quarta-feira, outubro 27, 2021
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Resistência e Memória: Dia Nacional da Consciência Negra

O “Dia Nacional da Consciência Negra” 20 de novembro, foi instituído em homenagem a Zumbi dos Palmares, preto escravizado, que liderou a resistência no Quilombo dos Palmares na Serra da Barriga-AL, assassinado 1695. Lutou até a morte contra a opressão dos escravocratas e as mãos sujas de sangue de carne preta em nome do poderio econômico, da soberba e do racismo estrutural! A Serra da Barriga, hoje, Parque Memorial Quilombo dos Palmares, espaço de memória coletiva, dolorosas e sensíveis.

O Dia, infelizmente, ainda não é festivo, não há muito o que comemorar, os confetes e aplausos para as migalhas gotejadas em nome da igualdade, no país da necropolítica e do mito da democracia racial. Não será mais um “feriado” paradoxal, para celebrações e cortejar autoridades religiosas ou bajular figurões políticos caricatos com status de estadistas, não passando de figuras patéticas, negacionistas e racistas.

A histórica e árdua trajetória de um povo desterrado, no processo diaspórico africano, sob a égide supremacista branca e cristã. Verteu o sangue de indígenas, africanos e afro-americanos escravizados, para irrigar canaviais, cafezais e dar brilho aos metais preciosos de seus infames senhores. Uma luta homérica defendida por grandes vultos como o “poeta dos escravos” Castro Alves, os abolicionistas Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e tantos outros que contribuíram nessa caminhada de resistência.

No país constitucionalmente laico, reinam os feriados cristãos católicos, falsos heróis, golpes e viva a igualdade racial e cultural! Viva a hipocrisia do sagrado e do profano, a ignorância e a intolerância religiosa, contra as religiões afro-brasileiras! O enfrentamento do racismo, não se resume apenas as pautas políticas da direita, esquerda, centro ou a polarização estúpida, que não discute, ataca e desrespeita. Essa causa, o parâmetro não se restringe aos aspectos ideológicos, religiosos, e sim, de princípios, de caráter e de respeito. “Somos todos iguais perante a lei”, segundo o Artigo 5º. da Constituição Federal, fora disso, é crime ou estupidez!

O dia, como todos os dias o são, invariavelmente, evidencia a necessidade de se refletir sobre a importância do legado cultural africano na formação da sociedade brasileira, um despertar para a questão vergonhosa vivida pelos pretos no Brasil! O racismo estrutural, a indiferença, a indigência, a rejeição, a violência, o preconceito e todo tipo detestável de “olhares tortos” e pré-julgamentos, para os “sempre suspeitos”, das favelas, dos becos, das periferias e alvos preferidos das “balas perdidas”, que quase sempre, encontram um pobre e preto.
É preciso e urgente, um despertar ruidoso da sociedade e do Estado, com políticas públicas de inclusão, respeito a diversidade e o combate ao preconceito. “Não basta não ser racista: sejamos antirracistas”! É necessário um olhar crítico, atento e humano, para uma população de indivíduos excluídos historicamente, imersos em injustiças e abandono. Marginalizados pela cor preta da pele, jogados na vala comum do abismo social, em uma sociedade hipócrita e racista, em que sua existência, tornou-se afronta aos racistas que ainda rezam e um eviterno digladiar, para não serem mortos pela truculência dos joelhos do Estado no pescoço.

Ainda carregam na alma as máculas do açoite covarde e do exílio, o ranço mau cheiroso das senzalas insalubres e as mãos calejadas de quem construiu boa parte da grandeza desta nação. Ingrata, que insiste em renega-los, “negar” uma das maiores vergonhas históricas da humanidade, a escravidão e que não há discriminação racial e social, contra os anônimos nas páginas policiais e nos obituários diários. Que tiveram suas narrativas ignoradas, silenciadas e negadas.

Ou seja, qual o perfil da maior população carcerária do Brasil, de analfabetos, de residentes em amontoados e pendurados em barracos nas periferias do país, segundo o IBGE? Coincidência? Não. Ausência histórica de políticas públicas de inclusão e uma sociedade, em parte, cúmplice, acomunada. Não são as “soluções” eleitoreiras e midiáticas, que não emancipam e não incluem de fato, a Lei Áurea trouxe muito mais visibilidade para a Princesa Isabel que para os seus “contemplados”. A preocupação do Estado brasileiro e da sociedade escravocrata, foi muito maior com os prejuízos econômicos dos senhores que tiveram que “abrir mão” de suas mercadorias pretas, do que, com os alforriados, marginalizados, não indenizados, desempregados, analfabetos, desabrigados e desamparados de qualquer política pública. Legado da mentalidade latifundiária, patriarcal, alicerçada no coronelismo, no etnocentrismo, no machismo e no racismo, como estrutura basilar em um país miscigenado.

Estudos apontam que a partir do século XVII em Pernambuco, escravizados africanos, vítimas do senhorio cristão europeu, foram trazidos pelos portugueses para o Brasil, em navios asfixiantes e em condições ultrajantes. Sob o tinir dos grilhões, desembarcaram e, com eles, além da dor do exílio, a saudade da terra mãe. Sua garra e suas raízes como armas de resistência e esperança. A identidade que os açoites e a senzala, que o racismo e a intolerância, não conseguiram silenciar ou apagar.

A construção da grandeza dessa terra, inúmeras vezes marcada pelo sangue alheio, para saciar a sanha de latifúndios canavieiros, cafeeiros, numa supremacia branca escravocrata e ordinária. O sal gotejado na terra fértil, irrigada pelo suor de bantos e sudaneses, fez a fortuna e a doçura da cana. Do açúcar alvo como a neve, que deixava mel o amargo café. Temperado pela vergonhosa escravidão dos renegados e a miséria dos ignorados! Pelas mãos e pés de guerreiros que por sua pele preta, resistentes como ébano, foram historicamente inferiorizados e desclassificados, pela pseudociência da Eugenia, alicerçada na intolerância e no darwinismo social.

É inegável o quanto somos um país miscigenado, o indígena americano, o branco europeu, o preto africano, uma diversidade cultural e religiosa riquíssima, fruto do sincretismo e do ecletismo cultural-religioso. Que nos legou não só um povo multiétnico, como também, o cristianismo e a catequese etnocida, seus interesses econômicos e suas convicções; a grandeza das religiões de matriz africanas e suas tradições milenares. De Xangô deus da justiça, do fogo, a Tupã dos Tupis-guaranis. O mesmo Atlântico que banha a Baía de todos os santos, são as mesmas águas que banham a África e seus orixás, evidenciando o quanto nossas diferenças, nos tornam iguais!
A educação, como vários outros setores da sociedade, possui um papel preponderante nesse processo ardoroso de transformação nesse âmbito nacional com ares provincianos. Do coronelismo, do “sabe com quem você está falando”, racista, machista, homofóbica, negacionista, exigindo um debate antropológico, filosófico permanente, numa busca incansável pelo respeito e a compreensão crítica do papel de cada cidadão, responsável por transformar essa realidade de miséria, preconceito e intolerância. Sempre serão nossas atitudes e o nosso caráter, determinantes para qualquer mudança e em qualquer circunstância. Em conformidade com Santo Agostinho: “Na essência somos iguais, nas diferenças nos respeitamos”.

É notório e o quanto nos enriquece, essa convivência com tamanha diversidade étnica, religiosa e cultural. Que nos coloca frente a frente, às questões desafiadoras, necessárias, pautadas pelo respeito e a tolerância. Princípios elementares, básicos, grandiosos e determinantes para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna, igualitária e equânime. A luta das minorias, o grito dos excluídos deveria ser um esforço de todos! Um incansável enfrentamento contra a violência que exterminam na maioria das vezes, jovens e mulheres pretas diariamente – bem como, não pretas também. O feminicídio é alarmante no Brasil, reflexo do modelo de sociedade que nos tornamos, e que temos o dever moral, humano de mudar! Ainda ansiamos por uma justiça, por uma polícia, por uma sociedade, por um discurso religioso, que venham a julgar pelo caráter e não, pela conta bancária, pelo endereço ou pela cor da pele.

No horizonte, as conquistas começam timidamente a raiarem. As representações nos mais diversos espaços da sociedade, começam a ser ocupados por afrodescendentes, quilombolas, em posições de destaques e até então, preenchidos historicamente, por brancos. Nas últimas eleições, por exemplo, vimos essa representação de pretos e pretas, eleitos e eleitas, dando ainda mais vozes e representatividades, a quem por tanto tempo, foram silenciados. Conquistas emblemáticas e históricas, que revelam a pujança da resistência afro, sinônimo de conquista e respeito, como o de Erika Hilton em São Paulo, primeira trans negra eleita vereadora e Vilmar Kalunga, primeiro quilombola eleito prefeito no país, no município de Cavalcante-GO e que com certeza, não serão os últimos.

Portanto, querendo ou não, todos temos sangue preto! Alguns, nas mãos. A mesma que segurou o chicote e hoje ostenta o racismo e a intolerância. Que o Dia Nacional da Consciência Negra, seja para além das comemorações, que traga a reflexão e as possibilidades de mudanças reais, no combate ao preconceito e a intolerância. Que reverberem o som dos atabaques e da resistência pelo mundo, a vida dos pretos importam, porque “a casa-grande surta quando a senzala aprende a ler”!
Axé!

Marcos Manoel Ferreira, Professor, Historiador e Pedagogo. Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana; Mestrando em História – Cultura, Religião e Sociedade – pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), professormarcosmanoelhist@gmail.com
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