O efeito Sassá Mutema

Desde os anos 50, desigualdade econômica sempre esteve no foco das teorias do desenvolvimento, com acentos liberais ou reformistas

Uma vista de relance sobre fato curto pode ter efeitos de longo alcance. Na notícia, um aspirante ao poder propõe “força-tarefa para acabar com a pobreza no país”. E mais: o mercado deve abrir-se para “a solidariedade e a compaixão”. O tom é sério, mas um efeito imediato comporta o riso clemente, seguido da evocação de um dos marcos do cânone literário universal, “O Idiota”, de Dostoiévski.

Talvez seja alta demais a associação. O príncipe Michkin, protagonista da obra-prima russa, é um ser complexo, um cristão idealizado, que o romancista alinha com Dom Quixote. A sua idiotia é inadaptação social, sem vontade de poder. Lembrança de bom tamanho seria “Muito Além do Jardim” (1979), filme de Hal Ashby, baseado em novela de Jerzi Kosinski. O personagem Chance (na tela, Peter Sellers) é um jardineiro de meia-idade, retardado, que passou a vida inteira numa única casa e tudo o que sabe do mundo vem da televisão.

Adotado por magnatas após a morte do patrão, o jardineiro começa a ter suas platitudes acolhidas como pérolas de sabedoria. Quanto mais vaga e telegênica a linguagem, mais concreta é a interpretação dos ouvintes. Aliás, gagás na maioria. É o tipo de fenômeno em que também os silêncios falam. Jornalista da velha guarda provavelmente terá na memória um político brasileiro reputado por sua familiaridade com a economia: de significativo nada dizia, mas tinha o dom das pausas e das frases oportunas.

Desde os anos 50, desigualdade econômica sempre esteve no foco das teorias do desenvolvimento, com acentos liberais ou reformistas. As análises fundadoras de economistas como Raul Prebisch, Celso Furtado e outros partiam sempre de um campo fértil de fatores múltiplos. Miséria não era uma questão apenas econômica, mas também histórica, política e social, portanto, relativa à modelagem humana do progresso.

No filme em questão, pareciam liberais os patronos de Chance, o comovente jardineiro. Hoje os ventos sopram em favor de gurus mais formatados como operadores financeiros do que como analistas do crescimento social. Não analisam, “precificam”. Gagás ou não, são ricos e indispensáveis na política: todo incumbente tem um deles para chamar de seu. E, claro, um Rolando-Lero, especialista em realidade paralela.

Deve ter brotado dessas fontes o devaneio de um comitê para acabar com a pobreza secular. É patético, sem comover. Mas caberia bem num caldeirão de variedades ou em telenovela com herói do tipo “Sassá Mutema”, atualizado por um mercado com imagens compassivas, em vez de mata-mata. A ver: já se retirou até mesmo o touro bravio da praça em frente à Bolsa.

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