quinta-feira, maio 19, 2022
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O que os Racionais MC’s tem a ensinar ao rock brasileiro?

Maurício Gaia

 

Marcelo Moreira, integrante deste Combate Rock, frequentemente aborda o tema – o isolamento que a cena rock se encontra no Brasil. Bandas tem pouco espaço para tocar, pouca divulgação, poucos shows, pouca visibilidade. Aí, pego e olho para um grupo como Racionais MC’s, que é um dos mais populares e cultuados do país e me pergunto: o que eles podem nos ensinar?

Os Racionais, que estão completando 25 anos de estrada, não tem uma discografia extensa, sempre por gravadora independente ou selo próprio – ao contrário, seu último álbum foi lançado em 2002 (existe a promessa de um novo lançamento neste ano). Eles se recusam sistematicamente a sair na grande mídia – individualmente, Edy Rock e Ice Blue estiveram em programas da TV Globo, mas os Racionais, como grupo, sempre recusaram os convites da emissora (e de outras também – a única exceção foi a MTV, mas ainda assim a atitude foi de confronto, não de confraternização).

O que explica o sucesso dos Racionais, e é neste ponto que o rock brasileiro erra, é que, além do talento, eles se preocupam em estar conectados com o público. As letras falam de uma coisa que o ouvinte, principalmente nas periferias urbanas do país, conhece de cabo a rabo. E se identifica com estas letras. Da mesma forma, o jovem classe média também, mesmo que forma enviesada, entende e canta “Negro Drama”, como se fosse ele o personagem da música. A vida da quebrada faz mais sentido do que qualquer fábula sem pé nem cabeça com fadas, duendes e elfos, não?

Um dos motivos do rock ter estourado no panorama brasileiro nos anos 80 foi que surgiu uma geração talentosa de artistas que cantava algo com que o público se identificava. Além da quebradeira econômica que fez com que os investimentos de gravadoras se reduzissem drasticamente, outra coisa que fez com que o rock nacional fosse colocado de lado foi que muitos destes artistas deixaram de se comunicar com o público. Hoje em dia, o pagode, o rap e até o neo-sertanejo (calcado no country moderno americano, com pitadas de brega e pagode) são mais conectados à realidade do jovem urbano do que o rock, de uma forma geral.

Emblemático é o caso de uma banda que conseguiu muito sucesso nos anos 2000: Los Hermanos. De cara, em seu primeiro álbum, produziram um hit que, ainda por cima, recebeu até uma versão em inglês, na qual ninguém menos que George Harrison se dignou a sair de casa com sua guitarra para gravar um solo. Depois disto, a banda passou sistematicamente a se recusar a tocar a tal música em shows e começou a fazer um som auto-indulgente e pretensioso que só o seu fiel fã-clube acompanhava. Tirando estes fãs, quase ninguém mais se lembra de Los Hermanos, ainda bem.

A busca pelo sucesso não é fácil, ainda mais quando não se busca o sucesso fácil. Mas no caso dos Racionais MC’s, sem concessões ao mercado, sem aparições no Fantástico, o sucesso popular e reconhecimento artístico veio. Além do talento, bastou estar conectado ao seu público. Este tipo de conexão ou compreensão é o que mais falta à maior parte das bandas brasileiras.

 

 

 

Fonte: UOL

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