O surrealismo político de extração macarthista no Brasil

Não tem sido fácil a vida sob o cerco exacerbado do fundamentalismo evangélico – do católico também, todavia menos afoito – e a direita tacanha, que odeiam o PT e, por tabela, a esquerda e não se conformam que perderam as eleições presidenciais de 2014!

Por Fátima Oliveira, do O Tempo

Ensaiaram uma tentativa de impeachment da presidente Dilma – ainda em tubo de ensaio, embora sem respaldo jurídico – e pegaram carona para “presidir” o Brasil no jaguncismo político, instalado na presidência da Câmara dos Deputados, esquecendo que o Brasil tem como regime de governo o presidencialismo.

Escrevi em “Uma República democrática e laica sob o ‘sistema jagunço’” que “Eduardo Cunha é fundamentalista roxo, orgânico e militante, o que faz toda a diferença, vide o sistema ‘jagunço’ de fazer política, um sistema de poder que ele implementa com ares e desenvoltura de presidente do Brasil!” (O TEMPO, 17.2.2015).

O sistema jagunço instaurou no Brasil o surrealismo político de extração macarthista, que se expressa no mais puro descontrole da razão! E é o surrealismo em sua acepção original, como o entendia sua figura de proa, o francês André Breton (1896-1966): “Automatismo psíquico em estado puro, mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral”.

Se no mundo das artes e da literatura o surrealismo tem um legado respeitável, o mesmo não se dá no mundo da política. Não incursionarei pelo surrealismo como movimento artístico e literário. Usarei o vocábulo com o significado com o qual se popularizou: “estranho, absurdo, que não corresponde à realidade, fora da realidade”.

Para Rainer Sousa, “nos dias de hoje, o macarthismo é utilizado para se definir qualquer tipo de perseguição sistemática aos comunistas”. É um vocábulo originado da crítica aos discursos e posturas de ódio ao comunismo e a lésbicas e gays do senador pelo Estado de Wisconsin, o republicano Joseph McCarthy (1908-1957). O macarthismo expressou um brutal desrespeito aos direitos civis nos Estados Unidos de meados da década de 40 à de 50, um período de caça às bruxas na administração pública, nos meios políticos, artísticos, literários e científicos, como política de Estado!

Cá com meus botões, tenho constatado que a conjuntura brasileira está contaminada de surrealismo político de extração macarthista; felizmente, não é uma política de Estado, mas tenta por todos os meios possíveis e inimagináveis se apoderar do Estado, mesmo não ganhando as eleições presidenciais em 2014, para dar vazão a uma sanha antidemocrática do mais absoluto ódio aos setores progressistas da política – cerceando inclusive o direito de ir e vir –, à liberdade reprodutiva, aos direitos sexuais e ao combate às desigualdades sociais e raciais, sobretudo!

Há um sonho macabro de reeditar a casa grande e a senzala, configurado soberbamente no ataque aos direitos trabalhistas. De um tanto que circulou pelo Twitter que a atual Câmara de Deputados, na toada que vai, revogará a Lei Áurea. O que não é de duvidar sob a égide do jaguncismo político com o apoio do neopentecostalismo mais rasteiro e vulgar, que almeja ser dono dos nossos corpos e crê que chegou a sua hora de ditar, por meio de leis, a sua visão de mundo e moralidade para todo o povo para dar concretude à máxima: “O Brasil para Jesus”. E que se dane a República democrática e laica que é o nosso país, porque “o Brasil para Jesus” é um Estado teocrático!

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