segunda-feira, setembro 20, 2021
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O racismo e a sexualidade: o caso de Nick Minaj e a desumanização da mulher negra

De Diana Ross a Nick Minaj, a mulher negra é puro estereótipo sexual no imaginário de homens negros e brancos. É o mito da “morena brejeira”, da negra fogosa que tudo topa e cujo fôlego não acaba nunca. Aquela que está sempre pronta. O suporte de esperma do senhor de engenho de ontem e de hoje, ainda. Não sou tuas negas, diz a expressão racista de cunho sexual e origem escravocrata. A cada dez homens que são aceitos(quando e se são aceitos e não necessariamente nessas quantidades é óbvio!) em nossas alcovas fetichizadas e aparentemente permissivas, vinte terminam dizendo da maneira mais nojenta possível, considerando que a capacidade de um homem ser nojento é infinita: “Sempre quis ter uma negra”.

 Por Joice Berth, do Imprensa Feminista.

Há alguns anos atrás, uma famosa marca de cerveja, conseguiu expressar da maneira mais porca o pensamento que ilustra o a hiperssexualização cravada em nossa pele tanto quanto a nossa subjugada melanina. A campanha dizia: “É pelo corpo que se reconhece uma verdadeira negra!”. Quando confrontados, a resposta foi que era uma homenagem as formas “exuberantes” e “exóticas” das mulheres negras. Atentem que nas duas palavras usadas como adjetivos observamos o exagero, o hiper, o anormal. Campanhas e protestos ecoaram pelo Brasil inteiro e órgãos de defesa aos direitos humanos bem como o movimento negro e feminista se articularam somando-se a voz ruidosa das redes sociais para barrar tamanha ofensa, e olha que estamos falando de uma indústria que direciona sua publicidade contra nós mulheres nos desumanizando ao extremo em suas propagandas sexistas e criminosas, que só são toleradas porque o deus dinheiro tudo permite e a todo tipo de absurdo se curva.

cerveja

Fato histórico é que se, mulheres brancas mal conseguem conviver com o assédio canalha que vivenciam diariamente, nós mulheres negras simplesmente não suportamos mais sermos tradadas como animais no pior estilo buceta/teta.

Se é impossível por meio da empatia conceber que temos desejos sexuais tanto quanto uma mulher branca e que estes podem ou não estar associados ao sentimento e necessidade de afeto e aconchego emocional, mais que ainda assim devem ser entendidos como uma nuance do comportamento sexual HUMANO, para além disso existe o respeito com mães, esposas, profissionais, irmãs, tias, sobrinhas e filhas, amigas e namoradas, que além de lutarem sem escolha, incansáveis e continuamente, com todas as forças contra um sistema que nos poda, nos nega espaço, nos invizibiliza e viabiliza nossas neuroses íntimas, ainda tem que lidar com a patologia enrustida dos seres masculinos que acham que podem nos rebaixar a coisas esporráveis. É revoltante ao longo da história, perceber que não somos desejadas, não importa o quanto possamos ser desejáveis e sim, somos como toda representação humana pode ser. Mas somos por obra e graça do racismo colocadas na vala comum da sexualidade descompromissada e abusiva. Façamos um recorte no campo das artes, mais precisamente da música, que é acessível a assimilada pela massa popular. Se pedirmos para exemplificar símbolos sexuais femininos incorporados por mulheres brancas teremos um volume bíblico de nomes compilados que, apesar de fazerem parte de cenários passados, ainda passeiam nos sonhos masculinos. SONHOS. Aquilo que é inatingível e por isso mesmo hipervalorizado, calorosamente desejado. São musas, com a devida consideração da manipulação patriarcal ao termo. E quantos nomes ocuparam o mesmo espaço nessa cultura de valorização sexual, ainda que objetificadora, que possuem o fenótipo afrodescendente? Quantas artistas negras são musas? Se alguém se lembra, na música pop Beyonce não é novidade, apesar de todo seu valor musical e estético. Já passaram pelo panteão da indústria sonora norte-americana nomes bombásticos como Tina Turner (com suas pernas perfeitas!), Diana Ross (a Afrodite Negra), Minnie Riperton ( com seu estilo angelical), o furacão Donna Summer e várias outras mulheres fabulosas do clã da lendária Motown. Nos anos 80 e 90, temos a Patra e sua sensualidade agressiva, as imponentes meninas do Salt’n’Pepa e as estilosas mulheres do Em Vogue. Isso só para economizar página. Poderíamos citar muitas outras. Porque nenhuma delas, ocupa o status de desejável? Porque são negras e negras não são desejáveis pois são “possuíveis”, reza a lenda branca. Não sou tuas negas! Dizem as bocas sujas pela latrina do pensamento racista atuante. Tuas negas são acessíveis, porque assim como no tempo da escravidão, nos pertencem, não é mesmo; racistas? E se observarmos o caso Nick Minaj? A dona da Anaconda foi homenageada com uma estátua de quatro. HOMENAGEADA? Não, foi intimada a lembrar a todas nós, mulheres negras, que estamos à disposição dos racistas porcos e nojentos para sermos degustadas quando e como eles quiserem. Porque a Madonna não foi HOMENAGEADA dessa mesma forma. Sim, aquela Madonna de ‘Justify my love’ e ‘Erotica’, que pediu carona numa movimentada avenida completamente nua? Porque ela é revolucionária, inclusive para feministas brancas, e Nick Minaj é apedrejada e humilhada com a desculpa covarde de que estaria sendo homenageada(inclusive por feministas brancas)?

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Claro que não há nada de errado em transar de quatro. É só uma posição e que agrada muito mais do que parece. Toda prática sexual consentida é mais que gostosa, é necessária. Mas o machismo nos faz acreditar que seria humilhante a transa nessa posição. Porque a mente abusiva do homem codifica essa posição como submissão e independente da constatação favorável ao orgasmo que a anatomia sinaliza, eles em sua soberba e patética alienação sexual.

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