segunda-feira, novembro 29, 2021

O Real – Dois Extremos

Em meio à grande violência policial contra negros e pobres, o PT-BA apostou numa major da PM como candidata à prefeitura de Salvador. A menos de dez dias da eleição, um crítico de cinema, João Paulo Barreto, divulgou o artigo “Força assassina”, no Caderno2 do jornal “A Tarde” (edição de 6/11/2020, p. B7).

A população de Salvador é testemunha cotidiana dessa força (fúria) assassina e inúmeros episódios poderiam aqui ilustrá-la.

A coluna de Barreto trata do documentário “Sem descanso”, dirigido por Bernard Attal, que está sendo exibido em duas salas de Salvador. Segundo ainda a coluna de Barreto, Attal é francês e vive no Brasil desde 2005.

Não vi ainda o documentário, não me atrevo a tanto em meio a uma pandemia. Mas a resenha de Barreto chamou a minha atenção e gostaria de poder ver o documentário, assim que as condições permitirem.

A violência registrada por Attal, facilmente visualizada, a partir da descrição de Barreto, por todos que não assistiram ao filme, como eu, abateu Geovane Mascarenhas de Santana, de 22 anos. A abordagem do jovem pela PM foi feita à luz do dia, no bairro da Calçada, em 2 de agosto de 2014. A abordagem policial violenta foi flagrada por uma câmera. Os policiais levaram a moto e sumiram com o corpo.

Podemos nos referir a situações semelhantes em todo o país. São tantos os casos que podemos no espaço criado por nossa fantasia projetar uma representação fidedigna que costure infinitos recortes sangrentos.

Ocorre-me que algo que parece caracterizar o documentário de Attal, pela descrição feita por Barreto, é a procura do corpo de Geovane feita incansavelmente por seu pai Jurandy, o que desloca a narrativa mais comum, que situa no centro dessa procura, quase sempre, a figura materna.

“Jurandy passou por delegacias, batalhões, hospitais, instituto médico legal e, como o próprio nome do filme diz, não descansou até ter notícias do filho. A confirmação do assassinato surgiu após partes do corpo decapitado de Geovane terem sido encontrados em pontos distintos do subúrbio de Salvador, em uma tentativa covarde e monstruosa de acobertar as atrocidade cometidas dentro do batalhão da polícia, um órgão do Estado que deveria proteger sua população, mas a assassina abusando do poder que esse mesmo Estado lhe confere.”

Entretanto, Bernard Attal não conseguiu trazer para seu documentário a fala do governo e da polícia, como desejava e o diretor referiu-se a negativas, encontros desmarcados e desistências de última hora. “A postura desse governo é de simplesmente não tratar o problema da violência policial.”

As arbitrariedades da polícia são, ninguém duvida, uma demonstração poderosa de força. Mata, esquarteja, dá sumiço. As autoridades, como vimos, recusam-se a falar sobre isso. Uma candidatura vinculada à PM não pode ser explicada fora dessa realidade. O que vimos através da câmera, o que sentimos, nossas percepções, nossos sentimentos. E mais: Geovane não era uma fantasia, não era parte da subjetividade de Bernard Attal, tinha mulher e filha. Alguém que, abordado violentamente pela polícia, desaparece à luz do dia é parte da experiência vivenciada pelo coletivo. Ele é parte integrante da realidade.

Na propaganda eleitoral, a candidata major Denice não parecia sair desse tempo histórico, mas de uma realidade de fantasia, onde não habitam Jurandyr e os demais familiares de Geovane. O sequestro, a tortura, a mutilação e as negativas desaparecem e a campanha eleitoral, separada de tudo isso, trouxe a PM sorridente, transbordando de cuidado e de proteção.

Uma campanha eleitoral pode ser surpreendente a ponto de nos fazer duvidar de nossa apreensão do real? Falo do real concretamente vivenciado por uma coletividade, o real ordinário da farmácia, padaria, cemitério, parada de ônibus, muriçoca e desemprego. A candidatura da major Denice é um modo de o partido dizer que não está politicamente envolvido com a luta para reverter esse quadro de violência e desumanidade?

O filme de Attal quer chegar à verdade. Onde mesmo queria chegar a campanha da major Denice? Onde mesmo pretendia chegar o Partido dos Trabalhadores?

Edson Lopes Cardoso é coordenador do Irohin – Centro de Documentação e Memória Afro-brasileira.
** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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