O Rap e seus diferentes estilos. Saiba o que cinco MC’s pensam sobre o tema

Elaine Mafra

 

Underground, Gangsta, Gospel, Pop… São tantas as subdivisões existentes dentro do rap que resta saber se as diferenças terminam no simples fato de que cada grupo ou MC canta da maneira que se identifica, ou se a diferença na maneira de cantar é apenas um dos itens que faz com que o Rap não se unifique e se divida cada vez mais.

O pensamento ditador daquele que impõe o seu rap como o melhor, cria casulos, onde representantes de um “estilo” se isolam dos outros e começam a agir como narcisos, apontando o dedo ao redor, julgando tudo que não se iguala ao seu como erro.

Para saber o que representantes do Rap na atualidade pensam sobre esse tema, o Portal Rap Nacional trocou uma ideia com Emicida, Douglas (Realidade Cruel), DBS, Cleber (Ao Cubo) e C4bal.

Rótulos, Barreiras, Divisões e afins

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O rapper Emicida começou sua carreira nas rodas de Freestyle e canta um “estilo” de Rap denominado ou rotulado por alguns como: Underground. Para Emicida as divisões existem muito mais na cabeça das pessoas do que dentro do Rap. “As pessoas criam barreiras, elas se escondem atrás desses rótulos, acho que é uma burrice que soa como se alguém fosse

mais que alguém dentro de um certo contexto, você pode falar de 500 mil temas diferentes, pode usar 500 mil influências diferentes, mas no fundo a essência é o rap e só”, afirma.

Já Cleber do grupo Ao Cubo, um dos grupos mais representativos no cenário Gospel, afirma que com o tempo foram aparecendo novos adeptos e criadores de novos estilos que vieram somando com os que já existiam. “Todos esses subtítulos somam para cultura hip-hop, beneficiam o movimento num todo, nem que seja de gota em gota”, comenta.

No ponto de vista do rapper DBS as divisões existem e é uma consequência natural de qualquer estilo musical. “O rap é o estilo musical mais mutante que existe, ele se transforma e se adapta a cada país e região, com sua diferença de crença, tradições e história, em um país como nosso que tem de tudo um pouco é natural as divisões de estilo”, ressalta.

A consagração do grupo Realidade Cruel se deu pela maneira agressiva de cantar, as principais marcas deste grupo do interior de São Paulo são as letras e a postura intensa no palco. RC é considerado um grupo Gangsta e para Douglas, líder do grupo, as divisões existem mais na maneira como cada um produz. Para ele, a divisão e atribuição de rótulos não representam nada de errado. “Não vejo como prejudicial, mas sim como identidade. Cada grupo tem uma identidade”.

C4balé visto pelo grande público como defensor do Rap Pop. Isso porque muitos consideram que as músicas feitas por ele fogem das raízes. Ao contrário de Douglas, C4bal se diz contrário aos rótulos “Rotular é julgar, mas só Deus é meu juiz. Eu não me identifico com nenhum rótulo, não me prendo a dogmas/paradigmas, faço o que quero e que se foda o que pensam de mim”, disparou.

As causas e consequências das subdivisões

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Ao que tudo indica o rap teria muito a ganhar com todos seus “estilos”, que na prática deveriam existir somente para agregar valores ao movimento hip-hop. Mas o problema acontece quando as subdivisões não são respeitadas pelos próprios integrantes e adeptos e cria-se um clima tenso.

Para DBS, Douglas e C4bal as diferenças ganham proporções indesejadas quando perde-se o respeito. “O problema maior que vejo nisso é quando as regras que dizem ‘o meu direito começa onde termina o seu’ não são respeitadas, começa rolar uma parada de impor que esse é certo, e se o seu não é igual ou próximo, então não serve, este conceito é o que fode, você fala de igualdade nas letras , de respeito, mas não respeita o próximo que tem ideias e ações diferentes das suas”, constata DBS. 

Douglas também prioriza o respeito entre as partes envolvidas. “O que não pode haver é desrespeito. Eu particularmente tenho bom relacionamento com todo mundo. Desde os das antigas como com a nova geração, independente de estilo”.

Um respeito maior pelo trabalho do próximo e pelas diferenças existentes em qualquer estilo musical, são as principais formas apontadas por C4bal de vermos o Rap melhor, engajado na máxima do respeito cantado em diversos refrãos. “Só porque você não concorda, não quer dizer que é errado e só porque você não gosta, não quer dizer que é ruim, tem espaço pra todo mundo”.

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Essas barreiras que muitas vezes impossibilitam o rap de chegar são para Emicida causadas pelo fato de um querer ser melhor que o outro. “Eu acho que em partes se deve a essa carência das pessoas que querem ser melhor que os outros, acho até num certo ponto uma arrogância de algumas pessoas acharem que um estilo é melhor que o de determinada pessoa, na essência os melhores são a mesma coisa, quanto mais a gente se dividi, mais seremos vistos não como uma cultura que caminha há anos, mas como uns moleques que tem um monte de picuinha entre eles”.

Emicida constatou ainda que com este posicionamento nunca o rap formará uma rede forte e consistente de música. “Chega em outra cidade, os caras lá em outra cidade, ou em outro bairro, tem uma visão de que não vão escutar fulano porque é Gangstar, ou Underground, isso é uma parada muito burra, você se manifestar dessa forma sem ouvir o outro lado, você bater de frente, usar um argumento desses que você não conhece, a realidade é a essência do rap, que nós todos fazemos”, disse Emicida.

Para Cleber a segregação entre os estilos pode prejudicar o rap pois o movimento funciona como um corpo onde existem vários membros que são importantíssimos para seu desenvolvimento. “Se um braço se rebelar e tentar se separar do restante, o corpo todo sente sua falta e começa a perecer. Existe um texto bíblico que diz que não é possível andar dois juntos se não estiverem de acordo, tudo que traz divisão não é bom, precisamos de grandes homens e mulheres pensantes, que não pensem somente em seu próprio umbigo e sim no corpo inteiro”, declarou.

O muro de Berlim do Rap Nacional começa a ser derrubado

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A passos lentos as barreiras que subdividem o rap começam a cair. Uma avalanche de talentos de várias idades, regiões diferentes e principalmente pensamentos peculiares, vem dando uma nova forma ao canto falado.

Falas e críticas desconexas tem dado espaço a uma análise com um pouco mais de respeito ao trabalho do próximo, principalmente partindo do principio que vivemos em constante mutação do meio, que é considerado o principal elemento de produção do rap. Assim, as influências que levaram Thaide a fazer o rap “Homens da lei”, não podem ser hoje, 20 anos mais tarde, as mesmas influências que o levaram a escrever a música “Então toma”.

Uma cultura que cultua os mesmos ídolos sempre, tende a se tornar uma cultura com prazo de validade. Porque quando esses ídolos não estiverem mais presentes, quem dará continuidade ao rap?

Para Emicida pessoas antes consideradas diferentes encontraram semelhanças ouvindo suas músicas, e esta união deu origem a uma visão menos estereotipada do Rap “Algumas dessas barreiras estão caindo, eu mesmo não acredito em Nova escola e Velha escola, uma vez eu vi o Baambata falando que existe uma escola só, que é a escola verdadeira, concordo com essa parada plenamente, o que deve existir é o respeito mutuo, concluiu.

Cleber acredita que somente a união poderá derrubar essas barreiras. “Precisamos unir nossas forças e conhecimentos, sem orgulho, nem marra. Ninguém nasce sabendo de tudo, ainda mais em nosso meio onde 97% não tiveram oportunidade e nem condições de se preparar tecnicamente com cursos musicais, e administrativos”.

Quanto mais houver união entre as partes do Rap mais o público irá ganhar, foi o que afirmou Douglas. Ele garante que não tem preconceitos por estilos diferentes dos seus. “Eu mesmo vou aos shows do DBS e ele não é gangsta. Já cantei e dividi palco com Emicida, assim como com Ao Cubo, e eles não são gangsta. Existe muita pluralidade e diversidade dentro da nossa conjuntura e isso é bom, pois da aos fãs múltiplas opções de escolha”.

Controvérsias….

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Diferente de Cleber, Emicida e Douglas, há aqueles não vêem o fim dessas barreiras como algo próximo. C4bal, por exemplo, acredita que a união de “estilos” esta longe da nossa realidade. “Não acredito que veremos unificação no Rap brasileiro, mas a vida é feita de ciclos, os dinossauros estão saindo de cena e a nova geração ta chegando. Eu fiz minha parte, mas não depende só de mim , torço por todos que correm pelo crescimento/desenvolvimento coletivo, não por suas “panelas. Sei que os leitores desse site não vão concordar, na verdade, não vão entender, mas algum dia, tudo isso fará sentido”, conclui.

Não existem razões lógicas para que o rap não seja simplesmente Rap, mesmo que os “estilos” diferentes de cantar existam, um movimento que já sofre com a segregação, não pode se deixar levar pela segregação. Não podemos nos ferir com a mesma faca que somos feridos, o respeito pela individualidade e pela liberdade deveria [poderia] ser a primeira linha de raciocínio dos que de alguma maneira fazem parte desta cultura de rua.

O sentimento implícito nas linhas deste texto é cantado pelo MC Projota na música 64 linhas, onde entre outras frases ele dispara “Cada um fazendo a sua parte, sem discussão, sem divisão, pela multiplicação da arte”.

Douglas enfatiza que o rap precisa expandir seu horizontes e olhar para onde nunca ninguém olhou e ver ali uma oportunidade. “Um dia o Brown falou pra mim que nós nos dividimos muito, brigamos muito, quase sempre pelo farelo do bolo, quando na verdade a cereja está lá, intacta. Precisamos arriscar mais, pensar grande e termos ambição pelas nossas conquistas”, finaliza.

Texto: Cristiane Oliveira

 

Fonte: RapNacional

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