O que a labareda chama

Sou das metáforas. E estou em luto, como qualquer ser humano que entende história como memória e riqueza de todo mundo; não só de uma parte. Morreu meu avô sábio. Morreu queimado. Foi isso. Sensação de parentesco, de dor num lugar de origem, num lugar de linhagem, num lugar de eixo. Tronco. Não preciso falar aqui das perdas objetivas nos quesitos raridades, obras de arte, relíquias de bens inestimáveis. Nem preciso gritar que só a Cidade do México tem quase duzentos museus e um notável acervo étnico na sua instrução maia, inca, na sua estrutura. Tal qual alguém que está sempre lustrando o alicerce, cuidando pra que aquilo não deixe de brilhar e de vibrar, e de estruturar tempos futuros, vidas futuras, gerações futuras. O segredo da história é que ela é um passado que educa no presente. Isso é muito chique do ponto de vista da utilidade de uma ciência,uma arte. O incêndio no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, onde meu pai nos levou vindos de Vitória dizendo: “Rio de Janeiro é aula de cultura, educação cultural”, encheu de labaredas meu peito. Me atingiu.

Por Elisa Lucinda, do Jornal do Brasil 

Reprodução/Facebook

Mas trata-se de uma grande metáfora, o fogaréu. Quando denunciamos que este governo vem produzindo um desmonte em nossos avanços, queríamos nos referir a esse olhar-ação de desprezo pela cultura. Este incêndio é o cinismo, o gargalhar que eu quase escuto. É o descaso desenhando pra quem ainda não entendeu.

“Cultura não serve pra nada”, esse é o pensamento que fez nossa cultura perder status de ministério e que não a entende como educação. É uma dicotomia burra, cruel e letal, essa que separa as duas. Pensa aí: sem arte, quem é que aguenta? Quem é que aguentaria? Se temos as flores, por que desenhamos as flores? Por causa do simbólico. Precisamos do simbólico pra existir. O simbólico traduz o impacto de existir; que não é bolinho não! É uma experiência de solidão dentro do coletivo e, ao mesmo tempo, uma experiência coletiva dentro de um destino que, efetivamente, é solitário: na hora das decisões, na hora de nascer, na hora de transar, na hora de parir, na hora de decidir que caminho seguir, na hora final. Então é uma experiência solitária dentro de um coletivo que, quanto mais gregário, melhor. Isso que é existir. Quem segura essa onda? A arte. A arte pega aquele casal que já não transa há muito tempo e põe no teatro. Aí o casal vai ver a peça e toma uma decisão. Ou trepa ou se separa. E o museu é esse lugar sagrado que guarda as traduções artísticas da história, além de descobertas científicas milenares.

Nós somos um povo acostumado a tais chamas. Não estamos estreando essa dor. Não que gostemos, mas somos acostumados a não senti-la. Além disso, fomos treinados. Nós fomos ensinados a adorar o nosso algoz. O que são os escoteiros, se não pequenos bandeirantes?! E o que são os bandeirantes, se não máquinas de matar escravizados e de destruir quilombos? Só que a gente não sabia. Não estudamos isso direito. Também não sabemos ainda o que era um quilombo. Isso foi queimado. Rui Barbosa o fez. Não era só um cemitério de escravos o navio negreiro, era também um cemitério de nomes. Os portos de comércio humano dos corpos negros retirava-lhes logo os nomes. Um cemitério de identidades. Pelo menos uma violenta tentativa. Não é a primeira vez que queimam os herdeiros de Daomé. A existência de Luzia não só não interessa aos povos dominantes, como sua incineração deve agradá-los, pois há um mal-estar arqueológico e eurocêntrico na figura de Luzia como a primeira mulher, e negra, como o primeiro ser humano das Américas. Luzia trazia esse incômodo. Certamente alguém antropologicamente racista e misógino comemorou a destruição da prova irrefutável de nossa gênesis negra sul-americana. E agora dorme em paz sobre os tiros que mataram Marielle, sobre os tiros que retiram vidas negras todo dia, e vai para sua igreja rogar por ele, Amém!

Porém, das cinzas renascemos e estamos recriando nossos nomes. Atenção! Aí vem a eleição.De olho nos planos de educação e cultura de cada um e suas intenções com a imensa minoria. Pequenas e grandes ações ou bravatas palavras podem esconder funestas intenções. Portanto, pesquise as ações de seu candidato. Verifique se, em sua prática, aparece o valor das ditas minorias,o compromisso em oferecer cultura e de que maneira. Estamos vivos, não queremos mais ser queimados.

Sou das metáforas. Sou Luzia.

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