terça-feira, novembro 30, 2021
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Sobre mordaças e Chicoachings Contemporâneos

Ao procurar emprego no linkedin, me deparei com essa publicação da https://www.artemisia.org.br/empregabilidade/ que trouxe o seguinte excerto:

“Reitero a defesa de Saadia Zahidi, diretora-administrativa do Fórum Econômico Mundial, quando diz que as organizações bem-sucedidas e inovadoras são aquelas alimentadas pela diversidade de opiniões, habilidades e experiências de vida. Garantir justiça social, paridade de gênero, inclusão das pessoas com deficiência, das pessoas LGBTQIA+ e respeito à diversidade humana precisa ser o ‘novo normal’ que deve emergir da crise provocada pela covid-19.”

Ontem assisti uma palestra incrível com Raj Sisodia que me fez acreditar que o que eu penso em relação a novas relações entre colaboradores e empresa, não podem se manter da forma que estão.

Passei a noite sem dormir, assim tem sido toda essa semana. Preciso falar sobre isso. E toda vez que sinto essa necessidade, a mordaça volta a minha boca.

Fui demitida por questionar o salário que recebia e o meu cargo. Em suma, fui contratada como analista e exercia a função de supervisora, criação, aplicação de treinamento, feedbacks além de gestão de equipe.

A empresa que eu fui desligada prega diversidade e liberdade de expressão. Contraditoriamente, quando eu queria falar, ouvia de meus pares que era melhor ficar calada, pois assim como outras pessoas, ao questionar, seria demitida da equipe.

Mas de verdade eu não acreditava que isso poderia acontecer pois eu fui escolhida como uma das embaixadoras de cultura da empresa, estava em diversos projetos e uma semana antes do meu desligamento, fiz um vídeo pra ser usado como exemplo de impacto social. Com isso, acreditei, que tinha voz então enviei todas as minhas questões para a CEO, pois eu estava convicta do discurso que ajudei a construir e que fez a diferença na minha vida em diversos pontos. Acreditei que era um espaço seguro e de visibilidade, mas o que eu não sabia é que minha voz só era ouvida quando eu trazia ideias que gerariam lucratividade, engajamento e melhor posicionamento para a marca.

A CEO que sempre se mostrou aberta a críticas não me respondeu e no dia seguinte fui desligada.

Naquele momento compreendi o que já haviam me falado: empresas atuais se dizem organismos e não mais engrenagens de uma máquina, sistemas holísticos que levam em consideração a posição de seus colaboradores, mas fui comunicada do meu desligamento, assim, como um robô. Eu parei de produzir o discurso pelo discurso em nome da lucratividade que utiliza das questões de empoderamento feminino e inclusão. O conhecimento que deveria libertar, me serviu como algoz.

Por ser organismo e acreditar que a empresa era assim constituída, criticamente conduzi minha fala para nossas falhas internas, eu entendia como falhas, mas vejo que são estruturas que não devem ser questionadas e que propósitos são construídos para que a visão da marca seja a melhor possível e para atrair mais lucratividade em processos B2B e B2C.

A mordaça e o chicoaching (termo que acho asquerosamente pesado) me fizeram perder o emprego na empresa dos sonhos e desde então tenho passado madrugadas sem dormir, crises de ansiedade intensas, horas pensando, eu estou sozinha com crianças em meio a uma pandemia e sem emprego: Porque não agi como um robô e segui trabalhando sem questionar? Porque acreditei que seria ouvida como mulher que se posiciona frente a desigualdades? Chegou a passar na minha mente a questão: Como você questiona seu salário em meio a uma pandemia? Pensei até que seria ingratidão por estar nessa empresa “tão incrível”?

Mas eu sei o porque. Porque eu realmente acreditava no propósito, acreditava que eu tinha voz e que a empresa era realmente “nossa” (doce ilusão e das mais inocentes, não é?) e aqueles que estavam comigo, me dizendo fique quieta, pois essa voz não existe estavam enganados. Para esses peço desculpas, pois essas pessoas realmente trabalham por esse propósito todos os dias e eu via isso em cada conversa, cada ideia, cada momento em que junto com eles via o resultado das ações que construímos e elas continuarão construindo. Pra esses peço desculpas porque posso ter exposto suas frustrações quando escrevi pra CEO da empresa e disse a ela que vocês se sentiam como eu e não acreditavam que ela seria de verdade aquela pessoa que ela expõe todos os dias.

O que de fato aprendi então é que personagens são criados, mas a carcaça racista, machista, ainda se mantém, mesmo em empresas que se conectam a esse discurso que antigamente garantia direitos e hoje garantem lucratividade e melhor posicionamento de marca no mercado.

Decidi que não vou mais me calar. Eu não vou enxergar todos esses pontos e não denunciar. Então quando decidi buscar os meus direitos, me foi dito que era loucura. Loucura, pois, caso expusesse a verdade por trás desses discursos poderia ter em meu currículo, um processo criminal, pois a justiça do trabalho poderia não entender como racismo institucional e a empresa me processar por possíveis danos que eu poderia causar expondo a situação que passei. Ouvi que eu mulher negra, mãe solteira, com 3 filhos e com a “ficha suja”, posso nunca mais conseguir um trabalho em uma empresa. Além disso eu não tenho condições financeiras de arcar com advogados e uma estratégia de gerenciamento de crise que limparia rapidamente a imagem da CEO.

Naquele momento o medo me tomou novamente. Um processo criminal, desemprego, uma marca, uma mancha no meu currículo.

Após o baque, verifiquei como as coisas realmente não mudaram.

Lembrei dos meus e das minhas ancestrais que ao tentar fugir da lógica escravagista de um século atrás levavam no corpo a marca de “escrava arredia”, “escravo fujão”. Lembrei da lógica jurista demorou quase 500 anos pra começar a garantir direito a pessoas negras quando elas reivindicaram seu direito a um salário justo, isso não hoje, mas lá na época da escravidão.

Qual seria a diferença entre mim e meus ancestrais? Essa marca descendente se mantém e eu vou ser a mulher negra como a de séculos passados que vai resistir e ter em seu lombo essa marca, pois não aceitarei essa mordaça. Eu prefiro essa marca no meu lombo, mesmo colocando em risco a garantia de subsistência para os meus filhos e minha filha, pois quero que eles e ela saibam que sua mãe, foi uma dessas mulheres que se levantou contra a violência das relações de trabalho.

Eu quero dizer pra todas as mulheres (sejam elas trans, cis) e principalmente pra todas as mulheres negras trans e cis desse país que elas devem lutar todos os dias pelos seus direitos e que elas não devem achar que o único discurso que nos cabe é o da meritocracia e do trabalho duro, porque eu trabalhei duro, muito duro por acreditar que seria vista e quando questionei (assim como aprendi com a pessoa que leva essa empresa) sobre o meu direito enquanto trabalhadora, fui desligada, desplugada, por não ter o comportamento correto (palavras ditas no momento do meu desligamento).

Quero dizer a todas as empresas que usam do discurso da diversidade e inclusão que as pessoas que entrarem em suas empresas por esse discurso deverão ser tratadas com respeito e não somente para estampar capas que gerarão uma proteção a sua marca para que ela atraia o nosso público negro e lgbtqia+ para consumir seus produtos e serviços, aumentar parcerias b2b e diminuir impostos por ter um selo de empresa adepta a inclusão racial, de gênero e de deficiências.

Termino esse relato com o coração na mão.

Porque a realidade é que hoje ainda tenho 3 filhos pra sustentar. Sou negra, gorda, bissexual e sei que pra mim a empregabilidade em meio a uma pandemia é reduzida ao mínimo  (inclusive, a empresa que trabalho, pontua essas questões – na teoria, gerando engajamento, views e principalmente, fator de lucro). Sei que empresas realmente podem não me querer. Estou verificando meu orçamento, pensando como será o amanhã porque ainda sou o elo mais fraco e agora posso ter a marca em mim de uma mulher que não se comporta “corretamente” pra receber um salário em uma empresa (a meta de trabalhar na XP, pode não mais valer).

Sei que a justiça pode não estar do meu lado pois e um juiz que não entende a questão racial como problema estrutural no Brasil pode me condenar, mas a partir de agora minha vida será conduzida por esse propósito, pois todos os meus dias serão dedicados a garantir a diminuição das desigualdades raciais em todo campo de trabalho e principalmente, demonstrar que todas as pessoas sejam elas de qual gênero, raça e etnia forem devem ter seu trabalho e sua intelectualidade sejam valorizados, respeitados e principalmente remunerados em qualquer lugar que elas estejam.

Sei que haverão pessoas que dirão que isso aqui é vitimismo e que os estrategistas de marca se posicionarão de uma forma que eu pareça equivocada ou vilã da história. Mas isso também é comum, assim como fazem com casos que acontecem com mulheres, pessoas LGBTQIA+, mas quero dizer que eu estou aqui pra mostrar, mesmo que não queiram ver e me ouvir que não adiantam estruturas super modernas se por entro os velhos hábitos e formas de ver as pessoas continuam os mesmos. Eu não tenho milhões de reais pra me defender, mas eu tenho a minha voz e a minha consciência limpa todos os dias de que eu dei o melhor de mim e lutei pelo direito de ser remunerada por isso. O dinheiro não compra liberdade, o que te dá liberdade é a sua coragem de enfrentar aquilo que é injusto e é isso que estou fazendo agora.

Temo pelo amanhã. Temo pela falta de dinheiro e pelo futuro dos meus filhos. Me disseram que posso nunca mais conseguir emprego, pois não querem pessoas que questionem, mas como disse Michelle Obama:

“Não podemos nos dar o luxo de esperar que o mundo seja justo pra começar a nos sentir visíveis. A gente tá longe disso, o tempo não vai nos permitir isso.

Mulheres Negras “Devem procurar as ferramentas dentro de si pra serem ouvidas e pra
usarem a sua voz.”

Por isso enquanto eu tiver voz, eu não vou me calar.

Angela Medeiros

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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