O show de horrores da Câmara em 7 charges e poucas palavras

 

Para uma coisa a votação de ontem pode ter servido: para apresentar a Câmara dos Deputados aos brasileiros, que talvez não tivessem noção do tanto que ela é ruim — provavelmente a pior da História

Por Kika Castro, Do Revista Fórum

Estou sem palavras para definir o show de horrores a que assisti, por várias horas, na TV Câmara ontem à noite. Ou com tantas palavras, tão entristecidas e prolixas, que não ficariam bem em um post de blog. Mas acho que tanta gente boa já escreveu a respeito que não faria muita diferença eu escrever também.

Sobre Bolsonaro dedicando seu voto a um torturador — o torturador de Dilma Rousseff. Sobre Bolsonaro filho dedicando seu voto aos “militares de 64”. Sobre o voto emblemático da deputada Raquel Muniz (PSD-MG), que dedicou seu “sim” ao marido, Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros que, segundo ela, faz o Brasil ter jeito, mas foi preso poucas horas de poissuspeito de corrupção (fraude na Saúde para favorecimento pessoal). Sobre outros nonsense que justificaram seus votos com coisas como “por todos os corretores de seguro”, “pela paz em Jerusalém”, “pela família quadrangular”, “pelo aniversário da minha neta” ou contra “proposta de que criança troque de sexo na escola”. Sobre o xou da Xuxa que foi deputado mandando beijo pra mãe, pro netinho, pro sobrinho.

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Bom, tá aberto um precedente. Você pode votar em qualquer pessoa para presidente da República, inclusive uma mulher que nunca se envolveu diretamente em escândalos de corrupção, e seu voto pode ser derrubado por deputados patéticos sem que eles sejam capazes de apontar qual foi o crime de responsabilidade que a presidente eleita cometeu. E eles podem colocar em seu lugar um cara que jamais seria eleito presidente por meio das urnas e que terá como vice um cara que comprovadamente mantém milhões de dólares em contas secretas na Suíça.

Mas, como eu disse, eu não ia escrever sobre nada disso. Não ia escrever sobre como já está quase certo que o Senado vai acompanhar a Câmara*. E como está quase certo que uma presidente da República que não cometeu crime será destituída de seu cargo até o fim deste ano. E como essa destituição é um risco para nosso sistema político e nossa democracia. Ou, nas palavras do Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro:

As alianças políticas, no presidencialismo, garantem a eficiência para legislar e governar, mas não substituem o apoio soberano representado pelo voto popular consignado à atual presidente. Não se pode trocar a soberania popular por um oportunismo político-partidário. (…) a organização do sistema constitucional brasileiro é clara e, por essa razão, definiu os limites legais para a efetivação de um processo de destituição. Ignorá-los afeta o funcionamento do sistema político e distorce a força e operacionalidade que devem ter a Constituição e as leis.

Nossa preocupação não é isolada, porque o sistema das Nações Unidas e a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) também dela compartilham. (…)

Deve-se julgar a partir da decência e da probidade pública os atos indecentes e criminosos e não o inverso.

Esse princípio será também essencial para a luta contra a corrupção que assola o país e que dever ser combatida até o fim. É do interesse de todos que a investigação chegue até suas últimas consequências.

A conscientização deve valer-se da verdade e da justiça; e a consciência política só é válida quando se expressa em conformidade com a institucionalidade em vigor no país.

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados
Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Também não vou escrever aqui sobre como parte da culpa pelo que vivenciamos ontem é do PT, que se aliou ao PMDB para chegar ao poder. Colocou Michel Temer — a raposa –, para tomar conta dos ovos no galinheiro. O jornalista Lucas Figueiredo, em um texto brilhante, faz uma reflexão muito boa sobre a questão da corrupção, que muitos “inocentes úteis do ‘Fora Dilma” pensaram ser o real mote do processo de impeachment contra ela. Vou dizer que é no mínimo inocente achar que colocar Michel Temer na presidência e livrar Eduardo Cunha da cassação (que é o troféu que ele vai ganhar de seus pares) sejam uma forma de lutar contra a corrupção.

Para uma coisa a votação de ontem pode ter servido: para apresentar a Câmara dos Deputados aos brasileiros, que talvez não tivessem noção do tanto que ela é ruim — provavelmente a pior da História. (Bom, isso supondo que os brasileiros em geral, tão despolitizados como são, tenham mesmo se dado ao trabalho de assistir a tudo ontem).Brasileiro tem por hábito jogar na conta do Executivo (prefeito, governador e presidente) todos os males do momento, esquecendo-se que o Executivo pouco consegue fazer sem o aval do Legislativo. Brasileiro vota pros cocos e, geralmente, se esquece de quem votou pouco depois (você ainda se lembra de quem foram seus candidatos a deputado estadual, federal e senador nas eleições de 2014?  Condiz com o que você pensa?). 15 infográficos analisando a votação dos deputados por partido, Estado, renda do deputado, cor, gênero, processos na Justiça etc.

Considerando que não vou escrever sobre nada disso, porque não tenho mais o que acrescentar e porque estou sem palavras — ou com palavras demais –, deixo vocês com ilustrações que, em poucas palavras, falam muito melhor que esta blogueira. As charges são autoexplicativas e começo pela minha favorita, do Duke. Boa segunda-feira (e boa sorte) a todos:

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Charge do Duke no jornal O Tempo.

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Charge de Quinho

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Charge do Lute no Hoje em Dia

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Charge de Mariano para A Charge Online.

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Charge de Samuca no Diário de Pernambuco

latuff-impeachment-4

Charge de Latuff

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Sobre isso, meu pai, coautor deste blog, escreveu o seguinte:

“O Brasil continua como há 500 anos, sendo explorado em suas riquezas pelos estrangeiros ricos, com a cumplicidade da “elite” brasileira e às custas da maioria imensa da população.

Não há esperança no Senado. Não acredito numa revolta das massas para pressionar de fato os senadores. O povo continuará se comportando com a abnegação bovina de sempre. E continuará sendo enganado. Vi isso em 1964, e não acho que hoje, por causa da internet, será diferente. Claro, enquanto for possível e nos for permitido, continuaremos com nosso trabalho, pregando no deserto.

E esperando que haja uma mudança no mundo. Todos os nossos avanços sociais vieram de fora, como o fim da escravidão negra. E principalmente as mudanças nas relações de trabalho, precedidas por mudanças feitas em países mais avançados, após a revolução francesa e sobretudo na Rússia e na China.

Espero estar errado.”

 

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