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O que o colorismo diz sobre as relações raciais brasileiras?

Herança direta do modo de agir/pensar racista e escravocrata, o glossário colorimétrico da tez humana revela o mais tenebroso espectro de todos os matizes: a cor do invisível

por Flávia Rios / Ilustração: Indio San para o Portal Geledés

Episódios como os protagonizados por Fabiana Cozza, cantora paulistana constrangida a não interpretar a sambista carioca Dona Ivone Lara (1922-2018) no musical homônimo, ou a da atriz Taís Araújo que também teve a coloração da pele questionada para dar vida à personagem da cientista

Joana D’Arc de Souza, tomaram a mídia de assalto nos últimos tempos. Nomeado como “colorismo”, o tema deixou muitas pessoas com a pulga atrás da orelha. Perplexos, muitos acharam que o tema era superficial demais para demandar tanta energia das pessoas. Muitos, porém, pas- saram a se perguntar: afinal, seriam essas intervenções públicas pa- trulhas ideológicas? Seriam as pessoas pretas ou de pigmentação mais escura ressentidas em relação às de coloração mais clara? Seriam os pardos ainda negros, ou para este último grupo só contariam os pre- tos?Estaríamos caminhando para uma nova dinâmica das relações ra- ciais? Qual foi o capítulo da história do Brasil que nós perdemos?

Bem, para ninguém ficar perdido no meio do caminho, a primeira coi- sa que precisamos saber é que o tema não é novo tampouco uma reali- dade exclusivamente nacional. Se nos serve de consolo, o cineasta Spike Lee já tinha colocado o dedo nessa ferida ao apresentar, no filme “JungleFever” (1991), os dilemas que envolvem a branquitude, o colorismo e a negritude. Na referida trama, um negro retinto, jovem e bem sucedido, écasado com uma mulher negra de pele clara. O protagonista, interpre- tado por Wesley Snipes, se apaixona por sua secretária, que é branca, de origem italiana. O caso se tornou um dilema complexo na trama dos per- sonagens menos por ser um adultério, e mais por infringir as fronteirasdas relações inter-raciais. Isso ganha expressividade na pergunta da es- posa traída dirigida ao marido – que vivia o drama de ter desejado e re- alizado ato sexual com uma mulher branca: “Eu não era suficientemente clara?”. A indagação da esposa joga o refletor para dentro da comunida- de negra estadunidense, revelando seus dramas profundos, diferenças e hierarquizações de cor.

Essa questão talvez nos ajude a entender que o tema do colorismo não pode ser reduzido à mera experiência estética. Estamos, sim, diante de uma questão de enorme complexidade, que merece atenção especial, já que pode a um só tempo falar da forma como o racismo opera em dimensão estrutural – como no plano das interações subjetivas, isto é, nas esferas das representações culturais, no campo das desigualdades,das discriminações raciais – e ainda no campo do reconhecimento, da dignidade humana, do auto-respeito e do afeto.

A pergunta, então, precisa ser apresentada de forma mais nítida: o que é o colorismo? Para defini-lo cabe uma nota sobre o que é cor na sociedade brasileira. Muitos especialistas ao longo do século 20 trataram desse tema. Mas talvez um deles tenha sido o mais certeiro: a cor, noBra- sil, não pode ser entendida apenas como a pigmentação da pele. Ou seja, cor não é apenas a coloração do corpo. Este pesquisadorchamava-se Oracy Nogueira. Para ele, a cor no Brasil poderia ser definida tanto pelas características fenotípicas, como pela condição socioeconômica, espe- cialmente pela combinação de ambas. Nesse sentido, um negro poderia embranquecer caso passasse pelo processo deascensão social. Em certo sentido, é como se operasse a lógica invertida da canção Haiti, de Caeta- no Veloso: “E quase brancos quase pretos detão pobres são tratados”.

Como muitos da sua época, e até hoje é assim, Oracy Nogueira com- parou o padrão das relações raciais no Brasil com o dos EUA. Aqui nos trópicos,dizia ele, nosso racismo é de marca, isto é, vale-se das caracte- rísticas físicas, fenotípicas e estéticas, as quais chamou de cor. Na socie- dade norte-americana, em contraste, o preconceito racial é de origem, de ascendência, onde vale uma gota de sangue. Daí porque a pessoa pode ser negra nos EUA tanto por suas características físicas herdadas – es- tas são fundamentais para a discriminação racial – e mais ainda por sua origem familiar, que passa pelo parentesco sanguíneo e pela cultura, tam- bém critérios para distinção e hierarquização racial.

Dito assim a coisa pode parecer simples. Mas não é. Presentes nas pes- quisas censitárias brasileiras há mais de um século, as categorias de cor(orientadas pela ideia de raça) fazem parte também das nossas informações oficiais. Antônio Sérgio Guimarães nos ajuda a entender melhor o sig-nificado da palavra cor e suas transformações em nosso país, segundo ele: “(…) cor, no Brasil, é mais que cor de pele: na nossa classificação,

a textura do cabelo e o formato de nariz e lábios, além de traços culturais, são elementos importantes na definição de cor (preto, pardo, amareloe branco). (2011:265)

Avançando nas formulações do século 20, o sociólogo acrescenta os “traços culturais” à definição de cor no Brasil, e não apenas os traços fenotípicos. De fato, quando o IBGE fez a pergunta em 2008 sobre o que mais conta para a definição da cor, os entrevistados responderam a cor dapele em primeiro lugar, mas outras dimensões também tiveram ele- vada importância, a exemplo da ascendência e da cultura, explica o so- ciólogo.Essas mudanças vistas no século 21 mostram que ainda valem formulações do século passado, mas transformações têm ocorrido na vida socialbrasileira no tocante às relações raciais.

Controversas recentes que envolvem distinções raciais no interior da população negra, especialmente entre as mulheres, reacenderam o debate sobre a questão da cor no Brasil. O debate fervoroso que não dispensou um consumo enorme de energia foi e é marcado por defesas eataques apaixonados. Algumas perguntas incômodas, no entanto, não podem passar despercebidas: seria o colorismo um tiro no pé?

No passado, quando os movimentos sociais denunciavam o racismo precisavam enfrentar dois grandes desafios. O primeiro deles foi mostrar queembora houvesse um ideal e políticas de Estado em favor da demo- cracia racial e do embranquecimento, na verdade, na prática cotidiana haviadesigualdades, preconceitos, discriminações, enfim, o velho e antigo racismo. Este recebeu em nosso país vários títulos: “racismo à brasileira”, “racismo cordial”, “racismo velado”. O segundo desafio foi construir uma identidade negra positiva, que incluísse pretos e pardos, ou seja, pessoas depele “retinta” e pessoas de “pouca tinta”; ou “negros de pele clara” (nossa versão abrasileirada de “light” e “dark skin”). No livro “Rediscutin- do amestiçagem”, o antropólogo congolês Kabengele Munanga apresenta a pergunta desafiadora: “Como formar uma identidade em torno da cor e danegritude não assumidas pela maioria cujo futuro foi projetado no sonho do branqueamento?”. ( 2004, p. 137).

A resposta veio de uma geração que não tinha dúvidas de que a melhor estratégia para enfrentar o racismo não era dividir a comuni- dadenegra, mas ampliá-la. Os negros não deveriam ser a minoria no país, como o são nos EUA. No Brasil, os movimentos sociais optaram porconstruir a população negra como campo majoritário demografica- mente e culturalmente. Nesse sentido, Gonzalez gostava de dizer que omovimento social negro não era um movimento epidérmico, mas sim um movimento político. A autora mineira, leitora de Simone de Beauvoir, transformou a clássica formulação do torna-se mulher numa excelente inspiração para pensar as relações raciais de modo a criticar a ideologia damestiçagem: “(…) a gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxi- nha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista.” Com isso, a umsó tempo, Gonzalez e sua geração rejeitam qualquer categoria bioló- gica ao adotarem a perspectiva política que fortalece a fraternidade de segmentos racializados.

Passada mais de uma década, o tema volta à baila, Sueli Carneiro escreveu um texto inteiro dedicado a esta questão. A feminista ne- graenfrenta diretamente os frutos de relações inter-raciais. Assim, ao falar dos negros de pele clara, ela indica caminhos de combate àsideologias de mestiçagem, mostrando que “independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter- raciais,as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros.” Novamente, aqui temos a defesa aberta de uma identidade negrainclusiva, que seja capaz de superar os processos de embran- quecimento aos quais a população negra esteve (e ainda está) sub- metida.Nesse sentido, assim como para Gonzalez, a autora paulista Sueli Carneiro vê que o fortalecimento da identidade racial no Brasil deveria levarem conta a multiplicidade cromática e as diferentes formas de ser negro, e não o encerramento ou a essencialização de um certo perfil racial,até porque tal confinamento racial é, na ver- dade, enredar-se na lógica do racismo.

E como o colorismo entra nessa discussão sobre o racismo? O colorismo é um discurso sobre as hierarquizações baseadas no crité- rio de core nas experiências inter e intrarraciais. No caso brasileiro, entre pretos e pardos (estes não sendo apenas resultantes da mis- cigenação entrepretos e brancos, mas também a herança indígena), por um lado; e as relações entre brancos, pretos e pardos, por outro. Em geral, o colorismonão nega a negritude da pessoa parda, mas encerra no critério cromático a autenticidade da representação. De um lado, o discurso sobre ocolorismo encontra legitimidade no fato de que sociedades que se baseiam em um contínuo cromático tendem a dar pequenas vantagens àspessoas negras de pele mais clara, em- bora não necessariamente permitam a este segmento livrar-se do racismo. Nesse sentido, o discursosobre o colorismo nos lembra que o racismo baseado nos processos de embranquecimento busca pre- terir pessoas de tez mais escuras emfavor de pessoas mais claras, mas estas nunca serão tratadas como brancas.

Todavia, também é fato que o discurso baseado no colorismo tem sido utilizado como retórica essencialista – e até oportunista – por parte demuitas pessoas, em situação de concorrência política e disputa por poder intracomunitário. Nem sempre o recurso exclusivo ao colorismo é a melhorforma de se debater o problema das hierarquizações raciais na comunidade negra, já que, como nos ensinam as teorias interseccionais, osatravessamentos das múltiplas formas de opressão – entenda-se aí pelo menos as estruturas de classe e de gênero – seriam determinan- tes paraa construção das identidades dos sujeitos, assim como para as formas pelas quais experimentariam as discriminações e desigualdades. Ocolorismo, portanto, encerra um debate em via de mão dupla, tanto pode nos chamar a atenção para o preterimento das pessoas de tez retinta,mas também pode se tornar uma retórica que reforça a lógica racista, ao invés de fortalecer o antirracismo, ética fundamental para garantir ahumanidade de grupos racializados.

Como argumentei em outro artigo, “quanto mais distante do ideal do branco, deste perfil tido como padrão, menores serão as chances e oportunidades sociais, econômicas e até mesmo afetivas para as pesso- as. Mas é certo também que ser negro de pele clara não é exatamente um privilégio, visto que as diferenças cromáticas no interior da comunidade negra não blindam ninguém do racismo. Nesses termos, o colorismo tam- bémpode ser interpretado em relação ao ideário da mestiçagem. Desse modo, desfazer-se da mestiçagem nunca pode ser um elogio cego à pureza racial, mas deve ser sim um jogo de espelhos em que as diversidades e múltiplas formas de ser negro sirvam para construir pontes, e não mura- lhas.A maior ponte criada pelo antirracismo brasileiro foi tornar os ne- gros – soma de pardos e pretos, segundo categorias oficiais do IBGE – a maioria dapopulação brasileira. Com essa conquista o Brasil tornou-se a maior nação negra fora de África. Compreender os contextos e as histo- ricidades dasideologias raciais – como o embranquecimento, a democra- cia racial e o colorismo – ajuda a pensar como se processam ideologias sobre hierarquiasde cor num país – baseado na pigmentocracia – mas que sempre evitou falar de racismo e dos privilégios dos brancos. Em vez disso, apresentouprojetos de negação das culturas negras e indígenas e suas diversidades internas, fixando, em contraste, o ideal do bom, do belo e do verdadeiro nostermos da branquitude e da cultural euro-ocidental”. (Rios, 2018, p.14-15 ).

Por essas razões, o colorismo parece ser um daqueles temas que nos ajudam a pensar sobre os legados perversos de sociedades coloniais e também sobre a reprodução do racismo nos contextos contemporâne- os, já que pesquisas nacionais revelam que em termos das desigualdades estruturais, pardos aproximam-se dos pretos, e ambos se distanciam dos brancos, quando o assunto é renda, trabalho e educação. Por sua vez,trabalhos mais recentes têm revelado que a percepção do racismo é distinta para os grupos de cor, pardos e pretos, sendo os primeiros menossensíveis à percepção do racismo em contraste com os últimos (Daflon, Carval hães e Feres, 2017).

No campo da representação cinematográfica – onde os desejos se projetam e os estereótipos limitam as multiplicidades da experiência humana – pardos e pretos, por sua vez, estão longe de figurar o ideal de beleza nas películas direcionadas ao grande público. Como mostra Luisa Santanna, dos 10 filmes de maior bilheteria no Brasil no último decênio, pardos e pretos são mobília no cenário de pobreza, perigo e violência, universo distante do território que ocupam brancos que protagonizam esses enredos. É nesse mundo complexo, racialmente engendrado, que o discurso sobre o colorismo nos coloca diante dos limites e dos alcan- ces do antirracismo do novo milênio.

 

BIBLIOGRAFIA

DAFLON, Verônica, CARVALHÃES, Flavio, FERES, João. Sentido na Pele: percepções de discriminação cotidiana de pretos e pardos no Brasil. Revista Dados, Rio de Ja- neiro,2017,

CARNEIRO, Sueli. Negro de Pele Clara, disponível em https://www.geledes.org.br/ negros-de-pele-clara-por-sueli-carneiro/

acessado em 05 de agosto de 2019.

GONZALEZ, Lélia. Lélia Gonzalez: primavera para as rosas negras. São Paulo: UCPA Editora, 2018.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio. Raça, cor, cor da pele, etnia. Cadernos de Campo. São Paulo, n. 20, 2011. p. 265-271. http://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/36801/39523 acessado em 27 de julho de 2019.

NOGUERA, Oracy. Preconceito racial de marca, preconceito racial de origem. Tempo Social, Revista de Sociologia da USP, v. 19. N. 1. São Paulo, 2007. http://www.scielo.br/pdf/ts/v19n1/a15v19n1.pdf acessado em 05 de agosto de 2019.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. Belo Horizonte. Editora Autêntica, 2004,

RIOS, FLAVIA. De qual mestiçagem estamos falando? Reflexões sobre o embran- quecimento, a democracia racial e o colorismo. In Boteco da Diversidade. Sesc. São Paulo.Pp.2-12.

SANTANA, Luiza (2019). A cor do cinema: a presença negra nos filmes de maior bilheteria (2007-2016). Monografia em Ciências Sociais, UFF. Rio de Janeiro. Pp. 70

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