O racismo e seus horrores: trabalhadora doméstica grávida sofre agressões de patroa no MA 

08/05/26
Por Beatriz de Oliveira
A empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos foi presa preventivamente em Teresina (PI)

Em Paço do Lumiar (MA), a trabalhadora doméstica Samara Regina, de 19 anos de idade, denunciou sua ex-patroa, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, após relatar ter sido vítima de agressões. Na data da violência, a vítima estava grávida de cinco meses. Segundo informações divulgadas pelo portal g1, o espancamento ocorreu no dia 17 de abril, quando a jovem foi acusada pela agressora de roubar um anel. 

Nesta quinta-feira (7), a Justiça decretou a prisão preventiva de Carolina Sthela, que foi presa em Teresina (PI). Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA), a empresária foi detida quando tentava fugir.

Em entrevista à TV Mirante, afiliada da TV Globo no Maranhão, a vítima contou ter sido puxada pelos cabelos, derrubada no chão e agredida com socos e murros. Durante as agressões, ela tentou proteger a barriga. 

Após mais de uma hora procurando a jóia que a patroa dizia ter sido roubada, a jovem encontrou o objeto em um cesto de roupas sujas na residência. Ainda assim, o espancamento continuou e, de acordo com o boletim de ocorrência registrado pela vítima, Carolina Sthela a ameaçou de morte caso recorresse à polícia. 

O caso veio à tona após a TV Mirante ter acesso à áudios que Carolina Sthela enviou em um grupo de mensagens. “Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos. Tudo que vocês imaginarem de doidice, era eu e ele fazendo”, relatou em um dos áudios, confirmando que teve ajuda de um homem durante as agressões. 

“Eu acordei era 7h30. Aí eu (disse): ‘Samara, arruma logo essa cozinha’, que eu também não sou besta”, comentou sobre a própria fala. E continuou narrando as frases ditas à funcionária: “‘que eu vou receber um amigo meu aqui em casa’. Aí ele chegou e eu disse ‘entra, amigo’. Ele (o homem) já veio com uma jumenta de uma arma, chega brilhava”. 

Samara Regina trabalhou para Carolina Sthela por pouco mais de duas semanas e recebeu R$ 750, pagos de forma fracionada. Nesse período, cumpriu uma jornada de quase 10 horas, acumulando as funções de limpar a casa, cozinhar, lavar, passar roupas e cuidar de uma criança de seis anos. 

O Sindicato Estadual dos Empregados Domésticos do Estado da Paraíba publicou uma nota repudiando o acontecimento. “Considero inadmissível que trabalhadoras domésticas ainda sejam vítimas de agressões, humilhações e desrespeito dentro do ambiente de trabalho. Nós defendemos que toda trabalhadora merece dignidade, respeito e proteção dos seus direitos. Quando uma companheira é violentada, todas nós somos atingidas, porque isso revela uma realidade histórica de exploração que ainda persiste em muitos lares brasileiros”, declarou a presidenta do sindicato, Glória Rejane.

Imagens da trabalhadora após agressão – Divulgação PCMA

Desdobramentos do caso até aqui 

A trabalhadora registrou boletim de ocorrência na Casa da Mulher Brasileira e fez exame de corpo de delito. Depois disso, a polícia foi até a casa da acusada, mas, segundo os áudios da própria Carolina, o policial que atendeu a ocorrência era amigo dela.

“Parou uma viatura no meio da rua, eles vieram pra de manhã mesmo aqui. Mas veio com um policial que me conhecia. Sorte minha, né? E sorte dela também. Aí eu expliquei pra ele o que tinha acontecido. Aí ele disse: ‘Carol, se não fosse eu, eu tinha que te conduzir pra delegacia, porque [ela] tá cheia de hematoma’. Aí eu disse: ‘era para ter ficado era mais, não era pra ter saído viva’”, afirmou. 

Em entrevista, a vítima relatou que a agressora mal foi interrogada, ao passo que os agentes a questionaram repetidas vezes se ela tinha pegado o anel. “Foi uma conversa deles de cinco minutos apenas, eu já sabia que não ia dar em nada”, disse à TV Mirante. 

Quatro policiais militares que atuaram no caso foram identificados e afastados de suas funções. Segundo a Polícia Civil do Estado, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão abriu uma sindicância contra os suspeitos. 

Em nota enviada ao g1, a Carolina se defende da seguinte forma: “registro que repudio qualquer forma de violência, especialmente contra mulheres, gestantes, trabalhadoras e pessoas em situação de vulnerabilidade. Justamente por reconhecer a gravidade do assunto, entendo que tudo deve ser apurado com seriedade, equilíbrio, provas e respeito ao devido processo legal”. 

Carolina acumula mais de dez processos. Em 2024, por exemplo, foi condenada por calúnia após acusar falsamente a ex-babá do filho de roubar uma pulseira de ouro. Ela foi condenada a seis meses de prisão em regime aberto, mas a pena foi substituída por prestação de serviço comunitário e pagamento de R$ 4 mil por danos morais.

Compartilhar