O sexismo e a indigência da dupla moral dos VIPs do Itaquerão, por Fátima Oliveira

A cidade de São Luís (MA) continua de beleza única! Na primeira crônica que escrevo em plagas ludovicenses, recorro a um antigo vocábulo. Refiro-me à palavra “curra” – violência sexual praticada por mais de um indivíduo, tornando a violentada mais indefesa.
Na ilha de São Luís, quando se dizia “fulana foi currada”, significava abuso sexual por vários homens, por vias vaginal e anal.

Definição tão introjetada que a imagem que me veio à cabeça quando ouvi o jogral orquestrado contra a presidenta foi a de uma curra vindo de um setor do Itaquerão, o de ingressos mais caros, lugar de gente VIP – termo obsoleto da década de 1935 a 1945, do inglês: “Very Important Person”. Hem-hem!

Tive a certeza de que, se quem ocupasse a Presidência da República fosse um homem ou um cachorro, não teriam ousado desejar currá-lo. Isso tem nome: machismo absoluto! O que ouvimos no Itaquerão foi a explicitação de um desejo criminoso: currar a mulher que ocupa a Presidência da República, como uma forma vil de desmoralizá-la publicamente, por parte de gente que, não tendo votos para ocupar a Presidência da República, odeia quem tem! Nada de Dilma sitiada! Um tiro pela culatra que uniu o país em torno de Dilma!

Há mais: os VIPs do Itaquerão são tão toscamente hipócritas que, apenas para consumo público, acham sexo anal uma forma de xingar, consagrando uma burrice em palavrão e ofensa… Nada mais que a mais pura tradução da ignorância em matéria de sexualidade humana e preconceito supostamente dirigido, erradamente, a gays, como se sexo anal fosse monopólio deles!

Vamos consensuar: quem acha que o sexo anal consentido é degradante tem cabeça de camarão, que o saber popular no Maranhão diz que contém merda, pero não é vero: a ciência diz que na cabeça do camarão fica o sistema excretor, inclusive de urina, exceto fezes, que são excretadas pelo télson (ânus), que fica no último segmento abdominal.

O sexo anal consentido, sem conotações de violência, é uma forma universal de obtenção de prazer sexual tão antiga quanto a humanidade, embora algumas culturas ou religiões considerem errado, crime e/ou pecado. Tanto que a maldita Santíssima Inquisição condenava à fogueira quem o praticava, menos sacerdotes católicos!

Sacerdotes da antiga Mesopotâmia praticavam o sexo anal como meio de conexão com os deuses, acreditando que o homoerotismo refletia capacidade espiritual! Para o escritor Marcelo Tsitsa, “na Grécia Antiga não existiam os termos ‘homossexual’ e ‘heterossexual’, bem como não havia uma identidade sexual como há hoje. Um homem poderia ter relações sexuais com homens e mulheres, tudo dependia da beleza”.

O caso protagonizado pelos VIPs do Itaquerão atesta que não são os “finos” que se acham, apenas se revelam curradores, isto é, criminosos; e lembram aquele norte-americano invejoso da grama dos jardins e parques ingleses que um dia perguntou a um jardineiro inglês por que a grama da casa dele, nos Estados Unidos, nunca ficava como aquela do jardim que ele cuidava. Ao que o jardineiro respondeu: “Semeie a grama e espere mil anos…”.

Tem razão Dilma ao dizer categoricamente: “Eu não vou me deixar (…) atemorizar por xingamentos que não podem ser nem sequer escutados pelas crianças e pelas famílias. Aliás, na minha vida pessoal, eu quero lembrar que eu enfrentei situações do mais alto grau de dificuldade. Situações que chegaram ao limite físico. Eu suportei não foram agressões verbais, mas agressões físicas. E nada me tirou do meu rumo”.

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