O lugar da intelectualidade negra nas respostas à crise climática

17/07/26
Por Thaynah Gutierrez Gomes

Tem um lugar do pensamento do grande mestre Milton Santos que sempre me provoca inquietações: suas reflexões sobre o título de intelectual. Ele sempre foi um crítico ferrenho da banalização desse título porque, em suas palavras, se preparou para ser um intelectual. Assim, em sua definição, intelectual seria aquele ou aquela que ultrapassaria o limiar da emoção, passando para a produção de um discurso coerente que possa ser a base de um discurso político. 

Eu faço parte de uma geração jovem do movimento negro que ainda está sendo formada, mas que começou seu engajamento ali em 2016, 2017. De lá para cá, vivi a proliferação desse título de intelectual para toda a nossa gente que, acessando espaços dentro da academia/universidades, dado o sucesso das políticas de cotas raciais, e produzindo discursos políticos potentes, ganhou visibilidade das massas populares e das supostas outras autoridades intelectuais que eram sempre brancas e que, depois do episódio George Floyd1 nos Estados Unidos, precisou se respaldar e referenciar, vez ou outra, alguma pessoa negra para não ficar chato. É justamente nessa concepção de intelectual atual que há um choque com a concepção de Milton Santos, o que  me provoca a pensar o papel dessa intelectualidade situada no hoje. 

Em 1996/1997 as secretarias da Justiça e da Defesa da Cidadania e a da Cultura do Estado de São Paulo convidaram diversos autores para uma coletânea intitulada “O Preconceito”. Entre os autores estava Milton Santos, com um texto amplamente conhecido denominado “As cidadanias mutiladas”2. Esse é um dos meus textos favoritos dele, porque ao não falar de um tema de sua especialidade, como ele aponta já no começo de sua dissertação, ele se permite refletir de forma mais livre e popular sobre as formas de definir quem pode ser cidadão no Brasil e o que é a cidadania e a democracia brasileira nas suas contradições. E como é de costume nas reflexões de pesquisadores negros e negras do Brasil, suas reflexões em 1996 se fazem pertinentes para o Brasil de 2026. Ainda hoje são os negros e negras aqueles que não são cidadãos plenos, não importando a festa3 que façam aqui e ali para reconhecer seus feitos no cotidiano. Numa democracia que também é quase. 

Em um ano eleitoral marcado por disputas de projetos de país, a agenda racial segue em constante disputa. De um lado, o grande movimento de extrema direita global, com fortes seguidores no Brasil, têm se apropriado e conciliado de maneira exemplar figuras negras de alta visibilidade e alcance, com as fortes narrativas racistas e separatistas produzidas pela supremacia branca. Do outro lado, no campo progressista à esquerda, da qual historicamente o movimento negro se filia, crescem discursos anti-identitarismo e anti-identidades construídos a partir das frustrações de uma branquitude que não mais tem os mesmos espaços amplos para “ensinar aos negros e pobres como votar melhor, como lutar e resistir ao autoritarismo e como fazer política”. Ao crescermos em espaço e visibilidade à esquerda e à direita, há uma crescente movimentação que tenta esvaziar as identidades e neutralizar o discurso impondo uma democracia neutra e o que Denise Ferreira da Silva (2022) vai chamar de “O Eu Transparente”4

E é nesse lugar que volto à minha provação sobre o que é ser intelectual e resgato uma reflexão final do texto “As cidadanias mutiladas”, no qual Milton Santos vai responder à uma pergunta que questiona seu engajamento com as “lutas das entidades negras que se organizam para combater o racismo”. Ele diz: 

“[…] O que acontece é que eu me preparei para ser um intelectual, acredito ser um, e eu vejo uma grande dificuldade entre ser um intelectual e ser militante. São duas atividades que não se conjugam, senão muito excepcionalmente, muito rapidamente, porque a necessidade de guardar inteira liberdade é excluída aos militantes. […] No movimento negro eu creio que deve haver lugar para diversas formas de expressão, e uma forma de expressão que eu não escolhi e penso que não vou escolher é de participar de grupos e de tendências ou de facções. O que eu quero é poder refletir sobre a questão, porque minha vida foi sempre um investimento quanto a possibilidade de reflexão e com isso permitir que se avance na produção de um discurso diferente, porque o discurso dos movimentos negros, em boa parte, é um discurso que não sendo cientificamente elaborado, não tem a eficácia política que deveria ter. Não tem.” p.144

Quando li essa passagem pela primeira vez, já muito alimentada das minhas referências de intelectuais que juntaram perfeitamente a intelectualidade acadêmica da militância, eu estranhei. Estranhei estar ao mesmo tempo concordando e discordando dessa posição e passei a refletir que lugar era esse de intersecção entre a intelectual e a militante que eu via em tantas mulheres negras que me inspiraram, como Lélia Gonzalez – contemporânea de Milton Santos – e levei comigo essa provocação a diante. 

Depois de um tempo conciliando minha formação no ensino superior, sendo agora uma mestranda, ao mesmo tempo que ativista e trabalhadora das agendas de meio ambiente e clima, eu resgatei da memória esse conflito inúmeras vezes. O lugar da produção científica de meio ambiente e clima é regado de tecnicismo branco no qual as ciências sociais, especialmente aquelas que são produzidas a partir de perspectivas onto-epistemológicas engajadas, situadas nos territórios negros, periféricos e contra-coloniais, são vistas como acessórias e irrelevantes aos principais problemas que precisamos resolver. E eu volto ao final da reflexão de Milton Santos, na qual ele diz que o “discurso dos movimentos negros, em boa parte, é um discurso que não sendo cientificamente elaborado, não tem a eficácia política que deveria ter”, para posicionar que hoje temos a certeza de que não nos falta um discurso cientificamente elaborado. Mas faltam, sim, políticas públicas de clima e meio ambiente baseadas em evidências científicas que não partam do campo único das ciências “exatas” e “naturais”, mas que, na multiplicidade que a crise climática exige ser interpretada, respeite também as múltiplas ciências que interpretam a crise climática e as respostas à ela. 

Retomo aqui as palavras de Nego Bispo,  outro mestre do saber, que recentemente foi alvo da patrulha anti-identidade do nosso campo, quando ele diz que assim como o agronegócio impõe a monocultura de plantio (destruindo a biodiversidade), a academia e a sociedade ocidental impõem a “monocultura do saber” tentando acumular e dominar os saberes tradicionais, orais e vividos (orgânicos). É dessa disputa aqui que se insere, hoje e sempre, a necessidade de continuarmos intelectuais militantes, como o movimento de mulheres negras nos ensinou, que elaboram cientificamente os formatos de vida que irão resistir, outra vez, a mais uma anunciação de fim do mundo que a emergência climática coloca sobre os nossos corpos. 

Todos os dados disponíveis sobre os retrocessos ambientais e os impactos desproporcionais dos eventos climátios aos corpos-territórios negros, indígenas e tradicionais nos levaram a crer que há um projeto político em curso, frequentemente denominado racismo ambiental, que têm escolhido nos matar primeiro. Porém, hoje, conectado há uma profunda necessidade de produzir mais dados desagregados que cruzam gênero, raça e clima; há também a necessidade de enfrentar o que Sueli Carneiro, enquanto grande referência de intelectual militante, elaborou enquanto epistemicídio. No qual, respeitando a necessidade permanente de tomar decisões políticas sobre o enfrentamento à crise climática baseando-nos na melhor ciência disponível, não deixemos morrer a ciência produzida por nós, corpos negros, periféricos, indígenas e tradicionais, que elaboramos com a própria vivência o cruzo que conecta ao mesmo tempo territórios de enunciação, encantamento e permanência. 

Tenho o privilégio de acompanhar, de perto, minha Iyalorixá Adriana de Nanã construir coletivamente o Projeto Cabaça que reúne agricultoras urbanas da Zona Leste de São Paulo com jovens negros de terreiros de candomblé nas periferias para produzir soberania alimentar, ancorada nos princípios da economia de terreiro. Ao mesmo tempo em que esses jovens retornam o cuidado e a relação com a terra e com as folhas sagradas, há também um estímulo para que eles mesmos sejam produtores de reflexões dentro da academia sobre os resultados e desafios desse projeto pioneiro. Para mim, aqui está um bom exemplo das melhores ciências disponíveis para enfrentar os impactos da crise climática. 

No fim, nessa celebração do centenário de Milton Santos, continuo maravilhada com essa trajetória que não deixou de reconhecer, em momento algum, seus investimentos para ser um intelectual que contribui com os direcionamentos políticos do país. E, com a parte que me cabe, diante dos desafios que se colocam no Brasil de hoje, permito-me manter vivo o sonho de ser também parte da intelectualidade negra, mas sendo intelectual militante que preserva o saber orgânico, que disputa a “melhor ciência climática” buscando evidenciar que não aceitaremos continuar morrendo primeiro e construiremos nossa cidadania dentro dos territórios resilientes também construídos por nossas mãos.


Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés

Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais negros do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.

A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.

Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.


Referências:

  1.  Caso George Floyd que ocorreu em 2020 e gerou a escalada de mobilizações em torno da agenda racial e provocou espaços de maior visibilidade para pessoas negras no Brasil e no mundo. Ver em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/05/27/caso-george-floyd-morte-de-homem-negro-filmado-com-policial-branco-com-joelhos-em-seu-pescoco-causa-indignacao-nos-eua.ghtml  ↩︎
  2.  Disponível em: https://www.miltonsantos.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/As-cidadanias-mutiladas_MiltonSantos1996-1997SITE.pdf  ↩︎
  3.  Faz alusão a frase de Milton Santos no texto: “Digo-o por ciência própria. Não importa a festa que me façam aqui ou ali, o cotidiano me indica que não sou cidadão neste país” – p.134 ↩︎
  4.  Ver mais sobre essa definição em: SILVA, Denise Ferreira da. Homo Modernus: para uma ideia global de raça.1. Tradução Jess Oliveira, Pedro Daher. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022. 480 ↩︎

Thaynah Gutierrez Gomes tem 26 anos e é nascida e criada no extremo leste da cidade de São Paulo. Administradora pública formada pela FGV-EAESP, pós-graduada em Transição Energética e Direitos Humanos pela CLACSO Equador e mestranda em Administração Pública e Governo na FGV-EAESP. Atua como assessora de clima e racismo ambiental em Geledés – Instituto da Mulher Negra e é secretária executiva da Rede por Adaptação Antirracista. Pesquisa o legado do movimento negro na luta socioambiental e climática, focando nos saberes das matrizes africanas e suas práticas ambientais.

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