terça-feira, novembro 29, 2022
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O desafio pedagógico de formar professores para promover a igualdade racial na escola

MERGULHO NAS PROFUNDEZAS DO (NÃO) SABER…

Lucimar Rosa Dias1

Em 2002, Antônia Lucivânia da Costa Silva2, aluna de pedagogia, solicitou-me que respondesse a algumas “perguntinhas” sobre  racismo e educação, essas fariam parte de atividades de uma disciplina do curso.

As perguntas eram complexas e me proporcionaram pensar na minha experiência como professora,  nas experiências de outras professoras que compartilhei, na minha pesquisa de mestrado e em tudo que sei e que não sei sobre essa questão.

Fiz um  mergulho profundo durante dias e quase me afoguei procurando respostas definitivas para questões complexas e não totalmente resolvidas, quando fui obrigada a enfrentar as limitações de meus conhecimentos como pesquisadora e estudiosa da área, a aluna queria as respostas para concluir seu trabalho, prometi-lhe que em dois dias as entregaria.Tive que tirar a cabeça fora da água para tomar um pouco de ar e enfrentar as “perguntinhas”. E, quando não se sabe por onde começar, o melhor é, como diz o dito popular “começar pelo começo”, portanto, vamos às perguntas:

1-Como o preconceito racial afeta uma criança?

2-Como um educador das séries iniciais pode abordar o assunto “racismo” em sala de aula tendo alunos negros em sala?

3-Hoje, encontramos várias crianças negras em sala de aula e estas têm atitudes racistas. Como poderemos trabalhar pedagogicamente com essa questão? Como um educador pode abordar o assunto racismo tendo alunos negros em sala de aula?

4-Quais são os maiores problemas enfrentados nas escolas em relação ao racismo?

5- Existem nas escolas  projetos relacionados com  as crianças negras?

Talvez, as perguntas  de Lucivânia, como prefere ser chamada, sejam as mesmas de outras pessoas que estão na escola, por isso, resolvi respondê-las como texto para compartilhar com mais pessoas minhas angústias, minhas dúvidas e minhas provisórias certezas sobre questões relativas as relações raciais na educação. Esse espírito de pedagoga-militante me faz acreditar que não devemos perder nenhuma oportunidade para contribuir com o desafio de formar professoras para trabalhar com a igualdade racial em sala de aula.

Optei por construir um texto no formato de perguntas e respostas. Portanto seguiremos, agora,  por ordem as perguntas.

TURBULÊNCIAS  EM ALTO MARou de como é difícil  enfrentar a diversidade. Pergunta nº 01: “Como o preconceito racial afeta uma criança?”

 

Em primeiro lugar a pergunta nos dá a oportunidade de definir alguns conceitos importantes que geralmente aparecem quando discutimos sobre relações raciais. São eles: preconceito racial, discriminação racial e racismo. Muitas vezes não os diferenciamos ou não sabemos exatamente o que de fato cada termo quer dizer.

Quando falamos de preconceito estamos nos referindo a idéia preconcebida, sem razão objetiva ou refletida. Por exemplo: pensar que as pessoas negras são pouco  afeitas aos estudos e mais destinadas a trabalhos manuais é uma idéia preconceituosa, porque não está de acordo com a realidade e atinge a todo um grupo de pessoas. O  fato de uma, ou outra pessoa negra  não gostar de estudar não pode ser aplicado a todo o grupo racial.

Já a discriminação racial é uma atitude ou uma ação que objetiva diferenciar, distinguir e em geral prejudicar um grupo tendo por base idéias preconceituosas. Por exemplo: quando uma professora não permite que uma menina negra represente uma princesa em uma peça de teatro argumentando que as princesas são brancas, ela está discriminando negativamente, porque está praticando uma ação que objetiva prejudicar uma criança devido ao seu pertencimento racial.

E por fim, o conceito  de racismo. Muitas pessoas dizem que o racismo no Brasil  afeta: pessoas negras, pobres,  indígenas, gordas etc. Certamente essas pessoas querem dizer que esses grupos também são discriminados e não que sofrem em decorrência do racismo, pois no conceito de racismo está presente a idéia de que existem raças superiores e inferiores e que disso decorrem a opressão de um grupo racial sobre outro, legitimando as desigualdades sociais, econômicas, escolares etc. Por isso, quando falamos que a pessoa gorda tem problemas de aceitação social, não estamos falando do mesmo fenômeno que desumaniza a pessoa negra ou indígena. Um caso se refere à discriminação e outro as conseqüências do racismo.

Bem feita essa distinções de conceitos tentarei responder  a primeira pergunta a partir de dois momentos vividos por mim em situações de ensino em Campo Grande/MS.  O primeiro ocorrido  quando era estagiária do curso normal em 1983 numa escola pública municipal e o segundo em 2002 em uma oficina para crianças de 3 a 14 anos em uma comunidade negra urbana chamada  São João Batista.

Momento 1

-Posso me sentar ao seu lado? -pergunta-me uma linda menina negra de cabelos trançados e seus sete anos.

-Claro, mas por que quer sentar-se aqui? – pergunto-lhe intrigada, já que sou a única adulta na sala de aula da 1ª série e há vários grupos de crianças pela sala.

– É que você é a única igual a mim- disse-me, voltando seus olhos para a sua pele.

Momento 2

 

Discutimos, após a leitura do livro O Menino Marrom do Ziraldo, como era a discriminação na escola. Várias crianças relataram que sofriam com os xingamentos, o deboche sobre o cabelo, etc. praticado pelos seus colegas da escola.

A partir  dos relatos perguntei-lhes o que poderíamos fazer para eliminarmos essas situações. Elas indicaram várias possibilidades: contar para a diretora, para a professora, para a mãe, dar “porrada” e fingir que não ouvia. Depois que falaram, propus que desenhassem no chão as alternativas apresentadas e outras que lembrassem. A maioria repetiu o que foi dito. Questionei com as crianças que desenharam as ações violentas se de fato essas eram boas alternativas, algumas resolveram apagar essa alternativa, outras decidiram mantê-la dizendo que era a única que resolvia. Terminada essa atividade, voltamos ao grupão para finalizar a oficina. Fizemos uma avaliação dos trabalhos daquela tarde, os adolescentes, principalmente, disseram que gostaram do livro porque eles se sentiam bonitos como o menino marrom, etc, fizeram muitas brincadeiras do tipo. Tudo corria bem e já íamos terminar o trabalho quando…

” – Lucimar – puxa minha saia uma pequerrucha de seus seis anos”.

– Diga. Qual é o seu nome?

– Sara.

– O que foi, Sara?

– Na minha escola, as crianças vivem me chamando de cabelo de bombril.

– AH! Muito bem! – falando com a turma toda – O que nós combinamos que faríamos quando isso acontecesse?

– A gente fala com a professora! – respondem todos.

-Viu, Sara, quando acontecer novamente, você deve falar com a sua professora.

– Mas, Lucimar, eu já falei um monte de vezes e ela nem ligou!

Calei-me por alguns minutos diante da dura realidade e me senti impotente por alguns minutos. Depois, pensamos em algumas ações com base no que Sara relatou. Surgiu a idéia de conversar com a mãe dela, com a coordenação e com a diretora da escola.

 

Esses dois acontecimentos, um ocorrido há mais de 15 anos, outro, em 2002 nos dão a dimensão de como o preconceito racial está presente na vida escolar e nos permite inferir algumas conseqüências negativas, para as crianças negras, advindas dele. Tais como: rejeição, desvalorização, sentimento de solidão. Podemos também,  baseados na produção científica, principalmente, das décadas de 80 e 90 dizer  que o preconceito racial interfere drasticamente no rendimento escolar das crianças negras.

Essas conseqüências do racismo serão vivenciadas de diferentes maneiras. Tudo depende do instrumental que a criança possui para enfrentá-las. Se tiver  uma família  com condições de conversar sobre isso para ajudá-la a construir sua  autoconfiança ela percorrerá esse árido trajeto escolar e sobreviverá  aos efeitos de ser discriminada. Ou ainda, se encontrar algum suporte oferecido pela escola para enfrentar a discriminação podemos dizer que não sairá ilesa desse processo mas que pode construir possibilidades de reação às situações e com isso permanecer na escola obtendo sucesso.

A família  e a escola são espaços sociais com grande potencial para produzirem as resistências ao racismo, a discriminação e preconceitos, mas em sua maioria, ainda, não estão cumprindo esse papel. O que logicamente é compreensível, pois são instituições sociais permeadas pela ideologia do racismo.

As famílias negras possuem extrema dificuldade para melhorar seu capital social, cultural e econômico, pois o racismo  não opera apenas em nível individual, ele é estruturante da sociedade brasileira e as crianças negras são herdeiras da desigualdade e da exclusão social provocadas pelo racismo institucional brasileiro.

A escola tem sido um espaço privilegiado onde as crianças negras aprendem  sobre rejeição nas intensas interações que ali se dão quase sempre  negativas. Geralmente a discriminação racial na escola se dá pela aparência: é o cabelo, a pele, o nariz, enfim são os atributos físicos os escolhidos pelos discriminadores para depreciarem o negro. Em muitos casos a criança  incorpora essa depreciação evitando sua identidade negra e tudo que a remeter a ela. E as professoras nem sempre reagem pedagogicamente a essas situações discriminatórias.  Segundo Jurandir Freire Costa:

Para que o sujeito construa enunciados sobre sua identidade de modo a criar uma estrutura psíquica harmoniosa, é necessário que o corpo seja predominantemente vivido e pensado como local e fonte de vida e de prazer. (…) A partir do momento em que o negro toma consciência do racismo, seu psiquismo é marcado com o selo da perseguição pelo corpo-próprio. Daí por diante, o sujeito vai controlar, observar, vigiar este corpo que se opõe à construção da identidade branca que ele foi coagido a desejar. A amargura, desespero ou revolta resultante da diferença em relação ao branco vão traduzir-se em ódio ao corpo negro. (1983:6)

 

É possível, portanto, inferir que mesmo às crianças negras que possuem um suporte psíquico-socioafetivo para enfrentar o racismo, seja ele proporcionado pela família ou pela escola, não é sem dor que enfrentam as situações discriminatórias, que lhes dificultam a vida escolar, afetam sua sociabilidade e seu rendimento. O enfrentamento e a superação do racismo demandam das crianças negras um esforço muito grande para crescer como cidadãos e cidadãs saudáveis. Essa situação convoca a todos os educadores e educadoras, comprometidos com uma sociedade melhor a atuar de imediato nessa área.

A idéia de que as crianças precisam ser cuidadas e protegidas deve nos mobilizar a agir sobre essa realidade, não podermos deixar que Saras- a menina do momento 2- busquem sozinhas soluções para problemas tão graves. Essas crianças têm produzido, solitariamente, inúmeros jeitos de resistências no âmbito escolar que muitas vezes não são consideradas como resistência e ai vem os rótulos de: crianças agressivas, com baixa capacidade de concentração etc.

Para compreender melhor as relações raciais, BENTO (2002) tem apontado a necessidade de discutir para além de como o preconceito, o racismo e a discriminação afetam  a criança negra. Diz Bento que é necessário discutir o legado branco dessa relação. A população branca de qualquer nível social tem tido  privilégios que não se quer discutir. Se de um lado temos a desvalorização da  identidade negra, temos de outro à valorização da identidade branca. Segundo Bento, “O privilégio simbólico e concreto da brancura”. Se de um lado há crianças que aprendem a não se gostar, temos de outro, aquelas que aprendem a se gostar e portanto, uma séria reflexão sobre essa temática em sala de aula não poderá esquecer que  negros e brancos são afetados pelo preconceito, discriminação e racismo de maneiras diferentes trazendo desvantagens para o primeiro e vantagens para o segundo grupo.

 

NAVEGAR  ENTRE CHUVAS E TROVOADASou de como se enfrenta a diversidade em sala de aula.  PERGUNTA Nº 02. “Hoje, encontramos várias crianças negras em sala de aula e estas têm atitudes racistas. Como poderemos trabalhar pedagogicamente com essa questão ? Como um educador das séries iniciais pode abordar o assunto “racismo” em sala de aula, tendo alunos negros em sala?”

 

Bem, aqui temos um problema conceitual. Não é adequado considerar  racista a  criança negra que rejeita a sua identidade ou manifesta qualquer reação negativa em relação a esse assunto. Ela não pode ser caracterizada como racista. É muito comum ouvirmos a frase: “mas o próprio negro é racista, ele não se aceita como negro.” Ao fato de não se aceitar como negro, chamamos de introjeção do preconceito racial, isto é, a pessoa negra aceita a idéia de inferioridade atribuída a sua condição racial e para livrar-se disso nega-se como negra. E isso jamais pode ser considerado uma atitude racista. Se assim o fosse, estaríamos culpando a vítima pelo crime. Ser racista implica, ser o opressor, ter o poder de subjugar, ter a hegemonia simbólica ou concreta da situação. E é isto quem herda são as pessoas brancas. De acordo com Maria Aparecida Silva Bento (2002),

Na verdade, o legado da escravidão para o branco é um assunto que o país não quer discutir, pois os brancos saíram da escravidão com uma herança simbólica e concreta extremamente positiva, fruto da apropriação do trabalho de quatro séculos de outro grupo. Há benefícios concretos e simbólicos em se evitar caracterizar o lugar ocupado pelo branco na história do Brasil. (2002. P. 27).

No caso em que estamos discutindo quem herdou benefícios das relações raciais estabelecidas no Brasil não foram as crianças negras. Elas são vítimas da opressão racial da sociedade, por isso jamais são racistas. Porém, apesar do equívoco conceitual na pergunta, a questão principal que ela contém precisa ser respondida. Qual seja: Como um educador deve trabalhar o racismo, ou melhor dizendo, o combatê-lo  em sala de aula,  inclusive com crianças negras em sala?

 

Imagino que deva haver uma infinidade de caminhos para responder a essa questão. Meus estudos, por enquanto, me permitem dizer que abordar o racismo em sala de aula não deve ser diferente quando se tem ou não crianças negras. A questão principal é o professor se preparar para o tema.  É necessário estudar. Tenho dito que  professores estão acostumados à idéia de que, para ensinar matemática, português ou geografia etc. ela tem que estudar, mas quando quer abordar temas como racismo, nem sempre se preocupa em estudá-lo, conta com o que sabe do senso comum. Isso é um problema, pois assim ele pode incorrer em graves erros conceituais e metodológicos.

Também é necessário compreender que o educador fará sua parte no processo de desconstrução de conceitos e preconceitos, mas não resolverá toda as dimensões do problema que é social. Ter essa consciência lhe dá tranqüilidade para enfrentar os muitos desafios que aparecem no trato dessa questão na escola.

Há muitas formas de abordar o tema: palestras, trabalhos monográficos, teatro, música, poesias, leitura de textos, histórias, brincadeiras.  A escolha da metodologia mais adequada depende da idade dos alunos, da série em que se encontra, do tempo que se tem, do conteúdo a ser trabalhado. O fundamental é que o  professor queira contribuir para a diminuir o preconceito instalado na sociedade brasileira, esse dever ser o principal objetivo pedagógico.

Tenho incentivado os professores com os quais trabalho a incluir o tema da igualdade racial em seus currículos a partir de um projeto de trabalho. Para Hernandez,

A função do projeto é favorecer a criação de estratégias de organização dos conhecimentos escolares em relação a: 1) o tratamento da informação, e 2) a relação entre os diferentes conteúdos em torno de problemas  ou hipóteses que facilitem aos alunos a construção de seus conhecimentos, a transformação da informação procedente dos diferentes saberes disciplinares em conhecimento próprio. (1998:64)

Para escrever um projeto é necessário  refletir sobre o assunto, dependendo da idade dos alunos, discutir com eles, além de levantar bibliografia, solicitar ajuda, enfim fazer um planejamento detalhado.

Construímos, no caso da educação infantil, uma metodologia para iniciar o trabalho. Esse trabalho está disponível, no formato de cartilha publicada pelo movimento pró-creches comunitárias de Belo Horizonte e na minha dissertação de mestrado  Essa metodologia tem servido de base às professoras da educação infantil que desejam iniciar um trabalho com essa temática e não sabem como fazê-lo. A metodologia tem como pressuposto

(…) o reconhecimento da diferença, com o objetivo de inverter o processo que tende a associar tal reconhecimento aos estereótipos negativos. Ou, em outras palavras, o reconhecimento da diferença deve ser construído no sentido da ‘valorização’ e posterior ‘naturalização’ dessa diferença, para que a igualdade subjacente seja ressaltada”. (VALENTE. 1995.p.44).

A aplicação da metodologia, a fim de atender seu pressuposto, prevê a utilização dos seguintes materiais:  flores de mesma espécie e cores diferentes, animais da mesma espécie e cores diferentes, papel e lápis de cor e o livro de Ana Maria Machado, “Menina Bonita do Laço de Fita.”3

A apresentação é feita em forma de surpresa, levam-se as flores e os bichos que são apresentados separadamente. Primeiro, as flores, que devem estar embrulhadas para que as crianças adivinhem o que o pacote contém. Depois, as crianças devem  identificar semelhanças e diferenças (tamanho, cores, tipo etc.). Exploram-se todas as possibilidades de uso das flores e suas necessidades para viver (água, terra, sol etc). O procedimento com os animais é o mesmo tanto para apresentar, como no momento de explorar semelhanças e diferenças e necessidades para viver. A idéia é que as crianças compreendam que independente da cor das flores as possibilidade de uso e as necessidades para viver são as mesmas, assim como os animais. Uma forma de proceder está descrita no relato abaixo retirado da minha dissertação de mestrado.

 

“Apresentamos inicialmente três embrulhos. Cada um continha uma rosa diferente. Havia uma rosa vermelha, uma branca e uma cor-de-rosa. Solicitava-se das crianças que adivinhassem o que continha cada um deles. O conteúdo do primeiro embrulho demorou mais tempo para ser descoberto, já o do segundo foi rápido, pois perceberam que em todos havia rosas. O clima de surpresa ficou por conta de adivinhar a cor da rosa escondida.

Toda vez que acertavam a cor da rosa, retirávamos o papel e conversávamos sobre aquela flor. Perguntamos para que servia a rosa cor-de-rosa. Eles sugeriam várias alternativas: servia para enfeitar a casa, para dar às mães, para colocar no caixão, para plantar, para dar de presente, para enfeitar casamentos, para dar ao (a) namorado (a), por no cabelo, etc.

E assim fizemos com a rosa vermelha e com a rosa branca. Concluímos com eles, que mesmo mudando a cor da rosa, as funções delas continuavam a ser as mesmas. Era possível enfeitar a casa, dar à mãe ou colocar em caixão qualquer uma delas. Eles concordaram, com cara de como é que podíamos estar questionando algo tão óbvio como este!

Após essa atividade, colocamos as rosas dentro de um vaso e dissemos que havia outra surpresa para eles, mas só a mostraríamos se também adivinhassem o que era. Tínhamos dentro de uma caixa de sapatos três pintinhos: um branco, um preto e um marrom.

Eles demoraram mais a advinhar o conteúdo da caixa. Todos queriam falar ao mesmo tempo e ninguém estava acertando. Sugerimos a eles que fizessem bastante quietos. Ao fazerem silêncio ouviram os pintinhos piando e gritaram alegremente o que continha na caixa.

Dissemos que só lhes seriam mostrados quando acertassem as cores dos pintinhos. Cada vez que acertavam, retirávamos o pintinho da caixa. A sala de aula virou uma “bagunça”, todos queriam pegá-los. Foi necessário voltá-los para a caixa e combinar com os alunos que deixaríamos os pintinhos andarem livremente pelo círculo e que só depois é que poderiam  tocá-los . (DIAS,1997: 60).

 

É claro que essa é apenas uma das formas de abordar a temática do racismo em sala de aula, serve como uma possibilidade para quem quer começar e não sabe por onde. A aplicação da metodologia prevê ainda, desenhos de pessoas negras e brancas feitos pelas crianças antes e depois da atividade com as flores e os animais. É bom que o/a professor/a converse com as crianças durante a produção dos desenhos para identificar quem são as pessoas que elas estão desenhando e qual a cor/raça de cada pessoa desenhada. Na conversa é possível captar muito do que elas trazem de conceitos e preconceitos sobre a temática em questão. O trabalho é finalizado com a leitura do livro “Menina Bonita do Laço de Fita”.

O desenvolvimento das atividades deve fazer parte de um projeto de trabalho, isso é o que dará caráter pedagógico ao trabalho. Uma atividade pedagógica, como disse, requer planejamento, objetivos claros bem como organização no tempo e no espaço da escola. O volume 10 dos PCN- Parâmetros Curriculares Nacionais, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual, contém boas noções de como podemos fazer um trabalho nessa área. Nessa temática, o comprometimento da/o professor/a em promover a igualdade racial é o  fundamental.

Um bom projeto de trabalho ou projeto didático como alguns chamam, deve seguir algumas etapas, mas não é um processo estático, ele é dinâmico e gradual. E talvez seja desnecessário dizer, mas deve ser um material escrito. Não há possibilidade de desenvolver um projeto didático se ele estiver apenas na cabeça  do/a professor/a.

Há três momentos distintos, mas interelacionados na construção de um projeto didático. O primeiro é a escrita do projeto propriamente dito pelo professor, vamos chamá-lo de esboço. Nele deve ter as respostas para as seguintes questões: 1- O que pesquisar? Definição do tema; 2- Por que pesquisar? Justificativa; 3- Para que pesquisar? Objetivos; 4-Quando fazer? Duração; 5-Onde fazer? Local; 6-Com o que fazer? Recursos; 7- Como fazer? Metodologia ; 8- Quem participa? Todos os envolvido e 9- Que resultados esperar? Produto. No caso das relações raciais há inúmeras possibilidades de investigação, como já disse anteriormente depende da série, da idade, do tempo, etc. Se os alunos são pequenos o melhor é que o/a próprio/a professor/a escolha o tema e pense em estratégias para criar o interesse no grupo. Por exemplo: Uma temática presente no currículo da educação infantil é o estudo do corpo. A partir desse tema o/a professor/a pode discutir questões pertinentes a temática das  relações raciais. É sempre a partir de uma questão que damos início a um projeto. No nosso exemplo o professor poder escolher um livro ou uma brincadeira que suscite nas crianças a seguinte  pergunta : “Por que as pessoas não são iguais?”.

O segundo momento é o de  compartilhar com os alunos o esboço do projeto. É um momento muito importante, pois o propósito de utilizar essa metodologia é também de proporcionar ao aluno, de todas as idades e séries, o domínio desse instrumento de trabalho.

Cada questão deverá ser discutida com os alunos. É uma oportunidade para chegar se a temática de fato desperta interesse ou se querem acrescentar novas questões etc.

O terceiro momento é o relatório do projeto que deve ser feito paralelamente. Cada etapa deve ser descrita com detalhes. Como os alunos reagiram à escolha do tema? Como foi a definição dos detalhes do projeto? Quem  participou e como participou? Quais os resultados mais importantes.

É fundamental que o professor consiga registrar os resultados dos diferentes momentos do trabalho para que possa avaliar os resultados e repensar sua prática, só assim é possível trabalhar pedagogicamente temas como o que estamos discutindo.

E como muita água ainda vai rolar…  Começo a responder a quarta pergunta. Quais são os maiores problemas enfrentados nas escolas em relação ao racismo?

 

A escola é uma instituição social, portanto, o racismo não está fora de seus muros, ele entra nela como entram todas as questões sociais  (desigualdades, violência etc). Acredito na escola como espaço da contradição, assim, como temos pessoas que reproduzem as relações discriminatórias, temos pessoas que desejam superá-las. Por isso um dos problemas mais graves a enfrentar será a oposição nem sempre explícita dos setores da escola, seja ele docente, discente ou administrativo. Apesar desse trabalho estar respaldo na lei 10.639/03 que torna obrigatório o ensino da História da África e da Cultura dos afro-brasileiros e dos PCN a questão em jogo é ideológica, há os querem manter a sociedade com negros e outros grupos sendo inferiorizados e os que querem mudar essa realidade, por isso, não se pode desanimar diante dos primeiros problemas que aparecerem.

Outra questão importante é, em alguns casos, a falta de apoio dos sistemas educacionais (secretarias de ensino) para os professores que desejam atuar neste tema.

Penso que esses são os problemas mais sérios dos quais decorrem outros, a falta de material, as muitas metodologias que precisam ser criadas para abordar determinados temas e conceitos envolvidos nesse trabalho, a dificuldade para lidar com as emoções que são mobilizadas nesse tipo de atividade etc.. Nenhum desses problemas impedem que   professores comprometidos com a promoção da igualdade racial na escola desenvolvam bons trabalhos. Nos grupos de  formação de professores com essa temática é possível verificar como são ricos os relatos das experiências vividas por quem já entrou nesse barco. Muitos professores contam com felicidade inúmeras situações pedagógicas nas quais sentiram orgulho por terem se arriscado a trabalhar com esse tema, perceberam suas crianças mais felizes, grupos de alunos mais coesos e solidários com isso se sentiam muita mais responsáveis em seu papel de educadores. Acredito realmente que educar para a igualdade racial é um risco que vale a pena.

CONSTRUINDO BARCOS PARA NAVEGAR ou experiências bem sucedidas nessa trajetória.

 

Pergunta nº 05: Existem nas escolas projetos relacionados com as crianças negras?

O resultado do I Prêmio Educar para a Igualdade, promovido pelo CEERT-Centro de Estudos das Relações de Trabalho e pela Prefeitura de São Paulo em 2002 é um bom indicativo de que as coisas não estão paradas. Foram recebidos 210 projetos com a temática, grande parte eram de trabalhos voltados para o combate à discriminação contra o negro.

Também como exemplo caseiro temos o projeto: Construindo uma prática  de promoção da igualdade racial a partir da bibliografia afro-brasileira da Secretaria Municipal de Educação de São  Paulo.

Várias secretarias de educação incluíram em seu organograma equipes responsáveis pela tarefa de disseminar a idéia de promoção da igualdade racial. Posso citar como exemplos: a secretaria estadual  do MS, a secretaria municipal de Campinas, a secretaria  de Belo Horizonte, a secretaria municipal de Belém, entre outras.

Esses são exemplos de uma gama de ações sempre gestadas pela força da militância negra em todo o país. Há muita coisa sendo realizada por todo o Brasil. Para a realização de uma educação anti-racista e promotora da igualdade  é necessário:

1-Sentir-se motivado para mudar uma realidade na qual ela está mergulhada querendo ou não;

2- Estabelecer alguns contatos, sempre há na cidade em que se mora um grupo ou pessoas que atuam com essa temática e elas geralmente serão fontes de apoio;

3- Dar visibilidade ao trabalho realizado além da sala de aula, com ações simples como: a) convidar uma personalidade da cidade ou mesmo do bairro para conhecer seus alunos e o que estão fazendo; b) expor os trabalhos dos alunos, redações, desenhos, etc na escola e também em outro lugar da cidade e/ou do bairro (por exemplo a mercearia mais visitada do bairro);

4- Incluir na escola a imagem da diversidade racial brasileira. Em cartazes, atividades de destaque como teatro, festas comemorativas e ações semelhantes;

6- Tentar atrair outras pessoas da escola para seu projeto. Pessoas dos diferentes níveis da organização da escola como: a merendeira, a faxineira, a secretaria, a diretora, outra/a professora/a, dando lhes papéis de destaque. Por exemplo estabelecer um dia para que os alunos escrevam cartas, bilhetes para diretora da escola contando o que estão fazendo e convidando-a para ir até a sala de aula, enaltecendo sua importância na escola ou levar desenhos para a merendeira e contar o que estão fazendo, oferecer uma música para secretaria que tenha relação com o tema trabalhado. Isso envolve outras pessoas no trabalho e cria uma expectativa positiva sobre o mesmo.

Fundamental é que o trabalho não seja para a criança negra mas para todas as crianças. Obviamente que cada professor deve encontrar a melhor maneira de fazê-lo e isso, a melhor maneira, vai acontecendo a medida que o educador se arrisca nesse mergulho. Não deve ser um mergulho desprotegido, ao contrário, o educador deve  cercar-se de cuidados para poder enxergar todas as possibilidades que este novo empreendimento pode lhe proporcionar.

São medidas simples de segurança;

1)leia pelo menos um texto sobre o assunto,

2) não se envergonhe de perguntar para alguém que considere saber algo sobre o assunto;

3) não deixe de exigir da coordenação da escola apoio ao seu trabalho;

4) exija da sua secretaria de educação o cumprimento das leis que respaldam essas ações;

5)  E a mais importante: compartilhe suas angústias é assim que a gente cresce, é assim que a gente aprende e certamente é assim que mudamos uma realidade para melhor.

 

BIBLIOGRAFIA:

ARTHUSO, Edna Rodrigues. Sou Preta da Linda Cor, cartilha, Movimento de Luta Pró-creches, jul, 2001, Belo Horizonte, MG.

COSTA, Jurandir Freire. Da cor ao corpo: a violência do racismo. In: Sousa, Neusa Santos. Tornar-se Negro. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1983.88p.

BENTO, Maria Aparecida da Silva (org ). Branqueamento e branquitude no Brasil. In: Corone, Iray, Bento, Maria aparecida da Silva, Psicologia Social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis, RJ, Editora Vozes, 2002.189p.

DIAS. Lucimar Rosa. Diversidade Étnico-racial e Educação Infantil. Três Escolas. Uma questão. Muitas Respostas, Dissertação de Mestrado, UFMS, 1997.

GANDIN, Adriana Beatriz. Metolodogia de projetos nas sala de aula; relato de uma experiência. Coleção  Fazer e transformar. São  Paulo, SP: Edições Loyola, 2001.

MARTINS. Jorge Santos. O trabalho com projetos de pesquisa: do ensino fundamental ao ensino médio. Campinas, SP: Papirus, 2001.

VALENTE, Ana Lúcia E. F. Proposta metodológica de combate ao racismo nas escolas. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, n.93, p.40-50, maio/95.

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