O empoderamento necessário

O termo empoderamento muitas vezes é mal interpretado. Por vezes ele é entendido como algo individual ou a tomada de poder para se perpetuar as opressões. Para o feminismo negro, empoderamento possui um significado coletivo, trata-se de empoderar a si e aos outros e colocar as mulheres negras como sujeitos ativos de mudança. Como diz bell hooks (nascida Gloria Watkins e adotou o nome de sua avó e pede que o usem assim em minúsculo), empoderamento diz respeito a mudanças sociais numa perspectiva anti racista, anti elitista e sexista através das mudanças das instituições sociais e consciência individuais. Para bell é necessário criar estratégias de empoderamento no cotidiano, em nossas experiências habituais no sentido de reivindicar nosso direito a humanidade.

Por Djamila Ribeiro, do portal Mulher Executiva 

Foto: Gabo Morales/TRËMA

Logo, empoderamento sob essa perspectiva significa o comprometimento com a luta pela equidade. Não é a causa de uma pessoa de forma isolada, mas como essa pessoa faz para promover o fortalecimento de outras mulheres com o objetivo de promover uma sociedade mais justa para as mulheres. Perceber que uma conquista individual de uma mulher não pode estar descolada da análise política. O empoderamento não pode ser algo auto centrado dentro de uma visão liberal, ou ser somente a transferência de poder, é além, significa ter consciência dos problemas que nos aflige e criar mecanismos de combatê-lo. Quando uma mulher empodera a si tem condições de empoderar a outras.

Cada mulher em seu espaço de atuação pode criar formas de empoderar outras mulheres. Se for empregadora, pode criar um ambiente de trabalho onde exista o respeito e que possa atender a demanda de mulheres, principalmente daquelas que são mães, certificar-se que não há desigualdade salarial e assédio. Se é professora, estar atenta aos xingamentos machistas muitas vezes naturalizados como brincadeiras ou chacotas. Tentar promover discussões em salas de aula que tragam a reflexão sobre a situação das mulheres. Criar um grupo na comunidade ou associação do bairro para discutir estratégias de apoio a outras mulheres ou o enfretamento à violência que essas mulheres possam vir a sofrer.

Significa uma ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais. Essa consciência ultrapassa a tomada de iniciativa individual de conhecimento e superação de uma realidade em que se encontra. É uma nova concepção de poder que sai a resultados democráticos e coletivos. É promover uma mudança numa sociedade dominada pelos homens e fornecer outras possibilidades de existência e comunidade. É enfrentar a naturalização das relações de poder desiguais entre homens e mulheres e lutar por um olhar que vise a igualdade e o confronto com os privilégios que essas relações destinam aos homens. A busca pelos direitos das mulheres à autonomia por suas escolhas, por seu corpo e sexualidade.

Djamila Ribeiro

Pesquisadora na área de Filosofia Política e feminista

+ sobre o tema

Após preconceito na infância, coreógrafa cria projeto para empoderar mulheres com a dança

Gabb Carbo Verde desembarcou de navio em Recife fugindo...

Tia Má: ‘Mulher preta nunca é chamada de princesa’

O sonho da jornalista, humorista e youtuber Maíra Azevedo,...

Os Incels e a romantização do homem tóxico na cultura pop

Resolvi finalmente assistir à série Bates Motel, que narra os...

Maioria das vítimas do tráfico de pessoas é mulher e negra, diz relatório

Trabalho foi feito em conjunto com agência especializada da...

para lembrar

Estupro coletivo é transmitido ao vivo através do Facebook

O estupro coletivo foi veiculado em um grupo com...

O acervo de Ruth Escobar sob ameaça

Tonia Carrero, Eva Vilma, Odete Lara, Norma Bengell e...

A cretinice de quem vaza – e compartilha – vídeo íntimo

Fran, de Goiânia, teve um vídeo íntimo divulgado pelo...

Feminismo: Agora é preciso reinventar

Entrevista com Carla Rodrigues sobre seu mais novo  livro...
spot_imgspot_img

O que está em jogo com projeto que torna homicídio aborto após 22 semanas de gestação

Um projeto de lei assinado por 32 deputados pretende equiparar qualquer aborto realizado no Brasil após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio. A regra valeria inclusive para os...

Justiça brasileira não contabiliza casos de homotransfobia, cinco anos após criminalização

O STF (Supremo Tribunal Federal) criminalizou a homotransfobia há cinco anos, enquadrando o delito na lei do racismo —com pena de 2 a 5 anos de reclusão— até que...

Maria da Conceição Tavares: quem foi a economista e professora que morreu aos 94 anos

Uma das mais importantes economistas do Brasil, Maria da Conceição Tavares morreu aos 94 anos, neste sábado (8), em Nova Friburgo, na região serrana do Rio...
-+=