica homossexual sendo contada. Sob a ótica da cultura dos Ball rooms, essa diversidade traz a tona adjetivos mais positivos e dramas do que é ser negro e trans dentro da comunidade e quão muitos na historiografia LGBT, sofreram em tempos de alta invisibilidade social. Mas também como somos objetos do desejo sexual de brancos.

Renato Meirelles, diretor do Instituto Locomotiva apresenta dados na pesquisa A Voz e a Vez divulgada na Feira Preta em 2018, com o apoio do Itaú, revela que:

“O estudo apresenta um panorama do consumo negro no Brasil, do ponto de vista dos consumidores e dos empreendedores. Os negros no Brasil representam 54% da população e movimentam, em renda própria, R$ 1,7 trilhão por ano. Apesar disso, 72% dos consumidores negros consideram que as pessoas que aparecem nas propagandas são muito diferentes deles e 82% gostariam de ser mais ouvidos pelas empresas”.

Enquanto não houver a reflexão da representatividade negra em espaços de negócios e consumo por empreendedores brancos, não vamos ter uma melhora nesta discussão que vai muito além de inclusão, mas sim de uma dimensão plural da midiatização dos negros.

(…)a publicidade antirracista é aquela que integra e expressa os seus preceitos em suas práticas e gestões por resultados sem desvirtuar os seus objetivos-fim, que focam na sustentabilidade dos negócios de sua indústria. (FRANCISCO e LEONARDO, p.38, 2019).

Opinando digo, que não penso somente a minha sobrevivência na comunidade e na sociedade branco heterossexista, machista e patriarcal, mas aos outros mais jovens e novatos. Somente produzindo conversas como esta, seja no YouTube, Instagram ou escrevendo é que vamos ter e dar voz para que nossas mazelas, que outros nos colocam, não sejam mais sofridas.

Assim, apresenta-se a importância de representatividade negra em uma sociedade que os acolham e não os deixem permanecerem em relações abusivas levando-os a uma hipossexualização.

O importante é trazer sempre um olhar mais crítico que desafie a normatividade de uma cultura estrutural, que ao longos dos anos não apresenta sinais de mudança.

Enquanto não olhar para as questões raciais como pautas que devem ser discutidas em intersecção com suas lutas, a comunidade LGBTQIA+ verá suas conquistas diminuídas pelas tragédias da opressão e a injustiça da discriminação pela cor da pele.

Vale a estes que lutam e aos diminuídos que não continuem a serem servidos como a carne mais barata do mercado.

Referências Bibliográficas

Pinho, Osmundo, Qual é a identidade do homem negro?. Democracia Viva, nº22, junho/julho de 2004. Revista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Atlas da violência 2019. / Organizadores: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. ISBN 978-85-67450-14-8

HAGGAS, Stuart. Racism and the gay scene. GMFA The gay man health project, 2015.
Disponível em: https://www.gmfa.org.uk/fs148-racism-and-the-gay-scene. Acesso em: 28 Mar 2020.

HALL, Stuart. A identidade cultural da pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 2006

JONES, Owen. No Asians, no black people. Why do gay people tolerate blatant racism?. The Guardian, 2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/24/no-
Asians-no-blacks-gay-people-racism. Acesso em: 28 Mar 2020.

Pesquisa exploratória: https://www.pornhub.com/insights/2018-year-in-review#age
Acesso em: 15 Mai 2020

LEITE, Francisco, BATISTA, Leandro Leonardo.Publicidade antirracista: reflexões, caminhos e desafios – São Paulo: ECA-USP, 2019. 409 p. ISBN 978-85-7205-262-7 DOI 10.11606/9788572052627

PRESA, Giovanna Amanda. Totem e Tabu. Psicologado, [S.l.]. (2012). Disponível em https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/totem-e-tabu. Acesso em: 28 Abr 2020.

RATTS, Alex. Entre personas e grupos homossexuais negros e afro-lgttb. BARROS JÚNIOR, Francisco de Oliveira e LIMA, Solimar Oliveira.(Org.). Homossexualidade sem fronteiras: olhares. Rio de Janeiro–RJ: Booklinks 1 (2007): 97-118.

Leia Também:

Homens gays, precisamos estar atento à nossa masculinidade tóxica


RELATED ARTICLES